Nesta última Data Fifa, Memphis Depay passou a ser não só o recordista de gols com a camisa mágica da Holanda, mas também o líder em assistências da história da Laranja Mecânica. Claro que ele merece parabéns pelos seus números, por sua trajetória em uma das principais seleções do futebol mundial. Tanto que recebeu uma homenagem em Amsterdã na goleada contra a Finlândia por 4 a 0: um bandeirão com a imagem característica dele, que coloca os dedos ali pelos ouvidos para celebrar gols. Só que aí entra o “mas”...
Como quase tudo pode e deve ser relativizado, os recordes de Memphis despertam certa crítica em seu país porque eles não levaram a Holanda (não vou falar nem escrever Países Baixos só porque estão pedindo e está na modinha) a títulos ou mesmo a vitórias épicas. São 54 gols para ele em 106 jogos, uma ótima média de 0,51 tento por partida, mas apenas seis gols dele pela querida Laranja foram marcados em Copa do Mundo e Eurocopa, só um em mata-mata desses nobres torneios. Mais: apenas quatro gols dele saíram contra seleções campeãs do mundo. Dentre as maiores vítimas de Memphis com a camisa holandesa, estão equipes de nível muito baixo, como Gibraltar, Belarus, Lituânia, Luxemburgo, Malta e Montenegro.
Quem falou publicamente sobre essa realidade foi o lendário Gullit, Bola de Ouro de 1987 e campeão como capitão da Holanda da Eurocopa de 1988, fazendo de cabeça o primeiro gol da final contra a União Soviética inclusive.
“É uma conquista icônica (recorde de Memphis na seleção), não vou negar. Mas, se realmente quer ser grande, você precisa marcar gols decisivos em um grande torneio. Van Persie, Robben, Sneijder... Eles marcaram em momentos que realmente importavam, é disso que as pessoas lembram. Isso constrói o teu legado”, afirmou o craque e ex-cabeludo ao programa Rondo, do canal Ziggo Sport, sem nem precisar citar o parceiro Van Basten, que fez gols antológicos na conquista da Euro-1988.
Há uma tendência mundial, com o aumento do número de jogos das seleções, de os principais artilheiros das equipes nacionais serem jogadores deste século. De Cristiano Ronaldo a Messi, de Luis Suárez a Harry Kane, de Klose a Haaland, de David Villa a Lukaku, de Giroud (vai ser superado por Mbappé em breve) a Neymar (superou Pelé contando apenas jogos reconhecidos como oficiais pela Fifa). Então não chega a ser algo muito estranho ver Memphis Depay na frente, em número absoluto de gols (54) e assistências (35), de craques consagrados, como Cruyff e Bergkamp.
O maior jogador holandês de todos os tempos continua sendo o mesmo, com uma média de gols superior à de Memphis na seleção: 0,69 (33 gols em 48 jogos, sendo que alguns deles na campanha lendária do Carrossel Holandês na Copa do Mundo de 1974, balançando as redes de Brasil e Argentina). Cruyff jogou só um Mundial e foi eleito o melhor jogador da competição. Memphis apareceu bem na Copa de 2014, quando, na condição de reserva, anotou dois gols na fase de grupos, um contra a Austrália e outro contra o Chile.
Só que, quando ele virou o grande nome do ataque da Holanda após as aposentadorias de Robben, Sneijder e Van Persie, a seleção laranja não conseguiu nem se classificar para a Eurocopa de 2016, a primeira com 24 seleções. A equipe deu vexame e terminou em quarto lugar em seu grupo, atrás de República Tcheca, Islândia e Turquia (se ficasse em terceiro, poderia se classificar em repescagem, mas nem isso obteve). Depois, a Holanda naufragou também nas eliminatórias para a Copa de 2018, ficando em terceiro lugar na chave que tinha França e Suécia. Vale lembrar que está cada vez mais fácil se classificar para Mundiais e Eurocopas devido ao inchaço desses torneios. A Itália fez uma verdadeira proeza ao não avançar para as duas últimas Copas (e pode ficar de fora da terceira em sequência).
Após a última Eurocopa, em que a Holanda fez boa campanha e só caiu na semifinal diante da Inglaterra, parecia o fim do ciclo de Memphis com a camisa laranja. Isso porque outros jogadores tomaram o protagonismo que deveria ser dele. Gakpo, Xavi Simons, Malen e De Vrij fizeram os gols da Holanda no mata-mata. Vamos lembrar que na Copa de 2022 a Holanda saiu apenas nos pênaltis contra a Argentina com Memphis no banco na hora mais decisiva: a Laranja arrancou empate no final da partida com dois gols do caneludo Weghorst. O único gol do agora camisa 10 do Corinthians (ele exigiu o número no Timão neste ano) em mata-mata de Copa ou Eurocopa saiu contra uma jovem seleção dos Estados Unidos nas oitavas de final da Copa do Qatar, um jogo tranquilo que a seleção holandesa venceu por 3 a 1.
Memphis não tem culpa de a Holanda ser cabeça de chave em grupos de eliminatórias e ter que enfrentar muitas seleções de segundo e terceiro escalão no Velho Continente, o que ajuda a inflar seus números. Mas ele poderia e deveria sim contribuir bem mais com sua qualidade técnica e sua liderança dentro do grupo nos torneios e nos jogos mais importantes. Creio que o Corinthians ajudou a recuperar de certa forma o jogador holandês, que se sente muito à vontade com os amigos de longa data na seleção de seu país.
Com seu sucesso nas eliminatórias e seus recordes (Sneijder, para mim o melhor jogador do mundo de fato em 2010, foi superado em número de assistências também porque Robben, infelizmente, não fez aquele gol na cara de Casillas na final da Copa de 2010), está claro que Memphis será convocado por Ronald Koeman para o Mundial do ano que vem. A Holanda está virtualmente classificada porque tem mais pontos e muito mais saldo de gols do que a Polônia. E, se Koeman tinha alguma dúvida quando veio ao Brasil ver jogo do Memphis no Timão, agora sabe que precisa mesmo dele.
Contando já com a classificação da Holanda, ela tem tudo para bater o recorde de invencibilidade de jogos em Copas do Mundo. A última derrota da Laranja foi justamente na decisão de 2010 contra a Espanha, quando tomou um gol de Iniesta nos últimos segundos da prorrogação. Ficou 7 jogos sem perder no Mundial de 2014 e mais 5 no de 2022. Basta não perder na fase de grupos (a Holanda é a única seleção que jamais caiu nessa fase na história das Copas) que a Laranja vai estabelecer uma nova marca em Mundiais. Mas isso valerá muito apenas até a página 2.
Se a Holanda ficar invicta mais uma Copa toda e terminar como vice-campeã de novo, vão falar que a Laranja sempre amarela, que não vinga na hora mais importante, que ela é a rainha da fase de grupos e que pipoca nos mata-matas e nos pênaltis. O mesmo raciocínio cabe para o Memphis. Se ele não fizer gols na Copa, sobretudo em mata-matas e contra seleções de grande porte, vai terminar sua carreira na Holanda como um verdadeiro leão (sua maior tatuagem) de eliminatórias e amistosos e um gatinho em Mundiais, Eurocopas e decisões.
GOLS DE MEMPHIS DEPAY PELA HOLANDA
Gibraltar - 5
Montenegro - 4
Belarus - 3
Escócia - 3
Malta - 3
Turquia - 3
Alemanha - 2
Áustria - 2
Bélgica - 2
Estados Unidos - 2
Finlândia - 2
Irlanda do Norte - 2
Lituânia - 2
Luxemburgo - 2
Peru - 2
Austrália - 1
Bósnia e Herzegovina - 1
Canadá - 1
Chile - 1
Dinamarca - 1
Espanha - 1
Estônia - 1
França - 1
Geórgia - 1
Macedônia do Norte - 1
Noruega - 1
País de Gales - 1
Polônia - 1
Portugal - 1
Romênia - 1
GOLS POR COMPETIÇÃO
Eliminatórias da Copa - 22
Amistosos - 11
Nations League - 8
Eliminatórias da Euro - 7
Copa do Mundo - 3
Eurocopa - 3
GOLS POR FASE DOS TORNEIOS
Eliminatórias - 29
Fase de grupos - 12*
Mata-mata - 2*
*Contando Copa do Mundo, Eurocopa e Nations League
