Pode passar o tempo que for, mas, ao final de cada ano, você esbarrará em algum momento em alguma discussão sobre quais clubes são campeões mundiais, quais já tiveram rebaixamentos, quem é o legítimo vencedor do Campeonato Brasileiro de 1987 e quem deve ficar com a Taça das Bolinhas. Esses temas são tão tradicionais na época natalina quanto o show de Roberto Carlos na TV Globo.
As conversas passam de geração para geração e pouco mudam. Basicamente por clubismo, cada um reconhece ou não os títulos do Mundial de Clubes, da Copa Intercontinental e da Copa Rio. Da mesma forma, apontam-se rebaixamentos para rivais em campeonatos que não tinham o descenso em seus regulamentos e nos quais o adversário até foi campeão. Tais conversas animam e acirram os bares e os programas de televisão, afinal polêmicas, vazias ou não, dão audiência e geram muitos cliques. Espero que este meu post, aliás, seja bastante lido (o título e o tema principal dele não são chamativos à toa) e também estimule novos e velhos debates.
O Mundial de Clubes voltou a ser disputado em dezembro, pertinho do Natal, após quatro edições seguidas em países árabes com a final em fevereiro, consequência da pandemia e seu efeito no calendário. Desde aquela derrota do Flamengo para o Liverpool em 2019 no Qatar que o torneio enxuto da Fifa não acontecia no último mês do ano.
Outra vez um time da Premier League conquistou o troféu em cima de uma equipe carioca, desta vez foi o Fluminense quem perdeu para o poderoso campeão europeu. Dirigentes tricolores aproveitaram a disputa da Fifa para pedir à máxima entidade do futebol o reconhecimento da Copa Rio como Mundial, coisa que o Palmeiras já fez muito neste século, sem o sucesso esperado. A Fifa, na atual administração de Gianni Infantino, não tem atendido a pedidos desse tipo. Houve um reconhecimento em 2017 da Copa Intercontinental como Mundial por parte da Fifa, mas isso veio muito por esforço da Conmebol.
Sabemos que reconhecimentos de conquistas do passado acontecem muito em canetadas, agrados políticos, pouco se leva em conta o real valor dos torneios mesmo (o melhor exemplo nacional é o reconhecimento da Taça Brasil como Campeonato Brasileiro).
Um documento da Fifa que o Palmeiras festejou de forma oficial por poucos dias como reconhecimento da Copa Rio passou pelas mãos dos palmeirenses Aldo Rebelo, então ministro do Esporte, e Marco Polo Del Nero, ex-presidente da CBF que acabou afastado da Fifa. Esse lobby resultou basicamente em um breve agrado, pois a Fifa continuou divulgando e fixando em suas mídias os campeões de seu próprio Mundial, que teve uma edição em 2000 no Brasil e, desde 2005, acontece anualmente no mesmo formato. Apesar disso, os vencedores da Copa Intercontinental, sobretudo aqui na América do Sul, continuam ostentando com orgulho máximo o título de campeão mundial.
Rivais e antis chamam de “Copa Toyota” ou Toyotão” de forma errada. A Copa Toyota era apenas um dos dois troféus dados aos campeões da Copa Intercontinental, e essa taça só foi oferecida pelo patrocinador japonês da disputa entre 1980 e 2004, quando houve jogo único no Japão. Entre 1960 e 1979, era apenas a tradicional Copa Intercontinental (uma disputa oficial organizada por Uefa e Conmebol) que era entregue ao vencedor. O Mundial da Fifa de 2000 teve uma taça singular e, desde 2005, vemos em disputa um belo troféu, essencialmente dourado, que virou a “Taça Fifa” dos clubes.
Por uma certa carência, muita gente fica na espera de reconhecimento oficial para festejar conquistas. Mas isso não é preciso, na minha opinião. Cada torcedor sabe o real valor dos títulos de seus clubes e dos rivais. Ficar alimentando discussões sobre a validade ou não dos títulos é divertido, um belo papo de boteco, faço isso de forma profissional há quase 30 anos na chamada Grande Imprensa.
Escuto cartolas e federações, apuro notícias de bastidores, pesquiso a história das competições, mas não tem muito mais o que apresentar de novidade em relação aos Mundiais passados, assim como ninguém mais vai inventar a roda sobre o Brasileiro de 1987 e a desejada Taça das Bolinhas, que continua nas mãos da Caixa Econômica Federal. Esse caso voltou à tona nos últimos dias, pois o Supremo Tribunal Federal negou seguimento a recurso do Flamengo e confirmou no início deste mês o Sport como único campeão brasileiro daquele ano, confirmando assim que o São Paulo é o legítimo dono da Taça das Bolinhas (troféu clássico criado nos anos 70 e que deveria ficar com quem vencesse pela primeira vez o Brasileiro cinco vezes alternadas ou três vezes seguidas, façanhas que o Tricolor conseguiu na primeira década deste século).
Dias Toffoli, ministro e relator, citou decisões anteriores da Justiça e a prevalência do regulamento das competições para brecar assim o Recurso Extraordinário com Agravo do Flamengo (o rubro-negro carioca desta vez incluiu a questão da Taça das Bolinhas no seu recurso). Em 2017, o STF já havia negado dois recursos do Mengão sobre aquele fatídico Brasileiro de 1987, cuja decisão final foi transitada em julgado. Isso foi lembrado na decisão proferida por Toffoli recentemente.
Não há mais nada para se julgar sobre o título nacional daquele ano, assim como não há dúvida legal de que o São Paulo é o detentor da Taça das Bolinhas. O Sport comemora não só o título de 1987, mas o fato de vencer sempre o Flamengo a cada decisão judicial “nova”. O São Paulo não dá sinais políticos de que levará a Taça das Bolinhas para o Morumbi, coisa que Juvenal Juvêncio fez até para referendar o apelido de Soberano do clube paulista.
O que se pode discutir sempre é a questão ética, se o Tricolor deve ou não ostentar um troféu sendo que ele era parceiro do Flamengo na criação do Clubes dos 13 e da então chamada Copa União. Fato é que em 1987 o Flamengo não ganhou a Taça das Bolinhas, Zico deu a volta olímpica no Maracanã com um troféu oferecido pela revista Placar. O Sport, desde 1987, é que ostenta a réplica da Taça das Bolinhas daquele ano.
Aproveitando essa briga entre Flamengo e São Paulo, os dois figuram agora como os únicos clubes tradicionais do país que nunca experimentaram um rebaixamento na história, tudo porque o Santos, outrora “incaível”, vai jogar a Série B em 2024. Mas há muita gente dizendo que flamenguistas e são-paulinos já tiveram sim o gostinho amargo da queda.
Vemos na internet inúmeras citações a rebaixamentos do Flamengo, seja no Carioca (1933) e no Brasileiro (1995, mais especialmente). Também lemos e escutamos muitas coisas sobre a suposta queda do São Paulo no Campeonato Paulista de 1990, inclusive com declarações de jogadores e do próprio Telê Santana apontando para o que seria uma segunda divisão. Na verdade, há uma grande desinformação sobre o assunto, que agora virou fake news.
Se não temos registro do regulamento do Carioca de 1933, ficou fácil encontrar o regulamento do Paulista de 1990 (eu recebi uma cópia dele do amigo PVC). Pelas regras, não havia rebaixamento naquele inchado e confuso Estadual. Isso por si só já bastaria para dizer que o São Paulo não caiu, mas o fato é que o São Paulo acabou sendo campeão paulista em 1991.
Não tem o menor sentido afirmar que um time foi rebaixado sendo que na verdade ele foi o campeão. Seria como cair para cima. O regulamento, por mais estapafúrdio que seja, foi cumprido. Assim como o do Brasileiro de 1995, quando o Flamengo fez campanha terrível e acabou em 21º lugar (eram 24 times e apenas os dois piores eram rebaixados, no caso Paysandu e União São João). Apesar disso, vemos provocações de torcedores rivais e algumas montagens, como famoso ingresso da Série B do Paulista de 1991 (era oficialmente o Grupo Amarelo da Primeira Divisão). Faz parte do futebol a gozação, como tanto fizeram os adeptos do Fluminense na Arábia Saudita nos últimos dias felizes cantando que “o Flamengo não tem Mundial, o Flamengo não tem Mundial, a Copa Toyota não é Mundial, a Copa Toyota não é Mundial”.
Ser o melhor time do mundo em uma temporada é algo indescritível. Só quem já sentiu isso sabe o que é. Não importa muito se existe uma oficialização disso ou não.
O torcedor do Manchester City se sente neste momento de fato o melhor time do mundo. Assim como o torcedor do Real Madrid sentiu isso em 1960, quando nasceu a Copa Intercontinental com esse exato propósito: apontar qual seria o melhor clube do planeta no ano.
O torcedor do Galo se sente campeão brasileiro de 1937? Imagino que alguns sim e que outros não. Talvez o atleticano que tenha vivido naquela época sentiu mesmo o grande vencedor daquele ano no país, eu posso entender o sentimento. Mas também compreendo que os torcedores de todos os outros times do país não levem a sério esse tricampeonato nacional que deram de forma oficial para o Atlético-MG.
O São Paulo não caiu de fato no Paulista de 1990, mas alguns são-paulinos na época, incluindo Raí e Zetti, tiveram uma sensação de rebaixamento por um tempo, mesmo que seja pela falta de informação correta sobre o regulamento do campeonato. E só quem já foi rebaixado sabe exatamente como é esse sentimento, como é se sentir menor. Sentimento é tudo de bom e de ruim também. Ele sim é soberano em nossas vidas. Podemos nos sentir um dia o melhor do mundo em algo e podemos nos sentir também o pior em alguma coisa alguma época. Só a gente sabe o que a gente pensa e sente na verdade a respeito de algumas coisas. Só a gente sabe de fato quando nossos times foram campeões e quando caíram.
