Hoje destaque do Corinthians e vice-artilheiro do Campeonato Brasileiro com cinco gols, Róger Guedes poderia ter começado essa história sete anos atrás. Em 2016, o então presidente Roberto de Andrade, aconselhado por Andrés Sanchez, tomou conhecimento do garoto do Criciúma, mas não acreditou.
“Quando eu negociei o Lucca com o Corinthians acabei fazendo amizade com o Andrés. Numa reunião na CBF, cheguei a comentar com ele e com o Roberto: ‘A gente tem um craque de 19 anos’. Eles disseram que já sabiam e fizeram uma proposta: comprar um percentual, 30% ou 40%, na linha: ‘Ele é muito jovem. Até pegar experiência vai levar um tempo’. Queriam pagar menos”, disse Jaime Dal Farra, presidente do Criciúma de outubro de 2015 até o final de 2020.
Na mesma época, o Palmeiras, que já estava monitorando Róger Guedes, decidiu abrir negociação. Cicero Souza, até hoje gerente de futebol do clube alviverde e que já tinha trabalhado na base do Criciúma, portanto conhecia o atacante, foi quem procurou Dal Farra.
“Corinthians e Palmeiras tem rixa inclusive nisso aí. Eles ouviram que a gente estava conversando com o Corinthians. Aí o Cicero me ligou meia-noite perguntando se havia interesse em negociar com o Palmeiras, que eles pagariam à vista e poderiam ceder quatro jogadores gratuitamente. Falamos em valores, e no dia seguinte o Cicero veio para Criciúma. Ficou dois dias e fechamos um acordo”, disse o ex-presidente.
Segundo Dal Farra, o Palmeiras comprou 25% dos direitos econômicos e pagou R$ 3 milhões. A proposta palmeirense para o atacante também foi fundamental para o desfecho da negociação.
“Róger recebia R$ 8.000 no Criciúma, e eu renovei com ele por mais três anos, com R$ 12.000 de salário no primeiro ano, R$ 15.000 no seguinte e R$ 18.000 no último. O Palmeiras ofereceu cinco anos de contrato, pagando R$ 60 mil logo no primeiro ano, com aumento progressivo anual para R$ 90 mil, R$ 120 mil e R$ 180 mil. Não tinha como competir.”
Róger Guedes só chegou ao Corinthians em 2021. Hoje, ele tem um dos maiores salários do elenco profissional, passando de R$ 1 milhão mensal. Decide jogos e é identificado com o torcedor. Já o Criciúma ainda lucra com ele. No caso de uma futura venda, tem direito a quase 5% do valor de negociação.
Uma virada e tanto considerando que nos primeiros anos em Criciúma não foram poucas as vezes em que o atacante teve o nome incluído na lista de dispensas, com avaliações negativas.
O 'dono da bola'
Róger Guedes nasceu na cidade gaúcha de Ibirubá. Filho mais novo de Walter (Neco) e Marisa, ele tinha no pai e no irmão Gabriel um espelho para o futebol. Ambos foram jogadores amadores.
Nos primeiros anos, Róger defendeu o Vila Nova, clube amador da cidade natal criado por Neco. Também jogou fustal pela Asif (Associação Ibirubense de Futsal) e em um time em Passo Fundo.
Vitalino Barzotto, imortalizado no futebol com o apelido Grizzo, campeão da Copa do Brasil de 1991 pelo Criciúma, foi um dos primeiros a enxergar que o menino tinha futuro.
“Desde os 6 anos de idade dava para ver que o Róger era diferenciado. Ele jogava futsal pela Asif como fixo, jogando mais atrás, e mesmo assim foi artilheiro e campeão”, disse Grizzo à reportagem.
Foi também com a ajuda do veterano que Róger Guedes acabou indo para a base do Grêmio, em Porto Alegre. Grizzo tinha amigos empresários e conseguiu que eles observassem o menino.
A estreia na base do tricolor gaúcho foi em 2007, aos 11 anos. Logo de cara, foi campeão e artilheiro (com sete gols) da tradicional Taça Saudades. A final foi contra o Inter.
“Ele era diferente, chamava a atenção, era também uma liderança. A gente dizia que ele queria colocar a bola embaixo do braço e decidir, e ele decidia, mas ficava bravo quando não recebia a bola”, disse o ex-jogador Cacau, coordenador da base do Grêmio à época, por telefone.
“Ele jogava como um segundo volante, e subia bem para o ataque. Fazia muitos gols, tanto que foi artilheiro em alguns torneios de base. Tinha os fundamentos, muita técnica e força”, disse Luiz Gabardo Júnior, técnico de Róger aos 11 anos no Grêmio, também por telefone.
“Uma coisa interessante é que ele era acompanhado pelo pai o tempo todo. A gente até dizia, uma expressão entre boleiros, que ele era o ‘pai chato’. Pegava no pé do técnico, pegava no pé da coordenação. Tudo porque achava que o Róger não era bem aproveitado”, disse Cacau.
Talvez Neco estivesse realmente incomodado, pois Róger Guedes não chegou a ficar dois anos na base do Grêmio. Dali ele logo foi para a cidade de Criciúma, onde de fato se desenvolveu.
“No Grêmio eram muitos atletas, quase 80. Alguns jogos o Róger não era relacionado. Ele se incomodou e foi para o Porto Alegre FC, um time de empresários, e um deles sugeriu que ele viesse ao Criciúma. Ele chegou aqui com 12 anos. Aos 16, foi profissionalizado”, disse Dal Farra.
Um 'marrentinho' quase dispensado
A trajetória no Criciúma não foi tão harmoniosa.
“Quando ele chegou pra mim, eu ouvi dizer: ‘Está vindo aí um marrentinho que jogou no Grêmio’. Aí eu, aqui dentro pensei: ‘Hum, vou ter problema”, disse João Márcio da Rocha, o Katissa, supervisor da base do Criciúma de 2010 até 2016 e hoje supervisor do Monsoon-RS
Segundo ele, Róger gostava mesmo era de pregar peças nos colegas. “Era moleque de fazer arte. Tirar o cartão [do aparelho] da televisão. Esconder a bolinha e as raquetes de pingue-pongue. Não querer ir pra escola. A gente falava: ‘Tem que ir pro colégio, senão o conselho tutelar não deixa jogar’”.
“Também era um menino bonito, sabe? As garotas olhavam bastante pra ele. De vez em quando eu tinha que ir na escola porque os outros ficavam enciumados. Ele não mexia com ninguém, mas os outros ficavam enciumados: ‘Olha, vem pra cá que ele tá dando probleminha’”, acrescentou Katissa.
Um dos técnicos que mais trabalhou com Róger Guedes no período de base no Criciúma foi o ex-lateral esquerdo Geraldo Spricigo. Com história no clube, ele comandava o juvenil, time em que o garoto treinava, embora ele ainda disputasse jogos pelo infantil com outro treinador.
“Ele já estava como meia-atacante, mas gostava de jogar pelo lado esquerdo. Alguns colegas achavam que ele deveria jogar centralizado, como até hoje alguns treinadores pensam, mas o negócio do Róger é o lado esquerdo. Ali ele arrasta o lateral, cria, incomoda.”, disse à ESPN.
O treinador lembra que nos jogos Róger Guedes demonstrava muito talento, mas o problema era os treinos. O atacante não se empenhava tanto. Isso incomodava muita gente no clube.
“Ele queria só jogar. Ele era danado em relação a parte física. Não queria os trabalhos físicos. Eu via um talento a ser lapidado. Ele era jogador que nunca se apavorava com pressão. Teve um momento que colocamos um GPS nele para monitorar a parte física. O nosso medo era que quando ele chegasse aos 17 anos, ele não suportasse a carga”, disse Spricigo.
“No final do sub-15, quando o Geraldo ia subir pra assumir o sub-17, a gente fez uma reunião com a comissão técnica de todas as categorias. Aí começou: ‘E o Róger Guedes?’. Uns diziam: ‘Ele não é muito intenso. Acho que não vai virar’. Outros: ‘Tá louco, o pai dele incomoda demais’. Realmente, o pai dele cobrava muito, mas ele tinha certa razão. Às vezes, durante o jogo ele gritava pro treinador soltar o time. Por quê? Porque talvez o Róger pudesse fazer mais. Aí na reunião eu olhei para o Geraldo e disse: ‘E aí?’. Ele falou: ‘Esse guri vai dar caldo, vai virar e vai acontecer. O Criciúma vai ganhar dinheiro, vamos trabalhar’”, acrescentou Katissa.
“Você vê ele meio apagado em campo, mas em questão de minutos ele decide a partida. Decidiu recentemente para o Corinthians contra o Atlético-MG. Coisa de Róger Guedes”, disse Geraldo.
Mas a dificuldade em trabalhar o lado físico prosseguiu e piorou quando o garoto passou a fazer parte do grupo profissional, treinando com jogadores mais experientes e jogando pouco.
Foi nessa fase que Grizzo reapareceu. Primeiro procurado pelo pai de Guedes pedindo ajuda. Depois recebeu um contado do Criciúma, que o convidou para trabalhar na comissão do sub-20, em 2015.
“O Neco ligava direto pra mim: ‘Grizzo, tá tendo problema assim, problema assado…’. O problema é que o Róger tem uma personalidade forte. Ele é uma individualidade, acredito que a confiança que ele tinha no futebol dele às vezes criava atritos no coletivo. Ele também era considerado um jogador sem intensidade, como eles falam. Mas não era isso. Ele tem intensidade. Às vezes ele fazia tipo. Ficava bravo porque não era titular, e ele tinha que ter intensidade para ser titular. Era tipo assim: ‘Joga em mim que eu resolvo. Joga em mim. Eu sou bom’. Entendeu? Teve muito desgaste na base. Teve momentos que estavam a fim de dispensar. Não tinha mais ambiente”, disse Grizzo.
“Em 2015, quando eu voltei, o Róger já tinha jogado contra o Flamengo [estreia dele como profissional pelo Criciúma, em 2014], quando ele deu o passe para Cléber Santana fazer o gol. Depois ele fez um gol contra o Corinthians. Isso chamou a atenção. Mas ele caiu de novo. Ele não jogava, voltava pra base e atuava sem intensidade porque não estava bem, não estava treinando forte no profissional, e ficava nisso. Eu vi isso. Como auxiliar e avaliador técnico, eu ouvia certas pessoas do sub-20 falar: ‘Tomara que ele não desça para jogar’. Era um problema”, disse.
Grizzo se chateava e se irritava com os comentários sobre seu conterrâneo. O motivo é que, como testemunhou o garoto crescer, ele sabia que Róger Guedes tinha um potencial a ser explorado.
“Ele deu uma desanimada. Ele tava gordo. Tinha a fama de lento, folgado, para não dizer outra coisa. Eu ficava quieto às vezes com certas opiniões que arrasavam com ele. Diziam: ‘Isso não vai virar nada. É vadio, não vai dar certo. Vai morrer na casca’. Deus sabe que eu to falando só aquilo que eu ouvi. Mas, eu pela amizade com o Neco, eu comprei essa briga”, disse Grizzo.
Um dos primeiros atos foi falar com Róger.
“Eu fui apitar um jogo treino entre os reservas do profissional e o sub-20. Cobrei ele pra correr, marcar, fazer mais. Ele me disse: ‘Aqui não adianta. Os caras não gostam de mim”.
Mas a situação estava pra mudar por conta da chegada do técnico Roberto Cavalo. Era outubro de 2015, o time estava lutando para não cair para a Série C do Brasileiro. A campanha com Dejan Petkovic no comando era ruim, com sete jogos sem vencer.
Cavalo era ídolo como Grizzo. Ambos conquistaram a Copa do Brasil de 1991 pelo clube.
“Jogamos juntos também no Botafogo, e ele é meu amigão. Eu procurei ele e pedi pra ele observar um garoto que era da minha cidade. Ele respondeu: ‘Só por que é da tua cidade? O cara tá gordo, lento’. Eu disse: ‘Ele tem qualidade, tem talento’. E o Cavalo respondeu: ‘Ele tem se virar se ele quiser jogar’. Eu procurei o Neco e o Róger e disse: ‘Cara, você tem de marcar, correr, buscar. O Neymar e o Cristiano Ronaldo marcam, então por que você não pode fazer isso? Outra coisa. Se você não jogar no Criciúma, você tem, pelo menos, que sair bem daqui’. Aí foi lutando. Chegou um dia o Cavalo me disse: ‘Róger está melhorando’. Até que um dia ele entrou no intervalo de um jogo que já estava 1 a 0 para o Criciúma. Terminou 3 a 0, com ele participando dos dois gols. Depois o Cavalo começou a escalar ele como titular. O Criciúma reagiu na Série B, não caiu”, disse Grizzo.
Róger Guedes também reagiu. Arrebentou em 2016. Foi titular em 17 jogos dos 18 jogos Criciúma, com três gols até ser negociado com o Palmeiras. Dali em diante vestiu as camisas de Atlético-MG e Shandong Taishan, da China, até chegar ao Corinthians, em 2021.
A lembrança daquela virada no rumo de Róger Guedes alegra Grizzo até hoje, mesmo que ele já não tenha mais nenhum contato com o atacante ou até mesmo com Neco.
“Ele conseguiu isso com o futebol dele. A minha contribuição foi mais comprar a briga para que ele não fosse dispensado. Sabe, O pessoal pensa que o Róger, por ele ser um cara alto, loiro, gaúcho, deve ser filho de papai. Não é verdade. Ele era humilde. Ele veio de baixo. Morou embaixo da arquibancada do Vila Nova. O pai dele lutou. A mãe dele sempre foi trabalhadora. Fazia faxina nas casas, trabalhou no Hospital Infantil de Criciúma fazendo faxina. Eu vi a luta deles. Tudo o que aconteceu com ele foi obra da mão de Deus na vida dele. Eu resumo assim”, finalizou Grizzo.
