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Walter se emociona em carta e lamenta ter abandonado o colégio: 'Se eu tivesse estudado, eu mesmo escreveria'

Walter comemora gol pelo Porto Getty Images

"Se eu tivesse estudado, eu mesmo estaria escrevendo essa carta". Foi assim que Walter iniciou um emocionante depoimento sobre sua jornada. Em carta aberta divulgada pelo site ge, o centroavante de 33 anos falou sobre a sua vida, contando desde os traumas até as vitórias que teve ao longo de sua carreira.

"Sempre fui um cara calado, na minha, mas chegou o momento de colocar para fora algumas verdades. Por algum tempo, duras para mim. Hoje, nem tanto. Calejado pelos 33 anos, me vejo maduro para encará-las de peito aberto", disse em determinado momento.

Formado na base do Internacional e com passagem pelo Porto e pela seleção brasileira na base, Walter ficou muito conhecido nos últimos anos por conta de sua forma física, principalmente depois de seu período no Goiás.

"Do outro lado da linha estava Enderson Moreira. “Vem para cá que você vai jogar”. Era o técnico do Goiás, lugar onde minha carreira mudaria. Artilheiro do Brasileirão, Bola de Prata, campeão da Série B, semifinalista da Copa do Brasil… Os holofotes estavam em mim. Pelo que fiz em campo. Assim eu imaginava", relembrou.

"Mas isso não era suficiente para a opinião pública. Principalmente a imprensa. Eu não podia ser bom de bola, goleador. Era tão só o “gordo” Walter, jogador do Goiás. Resumido a um animal: “Olha a baleia”! Ah, se eu fosse ligar para tudo que falam sobre mim…Tava lascado. Só que, quem apanha não esquece", completou.

"Nunca neguei problemas com o peso. O pessoal até tira onda me chamando de cachaceiro, mas eu não gosto de beber. Meu negócio é comida. Coca-cola, biscoito recheado... E não tem quantidade, tipo assim, comer 20 biscoitos por dia… É abrir a boca", acrescentou.

"As pessoas apontam o dedo, julgam, mas ninguém quer entender. E cada um tem sua história, como diz minha mãe. E a minha, irmão, é de um menino que ia no mercado, queria um algo a mais para comer e não tinha nada no bolso. Engolia o choro e seguia", seguiu.

As críticas à sua forma física o acompanharam até mesmo nos momentos em que ele conseguiu perder peso. "Quando eu voltei para o Athletico-PR, em 2020, a gente fez um tratamento. O clube contratou um psicólogo para conversar todos os dias comigo e ele disse: 'Walter, o seu problema é compensar na comida o que você não teve no passado. A gente vai cuidar'.

"Perdi 23 kg em quatro meses, cheguei a 90 kg, até hoje o meu menor peso. Fiz um trato com os médicos: a cada 3 kg a menos, teria direito a um biscoito recheado. Aí a gente foi fazendo, fazendo, e graças a Deus deu certo", continuou.

"O que os caras falavam quando me viam? “Tá drogado, tá cheirando pó”. Mas ninguém sabia o quanto eu ralava, treinando três vezes por dia, 8h, 10h e 16h, para chegar nesse padrão… E segurando a comida", desabafou.

Ao relembrar da sua infância, Walter citou as dificuldades e agradeceu ao futebol. "O futebol devolveu a mim uma dignidade negada na infância. Porque, fora do campo, Walter não sabe fazer nada. Não consigo imaginar o que eu poderia ter sido se não fosse a bola. Talvez, vendedor de água no sinal. De pipoca, laranja... O que eu já fazia quando era menor, mais jovem, escondido da minha mãe pra ganhar uns trocados".

"E é pra esse menino que eu diria: 'Estude, Walter! Por favor, estude'. Sou semianalfabeto. Escrevo o meu nome, com dificuldade, e algumas outras coisas. Larguei o colégio na quinta série - depois de reprovar cinco vezes. Não sabia ler e escrever até os 18 anos. Tenho muita vergonha disso. Um dos meus poucos arrependimentos na vida é esse. Aliás, o principal. Porque, sem dúvidas, minha carreira tomaria outro rumo se eu tivesse estudado", afirmou.

Atualmente no Pelotas buscando o acesso no Campeonato Gaúcho, Walter afirma ainda sonhar em seu retorno para times da elite do Brasileirão, mas fez ressalvas.

"Ainda quero voltar a jogar uma Série A, Série B. Tenho esse sonho. Sei da minha capacidade. Mas, igualmente sei que eu preciso mais de mim. Porque essas últimas experiências em times menores, com todo respeito, mostraram a realidade. O meu momento no futebol: tomei um susto".

"A gente tende a sofrer no começo da carreira, pegando times menores para crescer lá na frente. E comigo aconteceu o oposto. Confesso que passar pelo que eu passei nos últimos dois anos é diferente de tudo", finalizou.