A Itália volta a campo após três meses e tenta nesta quarta-feira (15) garantir sua primeira final da Uefa Nations League. A equipe dirigida por Roberto Mancini enfrenta a Espanha, às 15h45 (de Brasília), em jogo com transmissão ao vivo pela ESPN no Star+ e que coloca à prova um movimento da seleção nos últimos anos.
Enquanto o Brasil discute se vale ou não a pena quebrar a barreira e apostar em um técnico estrangeiro, a Itália leva o debate mais à frente, com um espaço cada vez mais aberto a jogadores que não nasceram em solo europeu, mas que assumiram a nacionalidade e aceitaram o desafio de representá-la no esporte.
O caso mais recente é o de Mateo Retegui, atacante argentino de 24 anos que pertence ao Boca Juniors, joga no Tigre e despertou interesse da seleção italiana pela dupla nacionalidade. O início promissor do atleta, após dois gols em duas atuações, fez a Azzurra expandir o leque e pensar em novos nomes capazes de qualificar a equipe – e isso tem uma lógica por trás.
A começar por Roberto Mancini. O técnico tem como costume observar jogadores que possam servir à seleção independentemente de onde atuam. Foi ele que ofereceu a chance a Retegui, além de listar Lucas Piton, lateral-esquerdo do Vasco, para a pré-convocação da fase final da Nations League, em notícia que chamou atenção no Brasil. Sua perspicácia de buscar talentos fora do radar ajuda a Itália a aumentar seu rol de opções, que já é imenso por motivos que vão além do esporte.
A comunidade italiana é uma das maiores e mais ativas ao redor do mundo, com descendentes espalhados por vários países dentro ou fora da Europa. Segundo levantamento do Ministério Dell'Interno italiano, divulgado em 2021, a Argentina é o país com mais imigrantes italianos no mundo, pouco mais de 903 mil pessoas vivendo por lá, o que aumenta a possibilidade de isso ser útil à seleção.
Recentemente, o jornal Tuttosport noticiou que dez jogadores de origem argentina estão sendo observados pela comissão técnica da Itália. São atletas de Boca Juniors, River Plate, Rosario Central e até times menores, como Lanús e Atlético Tucumán. Falou-se também em Giuliano Galoppo, meia do São Paulo que também possui origem italiana, mas que está machucado e só deve voltar no fim da atual temporada.
Esse, aliás, é um costume da Federação Italiana. Ao contrário do Brasil, não é um tabu do país europeu a divulgação de atletas que estejam em observação e façam parte de uma lista grande, não apenas dos selecionados finais para uma ou outra convocação. Por isso, nomes como o de Piton ou do próprio Pepê, atacante que já foi sondado para atuar pela Itália, espantam mais aqui do que por lá.
E, claro, outro ponto que vale ser levado em conta é que tal movimento favorável aos estrangeiros, apesar de chamativo pelo volume, só dá sequência à uma tradição da própria seleção. A Itália tem, há décadas, o costume de contar com jogadores naturalizados em sua equipe.
O primeiro brasileiro que defendeu o país, por exemplo, foi Filó, em 1932, dois anos antes do primeiro título mundial do país, ganho na Áustria, na Copa de 1934 (e com ele no elenco). De lá para cá, outros 13 fizeram o mesmo caminho, entre eles Mazzola, Thiago Motta, Éder e mais os três que seguem no elenco atualmente e fizeram parte do título da Eurocopa há dois anos: Jorginho, Emerson Palmieri e Rafael Tolói.
Se esse plano vai se concretizar em sucesso no presente e futuro, importa pouco para quem dirige a seleção no momento. A Itália se mexe para, com suas "armas", voltar ao posto de uma das melhores seleções do planeta. Tradição e camisa não faltam. Pé de obra, pelo visto, também não.
Veja jogadores nascidos em outro país, mas campeões do mundo pela Itália:
1934
Attilio Demaría - nascido em Buenos Aires, na Argentina (meia)
Enrique Guaita - nascido em Lucas González, na Argentina (ponta)
Felice Borel - nascido em Nice, na França (atacante)
Filó - nascido em São Paulo, no Brasil (ponta)
Luis Monti - nascido em Buenos Aires, na Argentina (meia)
Mario Varglien - nascido em Fiume, na Croácia (volante)
Raimundo Orsi - nascido em Barracas al Sud, na Argentina (ponta)
1938
Miguel Andreolo - nascido em Dolores, no Uruguai (meia)
1982
Claudio Gentile - nascido em Trípli, na Líbia (zagueiro)
2006
Mauro Camoranesi - nascido em Tandil, na Argentina (volante)
Simone Perrotta - nascido em Ashton-under-Lyne, na Inglaterra (meia)
