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Prejuízo de R$ 60 mil, promessa em divisão errada e vaga em time alemão: como preso em escândalo de apostas agia como empresário

BL, à direita, agia como agente de atletas e acumulou acusações de golpes Reprodução

Apontado como líder do esquema de manipulação de resultados, o empresário Bruno Lopez acumulou acusações de golpes em outra função no futebol: a de agente de atletas. A reportagem da ESPN entrou em contato com oito jogadores que foram clientes dele e todos citam problemas parecidos. BL, como é conhecido, causou aos ex-agenciados prejuízos de até R$ 60 mil em troca da promessa (nunca cumprida) de garantir aos atletas oportunidades estáveis de carreira na Europa. Até mesmo vaga no Hertha Berlin B o empresário oferecia.

Lopez é a peça central da Operação Penalidade Máxima, liderada pelo Ministério Público (MP) de Goiás para apurar manipulação de resultados em apostas esportivas. Preso provisoriamente, ele é dono da agência BC Sports Management, aberta há pouco mais de um ano. A empresa se apresenta como especializada em gestão de carreiras, intermediação de negociações e em intercâmbio. O foco é a atuação em mercados alternativos, em especial divisões inferiores e amadoras de países como Eslováquia, Croácia, Albânia e Alemanha.

A ESPN ouviu ao todo dez pessoas entre antigos clientes e familiares de jogadores. Os atletas contam que pagaram valores em troca da promessa da experiência no futebol europeu. No entanto, nada saiu como planejado. Todos preferiram falar em anonimato por temerem represálias. Atualmente, alguns se articulam em grupos de WhatsApp e com advogados para acionarem o empresário na Justiça para tentarem reaver ao menos parte do valor que foi perdido.

Procurado para comentar o assunto, o advogado de BL, Ralph Fraga, não retornou o contato. Além dos relatos, a reportagem também recebeu dos entrevistados cópias dos contratos e prints de conversas do WhatsApp do agente com informações sobre promessas e contrapartidas.

Vaga no Hertha Berlin

Morar em Berlin e jogar em ligas regionais da Alemanha seduziu um grupo de brasileiros. Pena que por problemas de documentação no registro de jogador, não puderam entrar em campo. Eles perderam o prazo de inscrição no campeonato local e tiveram de se contentar apenas em treinar e disputar só amistosos. Nada de jogo oficial, para a revolta de todos. O prejuízo de cada atleta é do mínimo R$ 10 mil.

"A gente pensou que era um ano de contrato, com tudo certo já. Mas foi uma surpresa ter de morar em uma casa largada e suja e ir para um clube que nem era profissional", reclamou um atleta. Reunidos na mesma casa na Alemanha, os brasileiros tentaram diversas vezes acionar BL para resolver os problemas. O principal era a falta de salário. O empresário chegava a repassar 100 euros por semana para o grupo, valor insuficiente para cobrir as despesas. "Ele só inventava história e não resolvia nada. Pegou nosso dinheiro e vendeu uma ilusão", contou outro.

Outro jogador desembarcou na capital alemã com a promessa feita por Bruno de jogar no time B do Hertha Berlin e receber 1200 euros por mês. Não foi bem assim. "Na verdade, fiquei em uma espécie de quarto time, que era amador. Logo depois que eu cheguei o Bruno me bloqueou no telefone e eu não conseguia que ele me ajudasse", contou. Ao longo dos meses na Alemanha, o jogador gastou cerca R$ 30 mil para se manter, já que também não recebeu salários.

Divisão errada

No ano passado um grupo de brasileiros viajou à Croácia com a promessa de jogar em um time da terceira divisão. Mas ao chegar lá houve uma surpresa: a equipe era, na verdade, da quinta divisão. Isso já foi um alerta para quem havia pago antecipadamente cerca de R$ 16 mil a BL em troca do comissionamento na negociação e passagens aéreas.

"O Bruno é malandro. Se ele achar um mais otário ele cobra mais comissão, se for um esperto cobra menos. Se for malandro, cobra menos", contou um dos atletas. Se ainda no Brasil a promessa era de contrato de três meses e salários de pelo menos 400 euros pagos por BL, em solo croata a rotina foi dura. Os brasileiros dividiam uma casa tão simples que nem tinha sistema de aquecimento. Contra o inverno, era preciso um mutirão para buscar lenha para a lareira. "A gente morava em um local tão distante que o pessoal do clube até nos levava para fazer compras no mercado", disse outro.

Os problemas aumentaram quando os salários pararam de vir. O empresário demorava para retornar contatos e nunca mais cumpriu integralmente os pagamentos.

A passagem pela Croácia terminou após três meses, tempo máximo permitido para quem entra no país como turista. BL não resolveu pendências com o visto de trabalho dos agenciados. O drama ainda não tinha acabado: os jogadores descobriram que ao contrário do prometido, a passagem de volta não estava reservada. Alguns tiveram de pegar dinheiro emprestado de amigos para garantir o retorno para casa.

Prejuízo de R$ 60 mil

Um dos destinos mais indicados por BL era a Albânia, em especial a segunda e terceira divisões do país. Os brasileiros foram até lá com a promessa de salários de no mínimo 200 euros e contratos de até uma temporada. Na prática, viveram só de premiações, chegaram a ficar em situação ilegal, sofreram com a habitação e alguns até passaram fome. "Fiquei desamparado por lá e perdi 15 kg. O clube não pagava nada e o Bruno não me ajudava, não me atendia. Minha família teve de bancar tudo para mim", lembrou um dos antigos clientes.

Dois jogadores ouvidos pela reportagem dizem ter perdido R$ 60 mil na aventura albanesa. "Eu tive de pagar até uma multa no país porque fiquei em situação ilegal. Meu visto de turista venceu em três meses e o Bruno não me ajudou", contou um atleta. A lista de promessas não atendidas inclui desde a moradia confortável até mesmo o nome do clube. Alguns agenciados foram surpreendidos ao saberem que teriam de ir para um time diferente do combinado e que isso geraria custo extra.

Outro ex-cliente passou meses na Albânia sem receber os salários prometidos. O único recurso era a premiação de cerca de R$ 150 por jogo. "Eu gastei muito dinheiro, mais de R$ 11 mil, e não tive retorno. O Bruno não resolvia meus problemas", disse. Para completar a renda, o atleta trabalhava como garçom no hotel onde morou.