Um dos atletas citados na investigação da "Operação Penalidade Máxima 2", conduzida pelo Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO), Vitor Mendes se colocou à disposição para ter papel ativo na busca por mais jogadores para o esquema fraudulento em 2022, quando ainda atava pelo Juventude.
O zagueiro, que agora é atleta do Fluminense, foi afastado preventivamente das atividades do clube.
Em prints de WhatsApp divulgados na denúncia completa da "Operação Penalidade Máxima 2", aos quais a ESPN teve acesso, o defensor é apontado como um nome de confiança.
Em troca de mensagens entre os apostadores sobre quais jogadores participarão do esquema em uma rodada, o nome de Mendes é citado como “uma quarta opção que poderia entrar”, aparecendo inclusive como alguém que já havia sido participante em outro momento.
“Oh, tá tudo certo pro quarto jogador, viu? Os caras já colocaram um pouco isso, né? (...) O quarto jogador é o mesmo que fez pra mim semana passada, o Vitor Mendes, tá ligado? Vitor Mendes é o quarto jogador, ODD 2.50”.
“Então ele já tá fechado já, só tá esperando voltar, voltar lá a ODD, na hora que voltar ele já dá o ok aqui, aí ele falou ‘aí cê já paga o jogador, manda o PIX pra ele e já confirma’, entendeu? Aí... vamo que vamo, marcha”, citou o apostador, que chegou a se referir a Vitor da seguinte forma: “Mendes no gatilho”.
Após novas trocas de mensagem entre os membros, Vitor Mendes é deixado de lado por conta do “alto custo”.
"Porque o Vitor Mendes pegou, falou que... ia querer um valor, um adiantado agora também né? Porque ele fez semana passada pra gente, então não ia querer só sinal (...)”.
Crédito: Victoria Leite, setorista do Santos pelo GE | Bauermann recebeu ameaças por não cumprir o combinado de levar um cartão amarelo no empate entre Santos e Avaí pelo Brasileirão de 2022
A partida em questão, segundo prints da conversa anexados ao processo, foi o empate em 1 a 1 entre Juventude e Avaí, em que Vítor Mendes foi advertido com o cartão amarelo aos 44 minutos do primeiro tempo.
Enquanto os apostadores projetam jogadores para uma rodada seguinte, o processo cita um novo print de Vítor Mendes em contato com um membro da organização.
“Você tem que trazer jogador pra mim po. Ganha uma comissão por fora também”, escreveu um dos apostadores a Mendes, que faz uma cobrança na sequência.
“Você tem q me quitar q ai irmão trago vários pra você”, escreveu Mendes.
“kkkkkk você já é meu”, respondeu o apostador.
Após a troca de mensagens com Vítor Mendes, a pessoa identificada no processo como ‘BL’ repassa ao grupo que contava com o jogador para um novo esquema.
“Ele operou semana passada com nois Vai receber essa semana a outra parte! Provavelmente já trinca e trás mais pro final de semana”.
Mais à frente no processo ao qual a ESPN teve acesso, um membro da operação coloca Mendes como nome certo para uma próxima rodada, inclusive para incluir outros jogadores da equipe do Juventude.
“(...) o Vitor Mendes, a gente já tá, tá começando a cair da, daquela operação que deu certo pra gente, né? A gente já tá começando a quitar aí da semana passada, ele falou que se já quitar ele, ele já vai fazer final de semana agora, ele já faz, tá fechado com a gente e ele vai trazer mais dois titular, então ele é 100% de certeza, que ele já fez, já deu certo mano, pai já fala direto com ele, deposito direto na conta dele, se cês toparem aí, é ele e ele dá mais dois nome titular aí, provavelmente tudo do Juventude, cês toparem aí e quiserem fazer (...)”.
A investigação aponta que o intermediário Pedro Gama dos Santos Jr. prometeu R$ 100 mil a Victor Ramos, então atleta da Portuguesa, para que ele cometesse um pênalti na partida contra o Guarani, pelo Campeonato Paulista 2023.
Em outro print com um apostador, o atleta voltou a cobrar o pagamento total do acordo para indicar outros jogadores ao esquema.
“Me quita viadoooo Que eu arranjo até 2 kkk", escreveu Mendes. "Sem quitar não dá kk”.
Um comprovante de pagamento anexado ao processo indica a transferência de R$ 35 mil para a conta bancária de Vítor Mendes no dia 13 de setembro. Em seguida o jogador é apontado como ‘confirmado e pago’ pelo grupo para uma próxima rodada.
A partida em sequência é o empate em 1 a 1 do Juventude diante do Fortaleza, no Brasileirão de 2022, que teve cartão amarelo a Vítor Mendes aos 41 do segundo tempo.
“Mendes é jogador nosso”, escreveu o apostador ‘BL’ ao grupo após a rodada. “Ele que trouxe esse da MLS pra nois [Max Alves, do Colorado Rapids]”.
Veja abaixo quais são os jogos que estão sob investigação na Série A
Quais jogadores estão sendo investigados?
Eduardo Bauermann (Santos)
Gabriel Tota (Ypiranga-RS)
Victor Ramos (Chapecoense)
Igor Cariús (Sport)
Paulo Miranda (Náutico)
Fernando Neto (São Bernardo)
Matheus Gomes (Sergipe)
Quais jogadores também foram citados no processo?
Vitor Mendes (Fluminense)
Richard (Cruzeiro)
Nino Paraíba (América-MG)
Dadá Belmonte (América-MG)
Kevin Lomonaco (Red Bull Bragantino)
Moraes Jr. (Juventude)
Nikolas Farias (Novo Hamburgo)
Jarro Pedroso (Inter de Santa Maria)
Nathan (Grêmio)
Pedrinho (Athletico-PR)
Bryan García (Athletico-PR)
Apostadores e membros da organização
Bruno Lopez de Moura
Ícaro Fernando Calixto dos Santos
Luís Felipe Rodrigues de Castro
Victor Yamasaki Fernandes
Zildo Peixoto Neto
Thiago Chambó Andrade
Romário Hugo dos Santos
William de Oliveira Souza
Pedro Gama dos Santos Júnior
O que a "Operação Penalidade Máxima" investiga
A investigação da "Operação Penalidade Máxima" aponta que grupos criminosos convenciam jogadores, com propostas que iam até R$ 100 mil, a cometerem lances específicos em partidas e causassem o lucro de apostadores em sites do ramo.
Um jogador cooptado, por exemplo, teria a "função" de cometer um pênalti, receber um cartão ou até mesmo colaborar para a construção do resultado da partida - normalmente uma derrota de sua equipe.
As primeiras denúncias ouvidas pela operação surgiram no fim de 2022, quando o volante Romário, então jogador do Vila Nova (GO), aceitou R$ 150 mil para cometer um pênalti contra o Sport, em partida válida pela Série B do Brasileiro.
Na ocasião, o atleta embolsou R$ 10 mil imediatamente e só ganharia o restante caso o plano funcionasse. Romário, porém, sequer foi relacionado para a partida, o que estragou a ideia.
A história chegou até Hugo Jorge Bravo, presidente do time goiano e também policial militar, que buscou provas e as entregou ao Ministério Público do estado. A partir daí, criou-se a operação "Penalidade Máxima" para investigar provas e suspeitas sobre o assunto.
Na primeira denúncia, havia a suspeita de manipulação em três jogos da Série B, mas os últimos acontecimentos levaram os investigadores a crer que o problema era de âmbito nacional e havia acontecido em campeonatos estaduais e também na primeira divisão do Brasileiro.
Além de Romário, outros sete jogadores foram denunciados pelo Ministério Público por participarem do esquema de fabricação de resultados: Joseph (Tombense), Mateusinho (ex-Sampaio Corrêa, hoje no Cuiabá), Gabriel Domingos (Vila Nova), Allan Godói (Sampaio Corrêa), André Queixo (ex-Sampaio Corrêa, hoje no Ituano), Ygor Catatau (ex-Sampaio Corrêa, hoje no Sepahan, do Irã) e Paulo Sérgio (ex-Sampaio Corrêa, hoje no Operário-PR).
Algum jogador de futebol foi preso?
Nenhum jogador preso, só pessoas envolvidas nos pedidos de manipulação. Foram três mandados de prisão em São Paulo, mas só para não atletas.
Foram apreendidas granadas de efeito moral em um mandado de prisão em São Paulo a armas de fogo em outro endereço, também em terras paulistas. Nesse local, houve também um flagrante de armas de fogo sem o devido registro.
Os atletas ou aliciadores podem ser indiciados via Estatuto do Torcedor e também podem responder por crime por lavagem de dinheiro, se for o caso. Segundo o Estatuto do Torcedor, a pena varia de 2 a 6 anos de prisão.
O que os jogadores faziam para manipular as partidas?
Os atletas e envolvidos suspeitos estão sendo investigados por manipulação da seguinte forma: receber cartões amarelo ou vermelho, cometer um pênalti, garantir uma derrota parcial no 1º tempo, número de escanteios, etc.
