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Dirigente de clube de várzea que contratou Bruno diz de onde surgiu a ideia da negociação e se espanta com repercussão

Goleiro Bruno foi anunciado como reforço do Orion F.C., time de várzea da Zona Sul de São Paulo Reprodução/Instagram/@oficialorionfc

Vice-presidente do Orion F.C., time de várzea do bairro Jardim Noronha, na Zona Sul de São Paulo, Daniel Ramos, revelou ter se espantado com toda a repercussão após a equipe anunciar a contratação do goleiro Bruno, de 38 anos, que passou por clubes como Corinthians e Flamengo e, em 2013, foi condenado pelo assassinato da modelo Eliza Samúdio.

O goleiro, que no início do ano ganhou liberdade condicional da Justiça do Rio de Janeiro, foi oficialmente anunciado na última terça-feira (21), no dia seguinte ao aniversário de 7 anos do clube de várzea paulistano.

Nesta quarta-feira (22), porém, a organização da Super Copa Pioneer Netshoes, uma das principais competições de várzea, que o Orion F.C. disputará, barrou a participação de Bruno.

"Afirmamos que o atleta não disputará a Super Copa Pioneer Netshoes. Ainda que o regulamento permita a inscrição de jogadores no decorrer do campeonato, ressaltamos que em nenhum momento o jogador foi autorizado a disputar a competição, sem nenhuma inscrição oficial aprovada ao time responsável", diz trecho do comunicado da organização.

"Decisão essa tomada com unanimidade pela organização e corpo diretivo da competição, e que se faz necessária sobretudo em prol de todas as mulheres que compõem a Super Copa Pioneer Netshoes, desde profissionais, voluntárias e torcedoras", diz outro trecho.

Daniel Ramos, conhecido como Negrete, disse como o Orion chegou até Bruno para contratá-lo, se espantou com a repercussão, mas disse que a equipe aceitará a decisão da organização da Super Copa.

"Estamos prestes a estrear em uma grande copa, que para nós, da várzea, é uma das mais importantes, se não a maior delas, e fomos atrás de reforços como qualquer equipe. Chegou até nós que o Bruno estava parado, estava sem clube, e mandamos o convite, fizemos a proposta, ela foi aceita e ficamos muito felizes, por se tratar de um grande goleiro, de nome, referência. Independentemente da situação dele extracampo, nós fomos buscar reforços para chegarmos com uma equipe forte e tentar brigar pelo título", começou por dizer, em declarações ao ESPN.com.br.

"Eu imaginava (a decisão da organização), mas não com a proporção que isso tomou. Eu já recebi mais de 100 mensagens. O pessoal da nossa diretoria ficou boquiaberto com a proporção que essa contratação trouxe para nós. Em relação à retaliação, eu não entendo por que proibir o rapaz de trabalhar. No Brasil é o seguinte, se o cara errou, ele tem a família dele para sustentar, tem uma nova família, ele errou, óbvio, todos nós temos ciência dos erros que ele cometeu. Todos nós temos ciência da gravidade do erro que ele cometeu. Só que é o seguinte, se a Justiça o soltou, não tem por quê. A gente não pode julgar ninguém, não somos donos da lei, até porque nós mesmos estamos sujeitos a erros, hoje ou amanhã", prosseguiu.

"(O Bruno) ficou frustrado. Todos nós, seremos humanos, temos direito a um recomeço, independentemente dos erros cometidos lá atrás. Era um novo desafio para ele, ficou feliz, muito feliz. Mandamos o nosso kit para ele, roupa de jogo, deixamos ele fazer um vídeo para a gente mostrar para a nossa torcida. Temos uma excelente torcida, o Esquadrão Azul. O pessoal ficou muito feliz, alguns insatisfeitos, mas deixamos claro que fomos atrás de um grande goleiro para disputar o campeonato. Infelizmente, houve essa retaliação, não somos crianças, não temos a mente fechada. Entendemos que toda situação tem o lado pró e o lado contra, então sentamos junto com o nosso presidente, e não vamos bater de frente com o pessoal da organização porque a gente respeita, existe uma hierarquia, o pessoal tem um patrocínio que vem ajudando durante as outras Super Copas, então estamos sempre no intuito de querer ajudar, somar, e não de diminuir", concluiu.

O dirigente do Orion F.C. ainda lembrou que outros clubes de várzea que também disputarão a competição contrataram jogadores conhecidos, como o ex-atacante Luis Fabiano e o ex-zagueiro Domingos. Ele ainda acredita que a equipe ainda segue entre as favoritas à conquista.

"O Pau no Gato trouxe o Luis Fabiano, o Vila Isabel trouxe o Domingos, vários caras de renome, e como entramos com equipe que tem chance de ser campeã, que vai lutar para ser campeã. Mas independentemente do Bruno estar com a gente ou não, nossa equipe é forte, consistente, vamos nos doar ao máximo e temos outros jogadores muito bons, não com nome, de expressão, que tem o Bruno, mas nosso o time vai entrar para ser campeão e dar trabalho", finalizou.

A equipe é a sétima a contratar Bruno desde que ele deixou a prisão. O goleiro teve passagens por Boa Esporte-MG, Poços de Caldas-MG, Rio Branco-AC, Araguacema-TO, Atlético Carioca-RJ e Búzios-RJ, entre 2017 e o ano passado.

Bruno foi condenado a uma pena de 22 anos e três meses de prisão em 2013 pelo assassinato e ocultação do cadáver da modelo Eliza Samúdio, e pelo sequestro e cárcere privado do seu filho, Bruninho. Em 2017, o goleiro teve concedido um habeas corpus pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Dois anos depois, em 2019, conseguiu a progressão da pena para o regime semiaberto, ficando durante oito anos e 10 meses na prisão.