<
>

Os bastidores de como São Bernardo foi de 'terra arrasada' a sensação do Paulista para desafiar Palmeiras

O estádio Primeiro de Maio, em São Bernardo do Campo Abner Dourado/AGIF

Qualquer um que olhasse para o São Bernardo em 2019 dificilmente apostaria que o clube teria hoje a segunda melhor campanha do Campeonato Paulista, atrás apenas do Palmeiras.

Naquele ano, só não foi rebaixado para a Série A3 do Estadual pelo saldo de gols. No segundo semestre, abriu mão da Copa Paulista por problemas financeiros e, em divergências com a prefeitura, perdeu o direito de uso do estádio Primeiro de Maio, em São Bernardo do Campo.

“Era uma situação difícil. Era terra arrasada. Não tinha jogadores, elenco, estafe, comissão técnica, CT, estádio”, disse Lucas Andrino, CEO do São Bernardo desde que o Grupo Magnum, empresa fabricante de relógios, assumiu da gestão da equipe.

A compra ocorreu em setembro de 2019, quando o empresário Roberto Graziano, dono da Magnum, comprou 100% do São Bernardo junto ao antigo dono, Edinho Montemor.

O grupo já trazia a experiência no futebol dos tempos de Guarani, numa parceria que surgiu em 2014, mas que não envolvia a gestão do clube como aconteceu no São Bernardo.

“Apesar da situação caótica, a gente enxergava [o São Bernardo] como um clube de uma cidade interessante para desenvolver nosso trabalho”, disse Andrino à reportagem.

Um dos primeiros passos foi contratar Marcelo Veiga, técnico com sucesso na reconstrução do Bragantino antes da parceria com a Red Bull, para recomeçar o São Bernardo.

Foi um trabalho que incluiu a busca de um local para treinar, o que foi feito em Atibaia, no Seven Resort, CT de Marcelinho Carioca, e onde o clube está instalado até hoje. Quem conhecia o local era Veiga. E ele ajudou a fazer mudanças, como a reforma do campo.

“Quando nós conhecemos o CT, eu me deparei com um espaço muito agradável, um espaço que a gente conseguiria fazer as adaptações necessárias para abrigar o time profissional, que era o nosso foco. Já estamos aqui há três anos”, disse Andrino.

Os primeiros frutos vieram em 2020, com as semifinais da Série A2 e da Copa Paulista, mas aquela temporada terminou de forma trágica. O São Bernardo foi o primeiro time do Brasil a sofrer um surto de Covid-19, e Veiga, infectado, não resistiu.

Ascensão

O São Bernardo teve em 2021 o grande momento de seus 18 anos de existência. Foi campeão da Série A2 e da Copa Paulista. Dois títulos que melhoraram o calendário de jogos do time em 2022, com as disputas do Campeonato Paulista e da Série D.

Jogando contra as principais forças do estado, o São Bernardo chegou até as quartas de final e foi eliminado pelo São Paulo. Já na Série D foi até a semifinal, caindo para o América-RN, mesmo assim obteve vaga inédita na Série C neste ano.

“O planejamento foi feito para em 2025 a gente estar na Série B. No máximo, 2026. Hoje, nosso foco é a Série C e o acesso. Temos de tentar canalizar todas as forças para esse campeonato. Temos de manter esse elenco forte, essa comissão técnica, estafe, funcionários para a gente ter a sequência que desejamos", disse Andino.

Ainda assim, a campanha no Paulistão anima a todos no clube. O time somou 26 pontos, dois a menos que o Palmeiras, melhor equipe da primeira fase e única invicta.

Diante das equipes que jogam a Série A do Brasileiro, o São Bernardo venceu Corinthians e São Paulo e empatou com Santos e Red Bull Bragantino.

Tudo isso tendo um orçamento infinitamente menor. A previsão é que, em 2023, o clube do ABC gaste até R$ 14 milhões. Já o Corinthians prevê gastos totais de R$ 726,3 milhões, enquanto o Palmeiras projetou R$ 563,7 milhões de despesas.

“Pelo nível de trabalho, pela comissão técnica, pelo nível e pelo perfil do nosso elenco, a gente sabia que podia fazer um trabalho bacana e ir atrás da classificação. Claro que eu não acreditaria que seria uma competição desse nível, muito próxima do Palmeiras”, disse Márcio Zanardi, o terceiro técnico a comandar o São Bernardo na era Magnum.

Com experiência de trabalhos de base do extinto Pão de Açúcar e também em Corinthians, Guarani, Portuguesa e Santos, o treinador formou um elenco com juventude e experiência.

“Trouxemos jogadores jovens, como o Chrystian Barletta, Léo Jabá e o Matheus Régis, mas buscamos jogadores que já jogaram jogos grandes para eles trazerem experiência e bagagem. Jogamos no Morumbi com 52 mil pessoas contra, e ninguém [do nosso time] sentiu”, disse o técnico, citando o triunfo sobre o São Paulo.

Outra diferença do São Bernardo para os rivais que já estão na Série A do Brasileiro é o trabalho de base. Hoje, todas as categorias estão congeladas.

“Não tem nem competição interna. Hoje, nosso foco é 100% no profissional. Temos que concentrar toda a renda e todo orçamento no resultado do profissional porque a gente ainda tem um gap financeiro no orçamento. O Paulistão tem uma receita considerável, mas a Série C não tem receita. A gente precisa dar esse salto da C para a B para equalizar um pouco as contas e fazer o clube caminhar com as próprias pernas”, disse Andrino.

Mas a tendência é que as categorias de base voltem no futuro até como parte do plano de negócio para se tornaram a mola propulsora do clube.

Tendo em vista isso, a diretoria já finalizou o planejamento para a construção de um centro de treinamento com seis campos, alojamento e hotel na Estrada dos Alvarenga, em São Bernardo do Campo, perto da Represa Billings. Falta aprovação da prefeitura.

O valor da compra não foi relevado, mas o espelho do trabalho que o São Bernardo pretende fazer na base é justamente o que o rival do Campeonato Paulista faz.

“Não consigo enxergar o futebol sem a base. Não é porque eu vim da base, mas a parte financeira de você cada vez mais ter jogadores mais novos. É só você ver o Palmeiras o que está fazendo hoje. É uma referência no profissional e na categoria de base”, disse Zanardi.

“O Palmeiras surfa essa onda porque se preparou para isso. Investiu muito em categoria de base. Investiu muito em estrutura para os atletas. O São Bernardo precisa acompanhar dentro das nossas limitações financeiras. Se não ficará para trás", completou Andrino.