Pelé jogou 49 vezes contra o Corinthians e marcou 50 gols, fazendo do time do Parque São Jorge sua maior vítima
Pelé anotou 1.283 gols em toda a carreira, quantia inimaginável para qualquer atacante da atualidade. E, assim como muitos goleadores, ele tinha uma vítima preferida: o Corinthians - justamente o time que os amigos de infância dizem ser o do coração dele quando criança, algo que Pelé nunca confirmou. O Rei do Futebol, que morreu nesta quinta-feira (29), ao 82 anos, fez 50 tentos contra o arquirrival do seu Santos.
O camisa 10 mais famoso do mundo estava com 32 anos e bem próximo do que planejara para encerrar a carreira no futebol - algo que repensou após inúmeros convites do New York Cosmos, em 1974. O confronto entre Santos e Corinthians foi pelo Campeonato Paulista de 1973, no Morumbi.
Naquele clássico, o time paulistano vencia por 1 a 0, gol de Vaguinho, até os 42 minutos do segundo tempo. Foi quando o árbitro Oscar Scolfaro apitou pênalti após o zagueiro Laércio desarmar o ponta-direita Ferreira. Apesar da forte contestação corintiana, Pelé fez a cobrança e acertou o canto esquerdo do gol. O goleiro Ado caiu para o lado direito.
"Eu não lembrava desse gol [que faz agora 45 anos], não", disse Pelé para a ESPN, em 2018.
"[Gostava de fazer gol no Corinthians?] Eu gostava de fazer gol em todo mundo, com 1.283 gols fazia em todo mundo. Mas era bom [no Corinthians] porque tinha a torcida maior do Brasil depois do Flamengo", prosseguiu.
"As coisas davam certo contra o Corinthians, o que vou ia fazer? Em Bauru, a família era toda corintiana [risos]. Isso é do futebol. Deus é quem sabe dessas coisas", finalizou o Rei, aos risos.
Gol foi polêmico
O último dos 50 gols que fez contra o Corinthians foi talvez o mais polêmico de todos feitos por Pelé contra o rival do Parque São Jorge. Ao menos assim retrataram "Folha de S.Paulo" e "O Estado de S. Paulo".
A manchete do primeiro sobre o empate por 1 a 1 foi: "Corinthians acusa Scolfaro", referência à bronca corintiana contra o árbitro. O segundo publicou: "Com ajuda do juiz, Santos mantém a liderança".
Ambas as edições foram repletas de frases de protestos dos corintianos contra o árbitro Oscar Scolfaro. De todos, o técnico Dorival Knippel, conhecido no mundo futebol apenas como Yustrich, foi o mais incisivo.
"Aí está uma das razões porque o Corinthians nunca consegue um título", disse o treinador, referindo-se ao jejum de títulos da equipe alvinegra após a conquista do Paulista de 1954.
"A única arbitragem correta foi aquela do jogo que perdemos para a Portuguesa por 1 a 0. O resto é camuflado", disse Yustrich, mencionando o jogo vencido pelo Corinthians contra os lusitanos na primeira rodada.
"Quem é que pode resistir a esse impacto? O problema de arbitragem destrói o animo dos jogadores e de todos nós. Desculpem esse exagero, mas o que aconteceu é de desesperar qualquer um".
O presidente do Corinthians, Vicente Matheus, também deu declarações ácidas.
"O que se pode fazer? A Federação tem muita força. O presidente da Portuguesa já disse que esse juiz é ladrão, sem vergonha. Ninguém faz nada. Falamos com o presidente da Federação, ele promete, mas tudo continua igual. O melhor seria sair do campeonato, para não precisar aguentar ladrões, sem vergonhas como esse juiz", disse.
A bronca toda foi porque o Corinthians vencia desde os 15 minutos do primeiro tempo, graças a um gol de Vaguinho. Chegou a ter um tento marcado pelo ponta-esquerdo Marco Antônio anulado. E, ao ter o pênalti marcado contra e sofrer o empate, a tensão foi tamanha que os jogadores tentaram agredir o árbitro. Foram contidos por Yustrich.
"O Corinthians acabou castigado com o pênalti. Futebol é assim mesmo. Os jogadores corintianos erraram porque acharam que já haviam vencido a partida. Eles gozavam os santistas, esquecendo-se que só se ganha uma partida depois que o juiz apita o fim", defendeu-se o árbitro, que chegou a ser escoltado pela polícia.
Para efeito do torneio, o empate não prejudicou tanto o time. O time estava a dois pontos da Portuguesa, líder do segundo turno do Estadual. No final, o time lusitano confirmaria a primeira colocação e avançaria para a final contra o Santos - campeão do primeiro - para definir o dono do troféu.
A partida decisiva terminou sem gols e foi definida nos pênaltis. O Santos vencia por 2 a 0 e o árbitro Armando Marques declarou o time da Baixada campeão. Ele errou a conta. Depois, o título acabou dividido.
Já o Corinthians amargou mais um ano sem títulos, jejum que só quebraria em 1977.
Todas as vítimas do Rei
Pelé jogou profissionalmente de 1956 até 1977. Só pelo Santos foram 1.091 gols. Enfrentou diversas equipes, mas o Corinthians foi a maior vítima que fez nos gramados.
Foram 49 jogos contra o Corinthians (48 pela Santos e um pela seleção) e 50 gols. Média de 1,04 gol por partida.
Vários goleiros corintianos sofreram com o Rei Pelé. Os primeiros foram os que mais sofreram, casos de Gilmar dos Santos Neves, que depois seria companheiro do camisa 10 no Santos, e Heitor.
Ado, que sofreu o último gol de Pelé contra o Corinthians, até tinha números "normais". Em dez partidas que enfrentou o atacante, sofreu "apenas" seis jogos. Veja quadro abaixo.
Pelé contra o Corinthians
Há uma história que os torcedores mais velhos do Corinthians costumam usar como exemplo para explicar porque enfrentar o Pelé era sempre problemático para o time do Parque São Jorge.
Foi em 6 de dezembro de 1964, quando o Corinthians chegou a fazer quatro gols no Santos e pensou que pudesse vencer. Ocorre que só Pelé fez quatro para o time da Vila Belmiro. Coutinho fez outros três. Final 7x4.
Dos 49 jogos e 50 gols que Pelé fez contra o Corinthians há outros dados curiosos.
Por exemplo, apenas uma vez ele começou no banco, sendo titular nas outras 48 vezes. Além disso, somente cinco vezes ele foi substituído, tendo começado e terminando o jogo nas outras 43 oportunidades.
E Pelé enfrentou o Corinthians mais vezes em São Paulo (41) do que em Santos (8).
Também há recortes interessantes dos gols que o Rei do Futebol marcou contra o Corinthians. Apesar de terem sido 50 gols em 49 jogos, 17 vezes o camisa 10 passou em branco contra o maior rival.
Mas, para tristeza dos alvinegros paulistanos, três vezes Pelé fez quatro gols em um mesmo jogo; duas vezes fez três gols em um mesmo jogo; cinco vezes fez dois gols em um mesmo jogo; e 22 vezes fez um gol no clássico.
Dos 50 gols, cinco foram de pênalti. Aliás, ele só errou uma cobrança contra o Corinthians. Foi em 1964, lance que terminou com defesa do goleiro corintiano Heitor.
E Pelé só foi expulso uma vez contra o Corinthians. Foi em 1957.
Jogos que não existiram
Na verdade, eles aconteceram, mas não foram concluídas e por isso não fazem parte da estatística de Pelé x Corinthians. Entendeu? Explicamos mais detalhadamente.
O camisa 10 encarou o rival em 20 de setembro de 1964, na Vila Belmiro, mas o duelo parou aos seis minutos e 20 segundos porque parte de uma das arquibancadas desabou. Oficialmente foi apagada da história.
Para compensar, os times jogaram em 30 de setembro. Pelé fez um gol e o encontro terminou 1 a 1.
A outra partida "apagada" da história foi em 19 de outubro de 1969 também pelo Paulista, mas o jogo, que estava 1 a 1, não foi retomado após o intervalo por causa de uma chuva torrencial no Pacaembu.
As equipes repetiram aquela partida em 4 de novembro, e o Corinthians goleou por 4 a 1. Pelé passou em branco.
Outros clubes
O Corinthians é o clube que mais gols sofreu de Pelé, mas não é a principal vítima se for usado como critério a média de gols. Aí o rival mais castigo na história é o... Botafogo de Ribeirão Preto.
O "Botinha" sofreu 40 gols em 28 jogos contra Pelé. Média de 1,43 tento por partida. Diante do Corinthians, a média do camisa 10 foi de 1,04 tento ou 1,02 se somar também o jogo que ele fez contra o rival pela seleção.
Veja abaixo o histórico de Pelé contra os 12 grandes e rivais que ele enfrentou mais de dez vezes.
