Em 2021, o Rei do Futebol teve um câncer de cólon diagnosticado, naquela que tornou-se a principal batalha dele pela vida
O dia de 10 de novembro de 2012 foi um marco na vida de Pelé, que morreu nesta quinta-feira (29), aos 82 anos. Foi naquela data que ele se submeteu ao primeiro procedimento cirúrgico na região do quadril. Mal sabia o Rei do Futebol que começava ali uma década marcada por outras cirurgias e problemas de saúde.
Até aquele momento, Edson Arantes do Nascimento, então com 72 anos, esbanjava saúde e era um dos brasileiros que mais viajava ao redor do planeta para compromissos diversos. Na conta, estavam eventos com celebridades, homenagens recebidas e agenda comercial, fonte principal de sua renda.
Mas o Atleta do Século 20 sentia os efeitos dessa puxada rotina e também do esforço pelos quase 40 anos dedicados ao futebol, sendo 21 deles como profissional do Santos e ainda do New York Cosmos (EUA). Eram dores na região do quadril, com reflexos na perna esquerda e também na coluna lombar, especialmente após fazer as atividades preferidas dele à época, como caminhar e jogar tênis.
O ortopedista Roberto Dantas Queiroz, que o acompanhava no Hospital Albert Einstein, na zona Sul de São Paulo e no qual o tricampeão mundial como jogador VEIO A ÓBITO, diagnosticou um desgaste na articulação (uma artrose). Pelé foi para a mesa de cirurgia na data mencionada no começo deste texto, e o procedimento durou uma hora e meia. Ele recebeu uma prótese total de quadril, e a cabeça do fêmur foi substituída por uma peça de cerâmica. Cinco dias depois, recebeu alta e a recomendação que deveria fazer um tratamento intensivo de fisioterapia.
Quem convivia de perto com ele na época lembra que o Rei do Futebol, reconhecido até então pela disciplina em treinos quando jogava, não foi tão rigoroso com a própria recuperação. Na época, ele já havia assinado o contrato com a Talent 10, empresa que explorava a 'marca Pelé' mundialmente, o que fazia com que sua agenda fosse consumida com longas viagens internacionais.
Anos depois, em 6 de abril de 2016, Pelé deu uma polêmica entrevista à Folha de S.Paulo dizendo que houve erro médico. Alegou que foi colocado um parafuso a menos, o que o levou a fazer outra cirurgia (leia mais abaixo). O médico responsável rebateu, dizendo que o ex-atleta entendeu errado e que novos exames não indicavam erro. O Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) avaliou a denúncia, mas arquivou o caso por considerar que a mesma foi descabida, em 2017.
Plantão médico
Depois daquela cirurgia, Pelé voltaria ao noticiário médico em 14 de novembro de 2014, quando foi internado novamente no Hospital Albert Einstein para retirada de cálculos renais, ureterais e vesicais. Ele estava com o fluxo urinário obstruído. Liberado, retornou ao local dez dias depois. Agora, tinha um quadro de infecção urinária e complicações renais. Foram 16 dias internados. Teve alta em 10 de dezembro.
Muitos chegaram a temer o pior. Foi nesse período de internação que o mundo soube que Pelé tinha apenas um rim. O outro foi retirado no final dos anos 1970 após um trauma.
Durante a internação, ele teve um quadro de sepse, ou seja, infecção generalizada. Foi para a UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) e teve que fazer hemodiálise por um tempo.
“Fiquei preocupado, claro. Mas foi uma surpresa. Se eu disser que fiquei com medo de morrer, isso não, porque eu sou um homem de Três Corações [cidade em que nasceu, em Minas Gerais] e vai ser difícil eu morrer”, brincou na época.
Em 2015, foram mais três internações, as duas primeiras no Einstein. Em maio, três dias por uma cirurgia na próstata; em julho, ficou uma semana após passar por um procedimento para tratar uma estenose foraminal (descompressão de raiz nervosa na coluna lombar); em 3 dezembro, teve de fazer uma nova cirurgia no quadril, a segunda – para correção daquela de 2012 que, anos depois, ele acusou o médico de erro.
Dessa vez, Pelé foi internado no Hospital for Special Surgery, em Nova York, nos Estados Unidos, onde a assessoria dele informou que o procedimento foi para realizar a correção de um deslocamento da prótese do quadril.
Foram quatro anos até uma nova internação, em 2019, mas nesse tempo todo a saúde teve uma piora. Pelé já demonstrava problemas de locomoção - esta foi uma das causas para que ele não fizesse parte da cerimônia de abertura da Olimpíada do Rio acendendo a pira olímpica, em 2016.
Em abril de 2019, pela primeira vez o mundo viu o Rei do Futebol numa cadeira de rodas em uma viagem para a França. Inclusive, ele foi internado lá por conta de uma infecção urinária. Quando a situação melhorou um pouco, regressou ao Brasil diretamente para o Einstein.
Câncer revelado
Depois disso, Pelé voltou ao hospital na zona Sul da capital paulista em 31 de agosto de 2021 para fazer exames e também avaliações após um longo período enclausurado em casa por causa da pandemia de COVID-19.
A assessoria do Rei nunca confirmou se ele apresentava algum sintoma, mas o fato é que essa internação revelou um duro diagnóstico. A equipe médica constatou um tumor no cólon direito. Foi o início de uma série de visitas mensais para tratamento.
Em janeiro de 2022, a ESPN informou de forma exclusiva que o Rei tinha sido diagnosticado com novos tumores, agora, além do cólon, também em intestino, fígado e um dos pulmões. Era metástase, o câncer havia se espalhado, o que implicava uma mudança no tratamento até ele voltar a ser internado na terça-feira, 27 de novembro, já sem responder à quimioterapia.
Uma década de problemas de saúde foram debilitando, pouco a pouco, o maior atleta de todos os tempos, que agora descansou. E deixou uma história eterna.
*Jean Santos, Rafael Valente e Ricardo Zanei
