Campeonato Ucraniano volta em meio à guerra e entre a vida normal e o medo; brasileiros relatam

Desna Chernihiv teve seu estádio destruído em um bombardeio russo Reprodução

Em meio à guerra contra a Rússia, o Campeonato Ucraniano está de volta


A tensão na região de Zaporizhzhia aumentou muito nos últimos dias. A cidade, localizada no leste da Ucrânia, possui a maior planta nuclear da Europa e está sob controle russo. Relatos de explosões e imagens de satélite que mostram enorme buracos nos prédios da instalação despertam preocupação global. Uma equipe da Agência Internacional de Energia Atômica foi enviada ao local, para aferir os danos atuais. Simultaneamente, pouco mais de 500 km a leste, sete jogos de futebol aconteceram na última semana na região da capital Kiev.

Em meio à guerra contra a Rússia, o Campeonato Ucraniano está de volta.

A notícia da retomada do futebol no país chocou muitas pessoas. As imagens que surgem na televisão são de destruição e mortes, e essa é a realidade enfrentada pelas regiões que estão na frente de batalha. A atual invasão russa, iniciada há oito meses, recuou em diversos pontos do mapa ucraniano e atualmente está concentrada no leste do país, nas regiões de Donetsk e Luhansk, além do sul, em Mariupol, Kherson e na anexada Crimeia. No extremo oposto, a oeste, as cidades próximas às fronteiras com Polônia, Eslováquia, Hungria e Romênia tentam levar a vida normalmente.

Por mais espantoso que isso possa parecer para o Ocidente.

Ao se reunir com os clubes, a federação ucraniana estabeleceu uma série de medidas para retomar o futebol. A primeira, e mais importante, é a realização de jogos sem público e em locais afastados do conflito bélico. Por conta disso, as partidas estão concentradas em poucas cidades e muitos times estão atuando, praticamente, sem casa. Os 13 jogos iniciais da competição aconteceram em Kiev (5), Uzhgorod (3), Lviv (3) e Kovalivka (2) - esta última na região metropolitana da capital e as outras duas no extremo oeste ucraniano. Há possibilidade de partidas em locais, teoricamente, de maior risco, como Oleksandriya e Dnipro, mais próximas do leste, mas apenas sob acordo dos dois clubes e com aprovação de autoridades do exército. Duas equipes desistiram da competição, Mariupol e Desna Chernihiv, que teve seu estádio destruído em um bombardeio russo; foram substituídas por Metalist Kharkiv e Kryvbas Kryvyi Rih, mantendo o campeonato com 16 times na primeira divisão.

Com a autorização da Fifa que liberou atletas de seus contratos com os clubes ucranianos e russos, os estrangeiros na competição diminuíram drasticamente. Nas listas de jogadores disponibilizadas na Internet, é possível contar 35 atletas de fora da Ucrânia, sendo quatro nascido em território ucraniano, mas naturalizados. O Brasil lidera a lista com dez jogadores, entre eles muitos que fugiram da guerra de maneira dramática quando ela começou há oito meses e jamais poderiam imaginar que estariam de volta ao país tão rapidamente.

Relatos da guerra

"Vim pelo sonho do futebol. Foi difícil tomar a decisão de voltar, mas com todo apoio do clube, que falou sobre Uzhgorod e como estava tranquilo aqui, decidi retornar e tentar esquecer tudo que passei oito meses atrás para seguir a carreira, mesmo sabendo que o país está em guerra", relata Marlyson, agora atacante do Vorskla Poltava. Quando a invasão russa começou, Marlyson defendia o Metalist e, junto com outros dois atletas brasileiros (Fabinho, hoje na Ponte Preta, e Derek, na Chapecoense), ficou preso na cidade, sem conseguir fugir. Os três se arriscaram por estradas e ferrovias para cruzarem o país e finalmente escaparem. "Agora, quando voltei para a Ucrânia, parecia que eu estava retornando para Kharkiv. Parecia que eu ia viver tudo aquilo novamente, que precisaria pedir socorro de novo, implorar para achar uma forma de sair mais uma vez".

Por que, então? Por que retornar para um país que lhe causou enorme trauma e segue em guerra? "Na minha cabeça, quando saí daqui, eu não conseguiria voltar, mas amo tanto a Ucrânia, é um país que me acolheu tão bem", conta Cristian Dal'Bello, meio-campista do Zorya Luhansk. Ele fugiu do país de maneira dramática, a pé, ao lado dos ex-companheiros de clube Guilherme Smith (atualmente no Braga-POR) e Juninho, que estava com a esposa e o filho pequeno. As imagens dos cinco dormindo ao ar livre, sob temperatura negativa, com o calor de uma pequena fogueira, correram o mundo. "Está valendo a pena financeiramente, é um dos motivos pelos quais voltei. Sou o único estrangeiro no time, estão pagando direitinho".

Mesmo com a economia em crise por conta da guerra, os clubes ucranianos ainda conseguem pagar bons salários, muito superiores ao oferecidos por equipes da segunda ou da terceira divisão do Brasil ou até mesmo de outros países do Leste Europeu. "Recebi propostas com salários normais de clubes da Armênia, da Polônia e da Eslováquia, e aqui, pelos poucos brasileiros e estrangeiros que toparam vir neste momento, eles aumentaram bastante o salário e arcaram com tudo que pedi. A Ucrânia ainda é um país melhor no futebol do que esses outros", explica Marlyson, que tem Gabriel Nazário e Bruno Rodrigues como companheiros brasileiros no clube. "Vi como uma forma de estar empregado, jogando futebol que é o que mais gosto. Minha mãe ficou espantada quando contei que viria, mas mantenho contato diário com minha família para informar que está tudo bem. Além disso, o hotel onde ficamos aqui em Uzhgorod está a dez minutos de carro da fronteira com a Eslováquia. É muito próximo, se acontecer algum problema tenho uma válvula de escape muito rápida, não vou pensar duas vezes para sair".

De todas partidas realizadas nas duas primeiras rodadas, apenas uma gerou preocupação. Rukh Lviv x Metalista Kharkiv estava programado para começar às 14h de Lviv, em 24 de agosto. A data é marcante para a Ucrânia, por se tratar da Independência do país, o que já havia despertado nas autoridades temores de ataques russos. Mesmo Lviv estando muito próxima da fronteira com a Polônia, as sirenes antiaéreas tocaram poucos minutos antes da bola rolar, o que obrigou todos presentes no Estádio Ucrânia a se abrigarem no subterrâneo. Atrasada, a partida começou e foi interrompida três vezes no total pelos avisos de possíveis ataques aéreos na cidade. Ao todo, a vitória por 2 a 1 do Metalist durou 4h23.

Quem viveu isso dentro de campo e escondido nos vestiários foi o meio-campista Talles Brener. Contratado pelo Rukh Lviv em 2021, após rápida passagem pelo Olimpik Donetsk, fugiu do país quando a guerra começou e acertou contrato com o KuPS, da Finlândia. Foi o primeiro estrangeiro a decidir voltar para o Campeonato Ucraniano nesta retomada. "Eu já sabia das dificuldades que iria enfrentar quando decidi voltar, pela situação na Ucrânia. Espero que tudo isso termine logo e que eu possa servir de incentivo para as pessoas ucranianas voltarem ao país e tentarem ter uma vida normal. Tive um pouco de medo de voltar, mas tive mais medo para sair, principalmente nos dias em que fiquei na fronteira", conta. "Sobre as sirenes, agora já conhecemos bem o procedimento, então estamos mais acostumados a lidar com essa situação. Quando toca a primeira, precisamos nos abrigar. Com a segunda, já podemos sair normalmente".

Fora esse episódio, os jogadores conseguem ter uma vida normal, dentro do que é possível. Todos relatam a mesma impressão: estranha sensação de normalidade. "A vida segue normalmente aqui em Lviv, todas as atividades. Pessoas andando nas ruas... Só algumas empresas estrangeiras estão fechadas, mas de qualquer modo percebemos o semblante diferente das pessoas. Os ucranianos já são mais frios, mas todos estão tentando viver normalmente", explica Talles.

Marlyson compartilha o sentimento dúbio. "Estou em uma cidade na Ucrânia, e querendo ou não, há riscos, mas até agora não passei por qualquer momento parecido com o que aconteceu comigo há oito meses. Ao mesmo tempo é bem assustador, porque parece que está tudo normal. Às vezes nós brasileiros vamos cortar cabelo, passear no shopping, andar um pouco, distrair, sair para jantar e é impressionante. Tudo normal, as pessoas andando na rua. Aqui em Uzhgorod nem sinal de alerta tem, nada de polícia nas ruas, então é bem estranho. Vamos jogar em Kiev no próximo sábado. Talvez lá haja um pouco de perigo, por ser a capital, uma área onde houve muitos ataques".

No entanto, os depoimentos de quem já atuou em Kiev ou está morando lá neste momento também são de tranquilidade. "As pessoas estão trabalhando normalmente, somente as lojas internacionais estão fechadas. Claro que Kiev está bem mais vazia do que era antes, e é possível notar que a cidade está sem alma", conta Lucas Taylor, lateral emprestado pelo PAOK, da Grécia, ao Shakhtar Donetsk.

Clube mais rico do país e deslocado de Donetsk desde 2014, época do início efetivo da invasão russa na Ucrânia, o Shakhtar adotou estratégia diferente dos adversários, até mesmo por estar na fase de grupos da Champions League, onde enfrentará Real Madrid, Celtic e RB Leipzig, e a UEFA proibir jogos na Ucrânia. A base estabelecida é Varsóvia, na Polônia, que também receberá os jogos pelo torneio continental. Já no Campeonato Ucraniano, a sede escolhida foi Lviv, mas o time viajará para a cidade somente nos dias das partidas. Estão programadas também viagens para Leipzig, Glasgow e Madri com bastante antecedência aos jogos, algo possível apenas para um clube bancado por um bilionário, como é o caso de Rinat Akhmetov - outrora acusado de defender a causa russa em Donbass.

Lucas, formado na base do Palmeiras, aceitou o convite do técnico croata Igor Jovićević, com quem trabalhou anteriormente no Dnipro-1. Ele foi o substituto do italiano Roberto de Zerbi, contratado na temporada 2021-22, e que foi embora durante a guerra. No entanto, o que mais pesou na decisão do brasileiro em ingressar novamente na Ucrânia foi o fator esportivo, mesmo com o conflito em curso no país. "É uma oportunidade de jogar a Champions League, um sonho que tenho desde criança. Conversei com alguns amigos ucranianos, me disseram que a situação estava melhor do que no início e que a guerra estava mais concentrada na fronteira com a Rússia. Fiquei muito feliz quando tive a conversa com o treinador. Ele me ligou, disse para eu vir, me explicou a situação. Vou ser sincero, por enquanto estou tranquilo. Não tive qualquer experiência ruim até agora. Imagino que os brasileiros que estavam aqui no início da guerra foram mais afetados. Em Kiev e Lviv saio bastante, vou jantar, passear no shopping. Claro que nunca sabemos o que pode acontecer, mas estou levando a vida normalmente".

Para entrar na capital, todo veículo passa por barreiras militares. O Shakhtar, nos dias em que ficou na capital, também enfrentou isso. No centro da cidade estão expostos veículo militares russos apreendidos pelas tropas ucranianas. Piotr Slonka é um jornalista polonês de formação, mas que nos últimos anos, vivendo em Kiev, passou a atuar como intermediário em negociações de jogadores envolvendo Polônia, Tchéquia e Ucrânia. Ele estava a caminho de Kiev quando a guerra estourou; ficou no país e atualmente trabalha nas partidas do Campeonato Ucraniano, publicando relatos das partidas, vídeos e fotos em sua conta no Twitter.

Piotr teve medo de comparecer ao jogo de estreia da competição, em Kiev, entre Shakhtar e Kryvbas. Optou por seguir para Uzhgorod e depois Lviv, onde acabou enfrentando a tensão gerada pelas sirenes antiaéreas no jogo Rukh 1x2 Metalist. "Depois do terceiro alarme, quando vi as pessoas abrigadas sorrindo, já não estava mais assustado", lembra. "Estamos falando de lugares muito distantes da linha de frente. No começo da guerra, todo país estava em perigo, agora cidades como Lviv e Uzhgorod estão bem, mas sempre é possível ver os rastros da guerra que passou por lá nos últimos meses. Não está 100% seguro, qualquer coisa pode acontecer, mas em 90% do tempo as pessoas tentam viver normalmente".

Traumas que ficam

De qualquer modo, os traumas da guerra existem. Em todos que permaneceram no país, assim como em muitos que voltaram. Os jogadores brasileiros relataram problemas psicológicos após deixarem a Ucrânia. "Eu enfrentei sete dias de guerra e isso fez um mal muito grande para minha cabeça. Imagina as pessoas que estão há oito meses nessa situação?", questiona Marlyson. Natural da pequena Rosário, no interior do Maranhão, o atacante se refugiou na cidade para aliviar o estresse gerado. O Figueirense, clube com o qual mantém contrato no Brasil, queria que ele já se apresentasse e jogasse a reta final do Campeonato Catarinense. Era impossível. "Disse que não tinha condição, precisava ver minha mãe e meu pai. Fiquei duas semanas na casa deles para tentar esquecer o que passei". Só que as pessoas, curiosas para entender o que era uma guerra, não paravam de procurar Marlyson, o que piorou a situação para o jogador. "Onde eu ia, no mercado, no banco, as pessoas sempre perguntavam e isso estava me prejudicando. Como no meu bairro eu tenho muito respeito, sou o único jogador de futebol de Rosário, lá eu pedi para não me perguntarem mais sobre isso", relembra Marlyson, cujo empréstimo para o Vorskla vale até o final da temporada.

Cristian, de personalidade mais fechada, sofreu muito mais com as consequências psicológicas da guerra. Ao voltar para casa, em Passo Fundo, no interior do Rio Grande do Sul, foi abraçado por familiares e amigos, mas se isolou nas semanas seguintes ao guardar para si os pesadelos. "Sou muito fechado psicologicamente, não consigo me abrir para ninguém. Fiquei duas semanas muito fechado. Quando me perguntavam, eu falava sobre a guerra, mas se ninguém me perguntasse, eu ficava quieto, guardava pra mim, e quando ia dormir passava um filme na minha cabeça de tudo que a gente viveu aqui. Comecei a namorar e passei a me abrir com ela. Isso foi me curando. Na base da conversa, aos poucos, fui deixando para trás o que tinha acontecido", lembra, citando a namorada Luisa, que estuda Medicina e ficou no Brasil.

Nem tudo foram flores nesse retorno à Ucrânia. Cristian não conseguiu atuar pelo Caxias, que o procurou, no período em que esteve no Brasil por questões burocráticas com o Zorya, que o informou posteriormente que desejava seu retorno. Imediatamente o meio-campista negou, não queria voltar, mas mudou de ideia com o passar dos dias e as conversas com os familiares. E mais importante: a promessa do clube de que morariam na Polônia. Esse era o planejamento do Zorya, mas apenas em caso de classificação para a fase de grupos da Conference League, o que não foi informado aos atletas. A equipe foi eliminada na terceira fase qualificatória pelo Universitatea Craiova, da Romênia, e poucos dias depois o presidente do clube fez o comunicado sobre a mudança para Kiev.

Cristian não chegou a entrar em desespero, mas ligou para seu empresário e disse que não ficaria mais na Europa. "No dia que o presidente nos informou que voltaríamos para a Ucrânia, eu liguei para o meu empresário. Porque pra mim ficaríamos na Polônia, lá não tem guerra, estava tranquilo. Liguei para a minha família, minha namorada, disse que não ia, e eles concordavam comigo. Meu empresário disse que a decisão era minha. Conversei com os jogadores que lá estavam, busquei informação e no último dia decidi vir. Quando passamos pelas barricadas aqui nas estradas, ainda vem um filme na minha cabeça, mas superei. Estou de boa comigo mesmo agora".

Mudanças nos hábitos dos clubes também aconteceram. No Shakhtar e no Zorya, por exemplo, o russo era a língua mais falada, o que agora faz parte do passado. Donetsk e Luhansk estão sob domínio russo atualmente, mas os dois clubes fazem questão de ressaltar sempre suas origens ucranianas. "A maioria dos jogadores ucranianos não fala inglês e também está evitando falar russo", diz Lucas Taylor, agora o único jogador brasileiro do Shakhtar, uma das equipes com maior ligação nas últimas décadas com o Brasil e que mantém seus atletas brasileiros emprestados a outros clubes - são sete sob contrato e nessa situação. A dificuldade na comunicação impede também maior troca sobre o que está acontecendo nas áreas de conflito, já que muitos atletas possuem familiares em zonas bélicas. "Evito falar sobre a guerra. Há um jogador no nosso time cuja família está em Kharkiv e não consegue deixar a cidade. Evito falar para não deixá-los aflitos também", completa Lucas.

Relato parecido tem Marlyson. "Quando vemos algumas notícias, tento falar com os ucranianos, mas poucos falam inglês. Algumas vezes pergunto sobre as famílias deles e me contam que estão em Poltava, lá é meio instável. Somos muito próximos ao médico do time, a família dele também está em Poltava. Ele disse que o mental das pessoas está muito afetado. Muitas pessoas de Poltava e Kharkiv se deslocaram para oeste e nos agradecem sempre por confiar no povo ucraniano e no país". Além disso, as restrições à língua russa se tornaram frequentes; no Zorya, por exemplo, os jogadores possuem o costume de ligar música antes das partidas, mas foram orientados a não tocar qualquer canção russa, algo absolutamente corriqueiro antes da guerra.

O futebol e a guerra

O livro "Como o Futebol Explica o Mundo", de Franklin Foer, já havia trazido relatos desde sua publicação sobre a influência que o esporte mais praticado do planeta possui sobre a sociedade e como é possível compreendê-la em vários sentidos através do futebol. Saindo das páginas e enfrentando a realidade, os relatos de quem convive diariamente com as incertezas de um país em guerra corroboram a visão de Foer e de todos aqueles que veem o futebol como algo bem além de um jogo.

"Quando retornei para a Ucrânia, fui o primeiro jogador estrangeiro a voltar. As pessoas nos acolheram muito bem, eu e minha esposa. Os ucranianos querem que a vida volte ao normal o quanto antes. Voltando para cá, podendo jogar, isso trouxe um pouco mais de ânimo para a garotada. Todos ficaram mais motivados com o retorno do Campeonato Ucraniano. Nós nos sentimos seguros. Deus está sempre nos protegendo. Temos que confiar e acreditar", diz com fé, Talles.

Houve um episódio marcante que aconteceu no vestiário do Zorya. Ao retornar ao Brasil, Cristian fez uma enorme tatuagem na região da costela com a menção bíblica de Josué 1:9, que diz, entre outras coisas, "Porque Eu, o Senhor seu Deus, estarei com você em qualquer lugar". Abaixo, as datas de 24 de fevereiro e primeiro de março de 2022, com a bandeira ucraniana logo na sequência. É o período que marcou a fuga de Cristian e seus amigos da Ucrânia. Quando mostrou a tatuagem para os atuais companheiros de clube, todos se emocionaram e o aplaudiram. "Me agradeceram por ter voltado, disseram possuir o máximo respeito por mim".

No final das contas, quando a bola rola, são jogos de futebol. Sem público nas arquibancadas, mas com atletas buscando o melhor resultado possível. A ausência de tantos estrangeiros diminuiu o nível técnico da competição, mas por outro lado, a nivelou. O Dinamo Kiev estreou com derrota por 3 a 0 para o Dnipro-1, enquanto o Shakhtar já não possui o favoritismo de temporadas anteriores. Na Champions, o representante de Donetsk deve ter ainda mais dificuldades, mas não deixará de sonhar. "Nosso objetivo é pelo menos ficar em terceiro na Champions, mas podemos sonhar com o segundo lugar. Sabemos que não é o mesmo Shakhtar de antes, mas no futebol tudo pode acontecer. Ainda temos um bom time", garante Lucas, que está sozinho na Ucrânia. Sua esposa, Bárbara, permaneceu na Grécia, no aguardo da documentação de seu cachorro, um husky siberiano chamado LeBron, para retornar ao Brasil. Como o Campeonato Ucraniano para em novembro por causa do inverno, a equipe seguirá para inter-temporada na Turquia e volta apenas em março. "Se a situação estiver melhor, ela vem também. Com meu cachorro, sinto falta demais dele".

Questionados se sentem medo, os atletas brasileiros misturam sentimentos e desejos profissionais. Ao mesmo tempo que se surpreendem com a normalidade da vida em algumas cidades, ressaltam os receios existentes e focam na carreira esportiva para buscarem refúgio mental. Lucas quer permanecer no Shakhtar após a temporada e, para isso, precisa atuar em pelo menos 50% dos jogos para ser contratado em definitivo. Marlyson, hospedado em um confortável hotel de Uzhgorod entre piscinas e spas, garante que o baque de trocar jogos contra Shakhtar e Dinamo por confrontos da terceira divisão brasileira foi muito grande e está feliz com sua atual situação contratual. Alojado no Centro de Treinamentos do Dinamo, Cristian mostra o aplicativo que possui no celular, que mostra em tempo real as sirenes antiaéreas. Ele acredita que a guerra vai passar rápido e está feliz com a sequência de jogos como titular. Brenner, com sua fala mansa, passa tranquilidade nas palavras e foca na competição para ter uma boa temporada.

No leste da Ucrânia, a guerra de informações também persiste. Não há dados oficiais e de alta confiabilidade sobre o número de mortes por causa da guerra. Os horrores de um conflito são registrados por corajosos e corajosas jornalistas na frente de batalha. Enquanto parte da população luta pela retomada da vida habitual, outra consegue viver tardes de futebol. "Acho que o futebol pode ajudar os ucranianos a superarem esses tempos difíceis. Não é apenas sobre o jogo, mas sobre os sentimentos que ele traz. Os torcedores podem ver os estádios, os times, os jogadores como faziam antes, mesmo sem irem às arquibancadas. Isso traz normalidade. No tempo livre, podem assistir os jogos pela TV, olhar a tabela de classificação, verificar as transferências e falar de futebol com os amigos, como faziam antes da guerra", sintetiza Piotr Slonka, já se preparando para trabalhar na próxima partida do Campeonato Ucraniano.

A terceira rodada começa na próxima sexta-feira com Rukh x Shakhtar, em Lviv. Do outro lado do país, muitos ucranianos sequer sabem se chegarão vivos até o final da semana. Todos na Ucrânia desejam apenas o apito final.