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Como a história liga Luizinho e Wladimir, ídolos do Corinthians que estão entre Cássio em números de jogos

Os três primeiros jogadores com mais jogos pelo Corinthians são Wladimir, Cássio e Luizinho, com 806, 610 e 607 partidas, pela ordem


Cássio tornou-se o segundo jogador com mais partidas pelo Corinthians no último 13 de agosto, data em que o time foi derrotado pelo Palmeiras por 1 a 0, em Itaquera. Passou Luizinho, o Pequeno Polegar, que tem 607 presenças, e agora está atrás apenas de Wladimir, que conta com 806 jogos.

Luizinho e Wladimir jogaram pelo Corinthians em décadas diferentes, mas a história deles está mais conectada do que imaginam os torcedores alvinegros.

O Pequeno Polegar foi o técnico de Wladimir na base no início dos anos 70. Inclusive, foi ele quem aprovou a permanência do jovem franzino após algumas peneiras no velho Terrão, embora nas primeiras vezes quem estava à beira do gramado avaliando e dando ordens no treino era José Castelli, o Rato, outra figura lendária no clube.

Wladimir tinha 14 anos de idade e já era um destaque no futebol de várzea em São Paulo, mas como meia-esquerda. Foi um amigo do Brasil da Pompeia que o indicou para fazer testes na base do Corinthians.

Ao chegar no Parque São Jorge e ver os concorrentes, todos mais altos e fortes, Wladimir optou pela lateral esquerda. Luizinho gostou do jovem especialmente pela eficiência na marcação.

“Lembro que ele era uma figura genial. Tudo que ele falava pra gente era norma. A gente aprendeu muito com o Luizinho, e eu acabei levando o que eu aprendi na base até o fim da minha carreira. Eu cheguei ao Corinthians com 14 anos de idade, e sai daqui com 30 e tantos”, disse Wladimir à reportagem.

Depois, nos primeiros anos como profissional, Wladimir ainda foi treinado por Luizinho em duas ocasiões, ambas com o veterano assumindo o posto interinamente. Primeiro em 1974. Depois, em 1975.

Filho de Luizinho

Dos juvenis aprovados para treinar na base corintiana havia também um meia-direita talentoso e abusado. O nome dele era Luiz Antônio, dono da camisa número 8, a mesma do pai… Luizinho.

Wladimir soube logo no começo que aquele era o filho do treinador porque as cobranças de Luizinho em cima de Luiz Antônio eram muito mais duras e constantes.

“Ele queria que eu fosse o exemplo. Durante seis meses, eu sofri. Ele gritava ‘Tem que dominar direito; Tem que saber passar; Tem que fazer o que estou mandando’. Ele falava pra todo mundo escutar. Era muito difícil”, disse Luiz Antônio, também chamado de Luizinho dentro do clube alvinegro.

Treinar no Corinthians nem era realmente a vontade dele, pois já sabia que seria difícil fazer jus à história do pai. No começo, ele ia ao clube apenas para praticar futsal no ginásio. Deixava o futebol para a várzea, atuando pelo time da vila operária da Maria Zélia (onde Luizinho também começou no futebol).

Um dia se destacou jogando contra adultos e teve a sorte de ser observado por um diretor do Corinthians, que insistiu para que ele fosse fazer um teste na base. Luiz Antônio foi contrariado. Decidiu não falar nada aos dois irmãos nem ao pai e a mãe. Quando chegou lá Luizinho é quem estava dando o treino. Não dava para voltar atrás.

Veterano e aposentado em 1967, o Pequeno Polegar era quase um autoridade máxima para falar de Corinthians. Todos os respeitavam dentro do Parque São Jorge. Para muitos, ele era o maior ídolo corintiano.

Os feitos nos gramados corroboravam isso. Luizinho foi campeão de três paulistas, um deles o do histórico ano de 1954 (quando a cidade de São Paulo celebrou o quarto aniversário de fundação) e de três títulos do Torneio Rio-São Paulo, além de outras disputas menores, mas significativas à época, como a Pequena Copa do Mundo.

Diziam que nos duelos contra o palmeirense Luiz Villa, Luizinho costumava a sentar na bola e alegrar a torcida.

Era essa lenda que dava treinos para Wladimir, outros aspirantes a jogadores do Corinthians e para o próprio filho.

“Depois daqueles seis meses sofridos treinando com ele, sendo cobrado, sendo exigido, as coisas se ajeitaram para mim. Peguei amizade com um, com outro. Ganhei respeito jogando bola . Aí começou o campeonato, e eu nunca peguei uma reserva”, disse Luiz Antônio.

Nessa época, durante os treinamentos, era comum ele ser escalado para duelar com Wladimir. Hoje, aos 69 anos, ele recordou à reportagem que dificilmente ganhava uma disputa com o lateral esquerdo.

“Meu pai falava ‘Quero ver você passar por ele’. Eu na meia-direita, e o Wladimir na lateral esquerda. Eu fazia o que podia, mas ele tinha um pique de sair o fôlego. Nas divididas, ele tinha um carrinho mortal. Uma vez eu fui com a bola até a linha de fundo, escapei dele, mas sai junto com a bola. E ele ficou no campo. Foi a maior gozação”, disse.

O sofrimento não era frequente porque Luizinho também treinava jogadas ensaiadas entre os dois para fortalecer o time titular. Algo que Luiz Antônio lembrou com um brilho nos olhos de felicidade.

“Quando eu gritava o nome do Wladimir, ele já estava pronto pra receber a bola na posição certa e fazer o cruzamento. Depois ele voltava correndo para marcar. Por isso ele chegou longe”.

Carreiras diferentes

Luiz Antônio e Wladimir foram campeões paulista na base ao lado de nomes que também ficaram conhecidos, como o zagueiro Laércio e o ponta-esquerda Olívio Pitta. Mas os caminhos que os amigos seguiram foram diferentes.

Wladimir ficou no Corinthians por 15 anos e fez parte de momentos icônicos, como a invasão da torcida no Maracanã, em 1976, a conquista do Paulista de 1977, apos 23 anos de jejum, e a Democracia Corinthiana.

Ao todo, foram 806 partidas, que fazem dele o recordista absoluto em jogos pelo clube.

“Eu joguei com costela quebrada, tornozelo inchado. Os médicos chegavam para mim e falavam ‘Fica fora dessa. Assim você se recupera’. Eu falava: ‘Não, doutor! Eu assumo a responsa’. Eu detestava ficar fora”, disse Wladimir.

No ano passado, o ex-lateral esquerdo ganhou um busto no Parque São Jorge. Também ganhou uma biografia escrita pelo jornalista Hélio Alcântara, "Wladimir, o capitão da Democracia Corinthiana" (Editora Letras do Pensamento), apresentador e diretor do histórico programa “Grandes Momentos do Esporte”, da TV Cultura.

“O Wladimir tem um peso na história que une duas facetas. É o esportivo: com 806 jogos, doze anos e meio como titular do time, dono da posição, muito amado pela torcida do Corinthians. A outra é a cabeça. Ele sempre foi um camarada diferenciado porque nunca dava as mesmas entrevistas. Ainda foi o capitão da Democracia Corinthiana e o cara que aglutinava Sócrates, Casagrande, Adilson Monteiro Alves”, disse Hélio Alcântara.

Já Luiz Antônio cresceu como jogador longe do Parque São Jorge. Primeiro pela base do Coritiba. De lá, foi contratado pelo 14 de Julho, um pequeno clube gaúcho, onde se profissionalizou. Era chamado de Paulista. Também atuou no Uruguai, mas sem grande destaque na mídia da época.

Como encerrou a carreira cedo pelo nascimento dos filhos, os únicos registros do período no futebol ficaram nas histórias que ele conta aos filhos e aos netos. Sem fotos nem vídeos dos lances dele em campo.

Reencontro para a eternidade

Por iniciativa da ESPN, Wladimir e Luiz Antônio voltaram a se reencontrar após muitos anos distantes. O palco foi o Parque São Jorge, emn uma surpresa para ambos, em 8 de agosto.

Wladimir chegou primeiro e acompanhado por Hélio Alcântara. See deliciou passeando pelas alamedas do Parque São Jorge, tirando fotos com fãs e dando autógrafos. Ainda fez uma visita ao próprio busto.

Luiz Antônio chegou depois. Veio no carro de reportagem com a esposa (50 anos de casamento) e uma das netas (Marina, de 15 anos). Assim que o veículo estacionou, quem abriu a porta para ele foi Wladimir.

"Que emoção! Esses dias mesmo eu estava falando de você para a minha família, do tempo em que jogamos juntos na base, do tempo que meu pai treinou a gente... Isso é um presente", disse Luiz Antônio.

O reencontro e a recordação de tantas memórias mexeu muito com a emoção da dupla.

Primeiro, se abraçaram e riram muito, quase não acreditando que um estava diante do outro. Depois Wladimir agradeceu Luiz Antônio pelos ensinamos que Luizinho, morto em 1998, aos 67 anos, passou ao longo dos primeiros momentos dele no Corinthians. Luiz Antônio só conseguiu responder com lágrimas.

A reportagem promoveu o encontro para prestar uma homenagem a eles, que representam parte importante da história do Corinthians, embora muitas vezes a memória seja ingrata no nosso futebol. Ao mesmo tempo, o encontro tornou-se relevante pelo feito de Cássio, que, até a publicação deste texto, contabilizou 610 partidas pelo clube.

Nada que apague ou diminua os feitos de Wladimir e do pai de Luiz Antônio. Aliás, ambos demonstraram torcer para que o goleiro chegue mais longe na história corintiana, dando frutos ao time e à torcida.

“Que deus ajude o Cássio. Ele faz por merecer tudo isso. Que ele continue batendo recordes e que ninguém chegue perto. Para chegar próximo tem de ter o que ele faz, que é de melhor para o clube”, disse Luiz Antônio.

“Para chegar longe, ele tem de ter a capacidade de se superar, entendeu? Superar dor, superar vaias, superar maus momentos. Às vezes, você não está 100% para jogar, mas se você conseguir superar essas adversidades você vai longe, como ele tem ido e como ele é merecedor de todas as homenagens”, afirmou Wladimir.

A dupla ficou pelo menos umas três horas juntas no Parque São Jorge, período interrompido por alguns períodos para a gravação das entrevistas. Wladimir deu um livro de presente a Luiz Antônio e, ao se despedir, fez uma promessa compartilhada pelo amigo: mais reencontros e de preferência com intervalos menores.

A dupla foi embora satisfeita pelo afeto dos corintianos que os encontraram e sabendo que não importe quanto tempo passe, mas já estão na eternidade corintiana. Um pelos feitos como lateral. O outro como filho de uma lenda.