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'Coloca para lavar louça, fazer ballet' e 'Pisa na cabeça dela': pais de Giovanna desabafam sobre ameaças que filha sofre no futebol

Em entrevista à ESPN, pais da jovem Giovanna Waksman contaram sobre luta da filha para conseguir jogar entre os meninos na categoria de base do Botafogo


Giovanna Waksman, de 13 anos, já é considerada uma nova promessa do futebol brasileiro. A jovem tem se destacado por jogar na equipe sub-13 do Botafogo, atuando entre os meninos. Após ser alvo de constantes ataques preconceituosos e machistas nos últimos dias em vídeos que ganharam as redes sociais, a joia botafoguense foi chamada para entrar em campo com o time principal no clássico contra o Fluminense.

“O Botafogo se orgulha de ter um talento da grandeza de nossa Giovanna. O Alvinegro luta pela igualdade e nunca irá tolerar nenhum tipo agressão motivada por preconceitos. Hoje ela entra em campo conosco. Estamos juntos com você, Gio”, publicou o clube, usando ainda a hashtag #DeixaElaJogar.

Encantando na categoria de base alvinegra, Giovanna esteve no centro de um debate após circular nas redes sociais um vídeo em que a jogadora é alvo de faltas duras em campo. Ainda é possível ouvir um grito de 'futebol é para homem' partindo da arquibancada.

O Espírito da Regra traz que a arbitragem deve zelar pela segurança dos atletas em campo, pela sua proteção, além dos adversários terem o comprometimento com o famoso Fair Play.

As constantes pancadas recebidas durante os jogos resultaram em uma lesão na clavícula da jogadora, que pode ficar fora dos gramados por até quatro semanas.

O Blog conversou com Jackeline e Renato, pais da Giovanna, que relataram o preconceito e contaram como buscam ajudar a filha a realizar seus sonhos.

Blog Renata Ruel: Como começou a paixão da Giovanna por futebol e como vocês como pais encararam isso?

“Na Educação Física da escola, o professor separava as meninas na arquibancada e os meninos na quadra. Ela começou a pedir para jogar e percebeu que amava bola. Sempre que passávamos na calçada para buscar ela na escola alguém falava: 'Esse é o pai da craque, essa é a mãe da Marta', e ela pediu para entrar na escolinha de futsal”.

“Aos poucos fomos descobrindo seu talento e apoiamos. Sempre encaramos com naturalidade e como uma prática esportiva. Ensinamos que ela sempre deve fazer o que ama e se dedicar em tudo que faz”.

Blog Renata Ruel: Como é a vida da Giovanna fora dos campos, a convivência social dela?

“Quando não está treinando ou jogando, a Giovanna gosta de ficar com as amigas e com primas. Ama praia, parque e cinema”.

Blog Renata Ruel: A estrutura familiar é fundamental para a carreira da atleta. Qual a maior dificuldade que vocês sentem como pais de uma craque e como buscam ajudá-la nessa construção da carreira?

“Ensinamos sempre a valorizar as suas conquistas e escolhas. Sempre falamos para ela que amar o que faz e ainda ser remunerada para isso, não tem satisfação maior na vida. A Giovanna é uma filha maravilhosa, pé no chão e disciplinada”.

“Estamos sempre juntos, em todos os momentos e procuramos viver em ambiente de amor, transparência e verdade. Estamos impulsionando a ser melhor a cada dia. A maior dificuldade é ter que diariamente mostrar que ela está ali por mérito e sempre ter que provar que é capaz”.

Blog Renata Ruel: Por ser mulher no futebol, eu sei como é enfrentar o preconceito e o machismo. O maior preconceito que a Giovanna enfrenta vem de quem - outros pais, atletas, técnicos, dirigentes, torcedores?

“Dentro de campo ela é exemplo até mesmo para os meninos. Dedicada, esforçada e comprometida, além de craque. Eles sempre elogiam, demonstram com palavras e carinho o quanto são fãs e respeitam ela como atleta”.

“Na maioria das vezes, as ofensas vêm das arquibancadas ou da comissão técnica. Por incrível que pareça, escutamos muito mais de mães para ela fazer ballet, que não pode encostar que é falta, que futebol é para homem, que ela tem sorte de deixarem ela jogar com os meninos. Já ouvimos de pais: 'pisa na cabeça dela e coloca ela para lavar louça', 'chama ela para namorar', entre outras coisas que nem podemos falar aqui”.

“Dentro de campo, alguns profissionais estão em busca do resultado a qualquer custo e esquecem que estamos formando além de atletas, cidadãos que precisam entender a sua importância na sociedade e pedem para pegar ela, bater nela, coisas desse nível”.

Blog Renata Ruel: Qual a mensagem que vocês gostariam de deixar para todos que se espelham na filha de vocês?

“Que não desistam dos seus sonhos e que podemos ser e fazer o que quisermos”.