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Richarlyson fala abertamente sobre orientação sexual e dispara: 'Nunca coloquei minha sexualidade à frente do meu trabalho'

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'Lutei para ser uma mulher do esporte', diz Tifanny Abreu ao Reflexões; VEJA (1:50)

VEJA o Reflexões pela ESPN no Star+ (1:50)

Em entrevista ao podcast 'Nos Armários dos Vestiários', o ex-jogador Richarlyson falou abertamente sobre orientação sexual


Tricampeão brasileiro e vencedor do Mundial de Clubes da Fifa defendendo a camisa do São Paulo e da Conmebol Libertadores pelo Atlético-MG, Richarlyson vive uma nova função no esporte, mas agora fora dos gramados. Atualmente comentarista esportivo, o ex-jogador falou abertamente a respeito da briga travada pela liberdade sobre a orientação sexual no ambiente do futebol, que ainda segue como duro tabu.

Ao se declarar bissexual durante entrevista ao podcast 'Nos Armários dos Vestiários', o ex-meio-campista admitiu a dificuldade atravessada durante toda a carreira para que apenas seu desempenho dentro dos gramados pudesse pautar sua vida, e não as escolhas fora das quatro linhas.

“A vida inteira perguntaram se sou gay. Já me relacionei com homem e já me relacionei com mulher também. Só que aí eu falo hoje aqui e daqui a pouco estará estampada a notícia: ‘Richarlyson é bissexual’. E o meme já vem pronto. Dirão: ‘Nossa, mas jura? Eu nem imaginava’. Cara, eu sou normal, tenho vontades e desejos. Já namorei homem, já namorei mulher, mas e aí? Vai fazer o quê? Nada. Vai pintar uma manchete que o Richarlyson falou em um podcast que é bissexual. Legal. E aí vai chover de reportagens, e o mais importante, que é pauta, não vai mudar, que é a questão da homofobia. Infelizmente, o mundo não está preparado para ter essa discussão e lidar com naturalidade com isso”, disse o ex-jogador.

“Pelo tanto de pessoas que falam que é importante meu posicionamento, hoje eu resolvi falar: sou bissexual. Se era isso que faltava, ok. Pronto. Agora quero ver se realmente vai melhorar, porque é esse o meu questionamento”.

As declarações de Richarlyson ganham ainda mais relevância em meio à escalada no combate a cantos de caráter homofóbicos nos estádios de futebol. Clubes como Corinthians e Cruzeiro foram denunciados pela procuradoria do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) após manifestações de cunho discriminatório em partidas como mandantes.

O tema voltou a ser debate nesta semana após a partida entre Atlético-MG e Flamengo, que se enfrentaram pelas oitavas de final da Copa do Brasil.

A própria Confederação Brasileira de Futebol chegou a ser multada pela Fifa em 2017 'por conduta discriminatória e antidesportiva de torcedores' após o Comissão Disciplinar da entidade analisar manifestações que aconteceram em partidas da seleção brasileira.

“Você me entende por que eu acho que é desnecessário às vezes você se rotular? Tem uma questão mais importante, tem gente morrendo, o Brasil é o país que mais mata homossexuais. E a gente está aqui falando de futebol, ok, mas o futebol é um negocinho pequeno. Ah, mas sua fala pode ajudar. Não, não vai ajudar. Quem é Richarlyson, pelo amor de Deus?! Sou um mero cidadão comum, que teve uma história bacana no futebol, mas eu não vou poder mover montanhas para que acabem esses crimes, para que acabe a homofobia no futebol”, disse Richarlyson, desabafando sobre o tema da orientação sexual ter sido levantado em várias oportunidades no decorrer dos quase 20 anos de carreira.

“Não queria ser pautado por causa da minha sexualidade, de eu ser bissexual. Eu queria que as pessoas me vissem como espelho por tudo aquilo que conquistei dentro do meu trabalho. Eu nunca coloquei a minha sexualidade à frente do meu trabalho, e nunca faria isso. E eu não estou falando isso agora porque parei de jogar. Muita gente maldosa vai falar isso, que eu falei agora porque não jogo mais. Não. Eu nunca falei porque não era a minha prioridade, como não era hoje, mas hoje eu me senti à vontade de falar. Eu queria que não existisse essa pauta. Eu queria estar falando aqui da minha nova carreira (comentarista). Mas é importante. Vamos poder alertar um ali, outro aqui”, afirmou o ex-jogador, que defendeu a seleção brasileira em 2008, convocado por Dunga para duas partidas.

“Ser homossexual não é demérito para ninguém, e no futebol não deveria ser um assunto tão polêmico. Nunca deixei que isso atrapalhasse o que eu quero para minha vida, não vai ser uma frase, uma palavra, uma discussão ou um cara babaca que tentou de forma vulgar maltratar uma classe… Pelo amor de Deus, quanto sofrimento tem na classe LGBTQIA+?”.