Guilherme Decca, empresário que mora nos Estados Unidos, é proprietário do Wakefield desde novembro de 2021 e conta como foi processo de busca por um clube e quais os planos para o futuro
Enquanto todos os amigos de infância festejavam gols como se estivessem no Maracanã lotado e sonhavam em repetir isso profissionalmente, outro garoto queria algo diferente. É impossível cravar que algum daqueles meninos conseguiu realizar o sonho, mas Guilherme Decca pode, orgulhosamente, dizer que sim: ele levou o famoso game Football Manager para a vida real e, hoje, é dono de um clube de futebol.
O brasileiro comprou, em novembro de 2021, o Wakefield AFC, equipe amadora do norte da Inglaterra e que disputava a 11ª divisão do país, a Sheffield & Hallamshire County Senior Football League. Mais de seis meses depois, o clube conquistou o acesso para o 10º nível como campeão e vai disputar a Northern Counties East League a partir das próximas semanas.
"Eu quando era moleque jogava bola como todo mundo, mas nunca achava que o mais legal era fazer um gol no Morumbi contra o Palmeiras no último minuto. O mais legal era, como são-paulino, ser dono do São Paulo, achar jogador. Eu sempre gostei da parte do negócio do futebol, estudo isso há muito tempo. O fato de gostar do Football Manager é um pouco da minha personalidade de fazer isso e oportunidade de fazer ao vivo. Fazer scout, discutir planejamento com a comissão técnica após jogo", contou o empresário, que hoje vive nos Estados Unidos, em entrevista ao podcast da ESPN Correspondentes Premier.
Decca adquiriu o Wakefield em parceria com André Ikeda, seu sócio na empresa de finanças VO2 Capital. A ideia de ter um time de futebol para chamar de seu é muito antiga, mas a dificuldade de investir muito dinheiro no esporte mais popular do mundo levou os dois às divisões mais inferiores da Inglaterra, país que Guilherme idolatrava desde a Copa do Mundo de 1990 e sua seleção estrelada por Paul Gascoigne.
"Quando morava na Inglaterra, ia muito no Fulham, no Chelsea de vez em quando, e gostava de viajar na época para assistir Nottingham Forest, Derby County e Non League Football, que era o que achava mais legal. Aquela coisa de comunidade, de todo mundo ir mesmo com futebol de não tanta qualidade. Pensei: se um dia tiver oportunidade, quero fazer isso. E acabou acontecendo a oportunidade através da VO2 Capital", explicou.
"Tivemos chance de fazer investimento em um time da League One [3ª divisão da Inglaterra], mas com situação financeira muito ruim, e achamos que não valia a pena. Tinha muita dívida para reestruturar, ia ser muito difícil mudar a forma que o clube está posicionado na cidade. Fomos olhar outros clubes, mas todos acumulando muita dívida, e daí olhamos outras ligas", afirmou o empresário.
"Fomos olhar na sexta divisão, sem compromisso, e um número era pior que o outro. Pensei que não ia dar certo, porque todos os times estavam muito quebrados, e aí apareceu o Wakefield AFC, que é a maior cidade da Inglaterra sem um time profissional. Vimos uma oportunidade. Existia um grupo de empresários locais que administrava o time, mas estava caótico. Só que uma coisa é consertar 300 mil libras de dívidas e outra é arrumar 30 milhões. Então era uma oportunidade legal e pensamos: vamos para cima".
Trabalho, arrancada para o título e estrutura do futuro
O começo não foi dos mais fáceis. O próprio Guilherme traça um paralelo para exemplificar a dificuldade. A Premier League, hoje tratada como a melhor do mundo, é lotada de grandes jogadores e tem influência estrangeira, o que ajuda na criação de um futebol mais atraente. Mas as divisões menores, em especial as amadoras, ainda carregam muito do futebol inglês raiz: chutões dos zagueiros para o ataque, muita disputa física e pouca capacidade técnica.
Lutar contra isso foi o primeiro desafio da nova gestão brasileira no Wakefield. Mas, após uma reformulação no staff e a chegada de profissionais que acreditassem em um futebol mais bem jogado e fluído, entre eles o técnico brasileiro Gabriel Mozzini, o time reagiu. Saiu do 7º lugar da Sheffield & Hallamshire County Senior Football League para emendar uma série positiva de resultados e terminar com o título.
"A gente tem jogador que jogava no Leeds United sub-19, no Donchester sub-19. Jogador de muita qualidade. E eles (ex-comandantes do clube) odiavam os moleques, falavam que eram fracos de cabeça, não tinham pegada. E sempre colocavam os caras que davam chute para a frente só. E a gente em 7º lugar, gastando muito mais que todos os times, passando apertado para jogar contra semiamador ruim. Até que eu trouxe um técnico brasileiro que estava no QPR, e o técnico anterior virou o diretor esportivo do clube, e mandou todo o resto embora. Botou um staff que acredita no time de futebol que a gente acredita. Então a gente provou que, se tem mais qualidade, tem que dominar a posse de bola, fazer pressão. Não quero assinar com um cara de 28 anos sem forma física, quero alguém que treina três vezes por semana e mantém intensidade".
Criar um futebol mais atraente, mesmo com jogadores que possuem outras profissões e não podem se dedicar integralmente ao futebol, foi um dos pilares do trabalho. O outro foi criar uma estrutura física para ajudar o Wakefield no futuro. Assim, a nova gestão modernizou o estádio, construiu uma academia e tem mais planos, como fazer um campo de jogo que seja alugado a times de rugby durante o dia, o que ajuda na geração de recursos. Isso sem contar na compra de câmeras para acompanhar jogos e analisar potenciais reforços para o futuro.
O plano é claro: preparar-se estruturalmente para chegar a divisões superiores, ainda que isso demore muito. Hoje na 10ª divisão, o Wakefield precisa subir mais cinco degraus para alcançar o nível profissional. A ascensão naturalmente causará mudanças no clube. Guilherme Decca garante: não há pressa para realizar esse sonho.
"A gente quer ser promovido. As pessoas perguntam quão alto nós queremos ir. Depende da nossa competência. Temos algumas teorias, dentro e fora de campo, em que pensamos que é possível ter algumas promoções. Agora, o quanto a gente vai subir vai depender da nossa competência. A vantagem é que a gente é paciente. Se demorar 10, 15, 20 anos, tudo bem. Chegar na National League em 10 anos, se vier tudo certinho, é bem factível e seria muito legal. Consigo ver a gente jogando para 5 a 10 mil pessoas em todos os fins de semana", afirmou o empresário.
Inspiração para sucesso e pitacos sobre SAFs do Brasil
Para chegar tão longe e superar a era amadora, os donos do Wakefield têm modelos a seguir: um mais próximo da realidade e outros dois que fazem parte do panteão do futebol inglês, a Premier League.
"O Forest Green Rovers [campeão da 4ª divisão] é um exemplo excepcional, apesar de a gente não ser da mesma vibe. Eles foram atrás de pessoas que queriam apoiar verde, reciclagem, assuntos veganos. Não importa se você não gosta, mas o importa é que deu certo. A projeção deles é gigante e ganharam a League Two. A gente gosta muito de análise e segue times como Liverpool e Brentford. Futebol é um jogo de minimizar erro nas contratações, por isso a gente investe em análise de desempenho", afirmou Guilherme Decca.
A partir de análises, o Wakefield espera aumentar sua base de dados para a formação dos elencos futuros. E um ponto importante é aumentar a proximidade com o Brasil, através de oportunidades de importar talentos do país, oriundos direto de universidades.
"É importante ter identidade inglesa, mas a gente acha que tem uma oportunidade, daqui uma ou duas temporadas, para trazer jogador brasileiro. Tem ótimas universidades locais e vamos trabalhar, para a temporada que vem, estudantes universitários que jogam para caramba no Brasil e queriam passar dois anos em Wakefield para estudar college e jogar um ou dois anos para a gente. Quando crescer, aí trazer alguém que queira só jogar futebol".
Se deseja ter cada vez mais brasileiros no elenco, Guilherme Decca também responde à dúvida de muitos: por que não investir em um time do Brasil em vez de buscar um clube na Inglaterra? O empresário falou sobre a recém-novidade da SAF (Sociedade Anônima do Futebol), já utilizada por Botafogo, Cruzeiro e Vasco, e deu sua opinião sobre a mudança estrutural do futebol nacional.
"Olhando como investidor, os primeiros que foram feitos a gente acha que o valor e a estrutura nos preocupam um pouco. Não me cheira bem, se sou torcedor do Vasco fico preocupado. Qual a intenção real disso aí? É muito parecido com o Burnley. Claro que vão ter bons projetos, como o Red Bull, e bons clubes para se comprar, que vai ser a segunda fase. Já existem clubes mais preparados para esse tipo de negócio, caso do Ituano, do América-MG, que estão melhores estruturados, tem um custo muito mais razoável e, ao longo do tempo, se tiver um investidor com paciência de fazer um trabalho sério e esperar a estrutura do futebol brasileiro mudar, quem fizer uma aposta em um clube assim pode valer a pena. Mas hoje os primeiros me dão um pouco de medo. Eu, por exemplo, não faria".
"Cruzeiro é um caso diferente, apesar de já ter tido polêmica, mas ele (Ronaldo) já roda um time na Espanha, sabe fazer isso. Conheço o trabalho, Valladolid é um time que dá lucro, bem administrado e competente. Não posso falar do Botafogo e do Vasco em detalhes, mas a estrutura, especialmente do Vasco, é preocupante".
