Em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br, atacante revelou como o beach tennis o salvou de depressão após a morte da mãe, em 2020, e falou sobre os seus planos no esporte
Com passagem por alguns dos clubes mais tradicionais do futebol brasileiro, entre eles Corinthians, Fluminense e Atlético-MG, o atacante Rafael Moura viveu o momento mais delicado da sua vida em outubro de 2020. À época, ele perdeu a sua mãe, Junia Moura, aos 54 anos, que lutava contra um câncer, e não foi fácil seguir em frente. Depois disso, o jogador foi diagnosticado com depressão, uma doença silenciosa, mas encontrou forças para enfrentar o problema em outro esporte: o beach tennis.
Em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br, o jogador, que nos gramados ganhou o apelido de 'He-Man', por conta da semelhança com o personagem de desenho animado, falou sobre a nova paixão e como o esporte o ajudou a dar a volta por cima e superar uma doença tão séria. E o empenho no beach tennis é tão grande, que ele inclusive já traça algumas metas ousadas.
Segundo Rafael Moura, a relação com o esporte praticado nas areias teve início em 2013, em Arraial d'Ajuda e Porto Seguro, na Bahia, durante o período das férias. A relação com as raquetes, porém, começou bem antes, já que o atacante praticou outras modalidades como tênis e squash desde mais novo.
“O Beach tennis começa na minha vida em 2013, fui passar férias em Arraial d'Ajuda e Porto Seguro. Tinha uma barraca com uma quadra jogando, nunca tinha visto o esporte. Fominha e fanático que sou por outros esportes de raquete, já tinha jogado Padel, Squash e, há muito tempo desde moleque, praticava tênis. E deu jogo. Já saio dali com quatro raquetes, rede, marcação. Venho para Belo Horizonte, monto uma quadra em casa e começo a brincar", começou por dizer.
Após o primeiro contato, o atacante começou a se apaixonar de vez pelo esporte e a praticá-lo cada vez mais com mais afinco. E desde o ano passado, quando voltou ao Rio de Janeiro para atuar no Botafogo, Rafael começou a fazer planos de se tornar profissional. Para isso, o atleta precisou conciliar a prática com os treinos do Glorioso e tirou de letra, conseguindo até mesmo disputar competições a nível profissional.
"Sério mesmo tem dois momentos. Em 2017 e 2018. Quando começo a participar do torneio. Aqui em Belo Horizonte é uma febre, não só pós-pandemia, mas antes tinham torneios, praticantes. Ano passado quando vou para o Rio, da proximidade da minha casa com a areia, coincidentemente, amigos que fiz lá treinar, jogam e dão aula nas redes em frente para minha casa. Aí comecei a treinar mesmo. Ano passado que começou mais a sério essa questão de me tornar profissional. Sou muito fominha, mesmo com os treinos no Botafogo, estava treinando para chegar ao nível da galera”, prosseguiu.
“Sempre pratiquei outras modalidades jogando futebol. Adoro basquete, vôlei, já fui campeão mundial de bicicross na infância. Com o futebol, dedicação e profissionalismo que tinha, tomavam meu tempo. Em uma folga ou outra que eu praticava os esportes secundários. No Botafogo, como joguei pouco, estava mais descansado. Como foi minha primeira Série B, você tem quase todos os domingos livres, então isso me permitiu que eu jogasse todo domingo ou algumas etapas do Campeonato Carioca. Era no nosso dia de folga, conseguia conciliar. Um dado importante é que fisicamente me ajudou muito. Todos os parâmetros, gráficos físicos, eu tive melhorias depois que comecei a treinar o beach tennis. Esporte de explosão, força, agilidade na areia. Transmitindo para o campo, tive uma melhora significativa. Sem falar na questão mental. Depois que perdi a minha mãe, entrei em um processo de depressão. O Beach Tennis, a ocupação mental e novas amizades, papos e jogos, fizessem que eu retomasse o caminho da alegria e da leveza na minha vida”, concluiu.
Como o beach tennis 'salvou' Rafael Moura da depressão
Após perder a mãe, Rafael Moura teve o diagnóstico de depressão confirmado. E foi nas areias e com as raquetes que ele encontrou um ambiente de menor pressão do que no futebol. A prática, segundo ele, foi de extrema importância para que ele conseguisse se curar da doença e voltasse a sorrir depois de um momento tão difícil na vida.
“Depressão, você falar sobre isso sempre pareceu frescura. Nos últimos anos, com os estudos, estou vendo uma maior paciência e entendimento das pessoas. Não é simples o diagnóstico, não é simples você aceitar que está passando por isso. É uma doença como uma no coração, uma lesão muscular. Mas é no cérebro, ali te comanda, tira sua confiança, vontade de viver, alegria, autoestima. No meio do futebol eu tenho que agradecer a Goiás e Botafogo, clubes que passei pós-falecimento da minha mãe. Mas, só aquilo não me bastava. Passei 19 anos no meio do futebol. Cobrança, tem que matar um leão por dia. Um dia você é ídolo, no outro não é nada. Se você erra um gol, é o pior possível. As redes sociais têm sido massacrantes com os atletas. No meio do futebol, quando tem isso, seria difícil de eu ter uma retomada, mesmo sendo o futebol minha grande paixão.O beach tennis é mais leve. Odeio perder, sou mega competitivo. Xingo meu parceiro, o adversário, claro, com o fair play do esporte. As amizades, as brincadeiras, poder levar minhas filhas, minha esposa, minha mãe chegou a jogar o beach tennis. Conciliar essa galera toda, sem a pressão de ser ídolo, sem a pressão de ser o número um, artilheiro, de fazer três gols por partida, sem a cobrança de perder um jogo. Vou olhar minhas redes sociais sem ter ninguém acabando comigo", disse.
"O beach tennis veio para ajudar e tem ajudado muita gente. Eu tenho visto muitos atletas que trocam suas rotinas que também são massacrantes, pesadas de 15, 20 anos. Estou vendo gente da natação, vôlei, basquete. Todos migrando para o beach tennis. Ou você joga amador, profissional, e compete com pessoas do seu nível. Veio no meio de uma pandmeia, onde muita gente estava com problemas mentais, com medos, que perderam pessoas importantes, com aquele luto interno. Por ser um esporte ao ar livre, de brincadeira, com música, na praia. Mesmo que não seja na praia, é na areia. É gostoso, é um ambiente familiar, com amigos. Chega de manhã e fica até de tarde. Não tem necessidade de eu ir sozinho e minha esposa encher o saco (risos) que eu fui jogar uma ‘pelada’ ou algo que pratique sozinho. Então, o beach tennis veio para dar essa saúde, que é um esporte que todos praticam, e a saúde mental também”, prosseguiu.
'O Rafa tem melhorado a cada dia, é focado por conta do futebol'
Entre os amigos que fez nas areias, está Bernardo Machado, de 23 anos, que é professor de beach tennis e também compete profissionalmente. Torcedor fanático do Fluminense, clube pelo qual Rafael Moura foi campeão da Copa do Brasil (2007), Carioca (2012) e Brasileirão (2012), ele teve a oportunidade de conhecer um dos seus ídolos do futebol e garante: além dos gramados, o atacante também tem qualidade com a raquete.
“Quando conheci o Rafa, não me dei conta que era o Rafael Moura. Para mim, era uma pessoa que ia bater bola. Três dias depois que fui me ligar: ‘Caraca, bati bola com o Rafael Moura’. São coisas que a gente não imagina. Virar amigo de um jogador de futebol, gritava o nome dele no Maracanã. Foi uma felicidade muito grande. Hoje, virou normal. Há um tempo atrás, eu diria que era uma surpresa conhece-lo. O Rafa tem melhorado a cada dia, é focado por conta do futebol. Determinação absurda. Ele pega no meu pé, porque eu sou zero de físico, já na técnica do Beach Tennis, eu pego no dele. Eu ajudo ele na técnica, ele me ajuda no físico. Porque físico na areia é complicado", disse Bernardo.
Rafael Moura inclusive gosta de passar despercebido nas areias, mas Bernardo, segundo ele, adora fazê-lo 'passar vergonha' ao gritar o seu nome durante as partidas. E mesmo usando boné para se 'esconder'.
"Bê gosta de testar minha idolatria. Quando eu passo despercebido, porque uso boné, fico de cabeça baixa. Sou zero perfil de boleiro, é meu perfil. Eu fico escondido o tempo inteiro, a gente tem diversas histórias bacanas disso. Quando estou desapercebido e tem mais gente olhando, a cada ponto meu o Bernardo grita: ‘Isso, Rafael Moura’. Aí todo mundo fica querendo ver. Isso não é muito legal, gosto quando estou de short, sem camisa. Ele me sacaneia, dei muita intimidade para ele pela nossa amizade (risos)”, revelou o 'He-Man'.
“Teve uma época, em dezembro, virou até amigo nosso. O 12º do mundo, Doriano Beccaccioli. Estávamos treinando nós três, a Joana Cortez, campeã pan-americana de tênis. Estávamos jogando, vem uma pessoa pedindo tirar foto com o Rafael Moura, aí o italiano: ‘Por que não vai tirar uma foto comigo?’. Aí falamos para ele: ‘Ele que é o famoso aqui'... Ele não sabia que eu era atleta de futebol. Ele falou: ‘Fui 6,7 do mundo e estão batendo foto com esse cara que eu nunca vi na vida?’”, completou.
'Sonho em ser 100 do mundo'
Em relação às metas que tem dentro do próprio beach tennis, Rafael Moura revelou que está empenhado em fazer bonito nas areias. Aos 38 anos, ele ainda não se aposentou oficialmente dos gramados e busca um clube para poder encerrar a carreira, mas enquanto não pinta uma proposta interessante, se dedica à sua nova paixão.
"Estão tentando me aposentar, esta é a verdade (risos). Pela idade e algumas propostas ruins, eu tenho avaliado algumas e nada ainda tão interessante. Eu gostaria muito de jogar este último ano ainda, pensando no futebol, e enquanto isso, enquanto não não pinta nada, eu estou me dedicando full time ao beach tennis, realmente. Isso está muito claro para mim, eu não preciso falar que eu aposentei para jogar beach tennis. Eu posso ainda fechar contrato com algum clube, vou diminuir a carga de treinamento e algumas participações em torneios de beach tennis, mas o beach tennis está dentro de mim. O beach é viciante, virou negócio agora para mim também", disse.
"Nada me impede de jogar futebol, eu falo que, futuramente, talvez o esporte que eu pratique seja o beach tennis, mas o futebol ainda vai ser minha profissão. Estou fazendo cursos de gestão, de treinador, eu tenho um perfil de liderança muito grande, por onde passei eu fui campeão e sempre me envolvi com partes administrativas, partes diretivas de clube para resolver algumas coisas mais sérias. É o que eu penso, em um futuro não tão distante, mesmo que eu continue praticando, eu quero ser profissional, realmente, quero ter este ranking, sonho em ser, sei lá, 100 do mundo. Nada me impede de sonhar, vou treinar para caramba, me dedicar para isso, mas ainda pela minha vivência, experiência no futebol, eu estou abrindo um leque de conhecimentos e mercado para eu poder analisar o que eu quero fazer no futuro", prosseguiu, falando ainda como gostaria de encerrar a carreira.
"Tem dois momentos da minha vida que eu já pensei em encerrar (a carreira). Um em 2017, que eu volto para o Atlético-MG e eu pensei que ficaria dois, três anos e encerraria no Atlético, que é onde eu tenho identificação, é a minha cidade e tudo. Depois, quando eu vou para o Goiás, por eu ser um dos grandes nomes da história lá, também penso que seria o momento de encerrar lá, por toda a história, por tudo o que eu fiz e tudo, mas o meu físico está me permitindo ir mais longe do que realmente talvez estas pessoas acreditam. Se fosse para eu escolher, se fosse para somente um jogo de despedida, seria ou no Atlético ou no Goiás, para encerrar e encerrou de vez. Mas se pintar alguma coisa de Série A que seja interessante, eu gostaria de poder analisar esta proposta. Falo isso por quê? Minha única Série B foi no ano passado, era muito diferente porque era um clube que já tinha me feito três propostas, e eu com a doença da minha mãe eu não conseguia aceitar ou não conseguia sair do clube aonde eu estava, com um contrato longo, aí eu aceitei o Botafogo com muita certeza de que a gente poderia ser realmente campeão. Parece loucura porque, quando eu chego no clube, o Botafogo não era cotado de jeito nenhum para ser, nem para os quatro que subiriam, muito menos o título, mas eu acreditava. Acabou que a gente foi campeão, então a minha única Série B, mesmo eu participando um pouco, eu fui campeão da Série B. Eu gostaria realmente que fosse, para encerrar uma carreira bacana que eu tive e tudo, que seja em algum clube da Série A", complementou.
Por último, Rafael Moura também citou alguns dos seus ex-companheiros nos gramados que também 'brincam' no beach tennis. E são nomes bem conhecidos, assim como o dele.
“Aqui em casa, quando eles estavam aqui no Cruzeiro, Fred e Thiago Neves brincavam aqui em casa. Quando ele vai para Recife, para o Sport, ele passou a jogar mais. O Amoroso tem jogado muito bem, se não me engano, está em 2º ou 3º do quadro 40+ em Campinas. O Tinga joga em Porto Alegre. Levei a galera do Botafogo para a praia. Eu fico incentivando todo mundo para eles terem essa visão de praticar alguma coisa e sair da rotina de futebol, se divertir um pouco nas horas vagas e que não deixa de ser um físico também. E todos competitivos. Ninguém quer perder. Existem outros atletas, até de outras modalidades, que estão vendo o beach tennis com bons olhos, vai ser uma tendêcia. Aqui em Belo Horizonte, o Réver tem jogado, tem brincado. Tem gente que brinca em off porque tem medo da represália do clube. Ninguém é meio maluco igual a mim, que deixei escancarado para todo mundo que adorava. Querendo ou não, gostava da responsabilidade de ter que resolver em campo. Se eu fico em casa dormindo, jogando videogame, assistindo filme. Se tem uns que saem para a balada, que eu não gosto, dentro de campo tem que resolver da mesma maneira. Praticando esporte ou não, eles vão me xingar ou me elogiar da mesma maneira. Então, prefiro fazer os outros esportes e ser o mais profissional possível dentro dos clubes", finalizou.
