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Do lava-jato em Veranópolis a ídolo do Corinthians: mãe de Cássio emociona em carta à ESPN sobre lutas do filho

Mãe do goleiro Cássio relata momentos difíceis na criação dos filhos e a luta do goleiro até se tornar ídolo do Corinthians


Você não deve saber (e nem precisaria mesmo), mas hoje é meu aniversário. Eu lembro que dez anos atrás o meu telefone tocou já tarde da noite, e com um presente que nunca esqueci. Meu filho, Cássio, tinha feito a primeira partida pelo Corinthians. Nós em Veranópolis, ele lá em São Paulo, no Pacaembu. Essa carta que você está lendo começou naquele 28 de março.

Você que está lendo isso não me conhece. Mas, se gosta de futebol, deve conhecer meu filho. Eu sou muito orgulhosa de ter um filho jogador, um goleiro. E comentei aqui em casa outro dia que só agora está caindo a ficha.

Mas já que você conhece o goleiro Cássio, eu vou te contar quem é meu filho.

A infância dele não foi fácil aqui em Veranópolis. São três irmãos: o Cássio, a Taís e o Eduardo. Eu era empregada doméstica e sempre trabalhei para botar comida na mesa. O Cássio primeiro ia para creche, depois começou a estudar. Chegava do colégio com os irmãos, faziam o almoço e depois ele ia trabalhar na lavagem de carros com o Kojak, meu irmão.

Nós éramos em quatro em casa. Não foi fácil ser mãe solo, mas eu sabia que tinha três filhos e que tinha que dar o que comer para eles. Colégio, educação, roupas. O que pude dar, eu dei. Mas não foi fácil. Quando era para buscar o boletim, que tinha que ser o pai, ou quando tinha algum tipo de homenagem para o pai na escola, eu tive vergonha nas primeiras vezes.

'Eu sou pai e mãe. Eu tenho que participar'.

Daí eu comecei a participar, a ir nas reuniões que eram para pai e mãe. A maioria das pessoas já sabia que eu era mãe solteira, que tinha três filhos. Então, eu ia. Perdi a vergonha, comecei a ir em festinha, buscar o boletim deles no colégio.

Ele sempre trabalhou, eu também. Eu só tinha o final de semana para ficar com eles em casa. A gente não tinha muitas condições, mas sempre fazia alguma coisa com eles porque só tinha o sábado e domingo com eles.

Quando tinha um tempo livre, o Cássio estava sempre perto da bola. Tinha um campinho aqui em cima da nossa casa onde ele se reunia com os guris. Ele chegava em casa irreconhecível. A roupa...

Ele gostava de jogar futebol, mas não dizia que seria goleiro. Achei que ele jogasse na linha, como atacante. 'Cássio, não sabia que tu era goleiro'. Ele disse: 'Me botaram e eu gostei'.

Todas as dificuldades dessa época foram um motivo a mais para a união da nossa família. A gente sempre foi muito unido. A minha família, minha mãe, meu pai, minhas irmãs, meus irmãos, eu sempre tive ajuda deles e eles nunca me viraram as costas para nada. Quando eu não tinha, eles me ajudavam bastante.

Quando o Cássio foi jogar no Grêmio, lá em Porto Alegre, minhas irmãs me ajudavam com o que tinham para pagar passagem para ele ir e voltar. Ele ficou na casa de uma prima lá e até hoje a gente é assim. Eu devo obrigação para ela porque ajudou muito meu filho. Deu casa para morar, o que ela dava para os filhos dela, dava também para o Cássio.

Me orgulho de ele ter conseguido chegar onde chegou. Era muito novo. Eu sofri, o Eduardo e a Tais sofreram junto comigo. A gente chorava. Nós nunca tínhamos no separado, sempre fomos os quatro unidos, com a família sempre do nosso lado nos ajudando. Não foi fácil.

Uma vez, onde trabalhava, a minha patroa fez uma sacola com coisas. Ele estava no Grêmio. Ela colocou xampu, condicionador, sabonete, o que ela conseguiu colocar naquela sacola, e nós mandamos para ele em Porto Alegre. Lá ele não ganhava nada, ele estava só jogando.

E a minha ficha começou a cair quando ele foi para Porto Alegre. Eu chorava muito, de alegria e de tristeza, porque eu sabia que ia chegar em casa do serviço e o Cássio estaria lá. Tinha o Eduardo e a Tais comigo. Mas quando eu ia descendo o morro para chegar em casa, começava a chorar porque sabia que ele não estaria aqui.

Eu sabia que ele estava bem, fazendo uma coisa que gostava. Sempre dizia para ele: 'Cássio, tu não é obrigado a ficar se não quiser'. Mas ao mesmo tempo eu pensava: 'Ele tem que ficar porque ele gosta e é a carreira dele'. No início não foi fácil para nós, mas depois acostumamos.

Eu não tinha como comprar um par de luvas ou uma chuteira para ele naquela época. Ou eu deixava faltar comida em casa ou eu comprava as coisas. Não vou dizer que foi fácil, foi bem difícil com os três, porque eu tinha que botar comida dentro de casa.

Eu ainda tenho guardados todos os jornais dessa época. Quando ele saia no Zero Hora...tenho tudo guardado. Veranópolis fica a duas horas e meia de Porto Alegre. E essa distância não foi fácil.

Ele ficava muito triste quando não jogava. Eu lembro de uma vez, no Grêmio, que o Cássio me falou que estava com vontade de largar tudo e vir embora. E sabe qual foi minha resposta? 'Meu filho, pensa bem. Olha a oportunidade que você teve para estar onde você está'.

Eu fiz uma promessa para Santa Rita de Cássia, e vou lá todo dia 22 de maio. A promessa era que meu filho continuasse no Grêmio. E graças a Deus ela me escutou. E eu pago a minha promessa até hoje.

O Cássio sempre foi um guri tímido, quieitinho. Ficava no canto dele assistindo TV, o futebol com os irmãos. Ele não era de sair, ficava em casa. Eu me preocupava bastante porque ele era muito quieto. Ele aprendeu bastante coisa depois que foi para fora, para a Holanda. Ele amadureceu bastante lá.

E você sabe que esse jeito tímido até ajudou quando ele não podia contar que estava voltando para o Brasil?

Eu estava escutando uma conversa que o Cássio estava vindo para um clube grande do Brasil. A gente tem uma pastora, a Gi, e a gente conversa com ela quando a gente precisa de oração. Eu lembro que ela me chamou e falou: 'O Cássio está vindo para um time grande e o salário dele vai ser muito bom'.

Fiquei com aquilo encucado na cabeça, mas não falei nada para ele. Quando ele estava vindo, só disse que estava vindo embora da Holanda para ir para um time, mas que ele não podia me falar porque ele tinha um contrato. Teve bolão na família para adivinhar o tal time. Mas eu queria saber da boca dele.

Até que um dia, a gente estava voltando de um sítio e o carro do meu tio quebrou no caminho. O Cássio estava escutando futebol pelo rádio, e lembro dele falando que o Corinthians tinha ganhado. Mas não caiu a ficha.

Naquele dia o Corinthians tinha sido campeão brasileiro. Era dezembro de 2011.

Quando a gente chegou em casa ele me contou. 'Ciana, vou jogar no Corinthians'. Eu comecei a gritar, berrar, porque sabia que ele estaria mais perto de nós. Foi uma festa. Aliás, é assim que ele me chama: Ciana.

Ele não teve convivência com o pai dele. Eu fui mãe e pai. Mas ele nunca me jogou na cara, do pai dele não ter contato. O meu pai, que era avô dele, ele chamava de pai. A minha mãe, ele chamava de mãe. E a mim, ele continua me chamando de Ciana. Às vezes, ele me chama de mãe, mas geralmente me chama pelo meu nome.

Como eu te contei lá no começo, foi em um 28 de março que ele estreou pelo Corinthians. O dia do meu aniversário. Lembro que naquele dia ele me ligou, desejou feliz aniversário. Aquela coisa que um filho fala para a mãe.

Até hoje eu fico toda arrepiada quando vejo a torcida gritando o nome dele. Vem um ou outro dizer: 'A senhora é mãe do Cássio? Ele é um grande goleiro'. Eu fico muito emocionada com tudo isso e agradeço a torcida que ama o meu filho que nem eu amo ele.

Você que está lendo essa carta: lembra daquela Libertadores que o Corinthians ganhou? Então deixa eu te contar outra história sobre a nossa família.

A minha casa era pequena para a gente assistir futebol. Toda quarta-feira tinha Libertadores. Nessa sala aqui não tinha lugar para sentar. Cada um aqui tinha o seu lugar específico. Minha mãe, amigos, todos nos reunidos aqui em casa para ver os jogos. Quando tinha um gol, a casa vinha abaixo. A gente nem se importava com vizinhos, não estávamos nem aí com nada.

Eu lembro bem do jogo da final da Libertadores.

Naquele dia nós ficamos aqui em casa, eu e minha irmã. Eu deixei a porta aberta e sentei no meu lugar. E ela foi para o dela. Bom...aí começou a chegar gente, e mais gente. Foi um jogo emocionante, eu chorei muito. Orei, rezei, fiz tudo o que tinha direito.

Eu jamais vou esquecer: coloquei água na boca para escovar os dentes e depois jejuei até o fim do jogo. Passei o dia sem colocar mais nada na boca.

E depois da final do Mundial então?

Depois que terminou aquele jogo, eu não tive mais sossego até o fim da tarde. Era repórter, televisão, gente chegando, muitas ligações. Nós fizemos uma passeata. Não sabia se olhava a televisão, se atendia o telefone, não sabia o que eu fazia. Assim...bem fora da casinha. Eu estava muito alegre, chorei muito. Foi maravilhoso.

Mas você deve imaginar como é ser mãe de goleiro. E vou te confessar outra coisa: eu nem vejo os comentários quando ele perde. Para não ficar triste, eu nem olho.

Eu já fui em um jogo no Rio de Janeiro que a torcida do Flamengo vaiou o Cássio. E eu tive que ficar quieta, né? Sem poder falar nada. Eles xingando muito o meu filho, chamando de ‘mão de alface’ e um monte de coisa. Mas eu fico muito orgulhosa quando eu vou para o jogo e a torcida grita o nome dele. Meu Deus, é uma emoção muito grande.

Lembra que eu te prometi contar quem era o Cássio fora do futebol, quem era o meu filho? Então deixa eu contar quem é o pai de família.

Eu pensava: 'Será que o Cássio vai ter paciência?'. Quando o Felipe nasceu, eu me surpreendi. Com o Felipe e com a Maria Luiza. O carinho dele com os dois, nossa. Me surpreendi. O Cássio é um paizão. Qualquer coisa que acontece ele quer resolver, quer saber como está. Ele é um paizão para todo mundo. Digo que até para mim.

Quando o Cássio vem de férias, a gente se reúne e o pessoal só vai para casa para dormir. A gente faz tudo com a família toda junta aqui. E ele sempre quer dar atenção. A gente toma um chimarrão, conversa, e ele não fica só mexendo no celular. Ele dar atenção para nós.

E os amigos também. Poucos são os que ele recebe aqui em casa. Os guris até ligam quando ele está aqui, com os três amigos de infância: o Géio, o Cássio e o Douglas. Era com eles que o meu filho saia para tomar um refri e comer um sanduíche.

Eu quero falar para você, que está lendo esse texto, que eu tenho muito orgulho de ser mãe do Cássio. E eu não sei quando ele vai parar de jogar futebol, nem o que ele vai fazer depois que parar.

Quando teve a pandemia, a Janara, esposa do Cássio, me mandava as fotos dele triste porque queria jogar. Ela me dizia: 'Eu morro de pena do teu filho'. Por mais que a gente queira que ele esteja perto de nós, acho que nem eu estou preparada para ver o meu filho parando de jogar futebol.

Essa era a história que eu queria te contar, do Cássio além do futebol. Eu, Ciana, queria poder te falar do meu filho.

Eu sou muito orgulhosa de ter um filho jogador de futebol, goleiro do Corinthians.


*Em depoimento a Yasmin Torres e João Felippe França