Obrigado, Arsenal.
Estive triste, decepcionado, mas não estou mais. Só quero agradecer mesmo. Não imaginava que o futebol ainda pudesse me emocionar!
Chegar ao estádio para lá de ansioso, um frio na barriga vendo os times entrarem em campo. Gritar em um pub lotado em defesa de Ramsdale. Ficar arrepiado assistindo ao vivo à jogada de Martinelli. Pular comemorando virada no último lance, abraçando um desconhecido após golaço de Bukayo Saka.
E chorar com uma carta do pai torcendo do outro lado do oceano. Achava que tudo isso, com o passar da idade, tinha acabado. A paixão da juventude nunca mais seria igual. Talvez pensava assim porque torcer para o Arsenal foi muito triste nos últimos anos. Além dos pífios resultados, o novo estádio, sem alma e sem história, carregava um clima frio e distante. E não foi sem razão que ganhou dos rivais o apelido de biblioteca. Era deprimente assistir a jogos no Emirates. Torcer para o Arsenal era mais um reflexo dos tempos de uma sociedade dividida. Em vez de unir as pessoas, ser um escape do dia a dia, brigas e reclamações. As rixas da turma “Wenger fora” e “Wenger fica” tornaram o ambiente pesado e tóxico. Nas redes sociais, muitas agressões e xingamentos. Mas isso tudo mudou!
Londres é um lugar frio, no clima e no contato humano. No geral as pessoas pouco se falam na rua. De uns tempos para cá, em dia de jogo, caminhando pelo bairro próximo ao estádio, senti que algo especial estava acontecendo. Um som feliz ecoava dos pubs lotados. Cantos na rua eram puxados por estranhos. Trocas de sorrisos no metrô.
Este Arsenal é diferente!
O jovem basco Mikel Arteta resgatou a identidade perdida. Conseguiu a proeza de fazer o time jovem jogar bonito e com raça. E assim, aos poucos, foi criando forte conexão entre os jogadores e a torcida. Um elo que havia se perdido. Trouxe de volta algo que eu e muitos outros não achávamos que ainda existia dentro de nós: a paixão de torcer orgulhosamente pelos Gunners.
Os anos amargos estão tornando este ainda mais doce. Sem as temporadas ruins, certamente essa não seria tão saborosa. Lembra de alguma forma quando Arsene Wenger chegou em 1996. O Arsenal não ganhava nada fazia anos e ficou conhecido por jogar um futebol bisonho: defesa sólida e chutão para frente. Quando vencia, era por um a zero. “One nil to the Arsenal” (canto clássico de Highbury) Tinha 20 anos em 1998, quando Wenger venceu seu primeiro título. Fui para as ruas e comemorei como se fosse Carnaval. O que vivemos ali foi contagiante e inesquecível.
Aqueles craques conquistaram não só a Inglaterra, mas os amantes de futebol em todo o planeta. Na temporada do double, FA Cup e Liga, em 2002, assistia a todos os jogos nos pubs perto do estádio, em Highbury. Lembro até hoje as músicas cantadas para cada jogador.
Vieeeeera, oooo… he comes from Senegal, he plays for Arsenal. We love you Freddy, because you’ve got red hair… There’s only one Dennis Bergkamp… Arsene Wenger is magic, he wears a magic hat, and when he saw the double, he said I’m having that!
A temporada invicta em 2004 foi o ápice. Tínhamos tremendo orgulho de competir gastando menos que os rivais, lapidando jovens como Cesc Fàbregas. Mas veio a derrota da final da Champions em 2006 e ali o fim de uma era. Os melhores jogadores foram para rivais para ganhar mais dinheiro e mais títulos: Ashley Cole para o Chelsea, Van Persie para o Manchester United, Adebayor para o City, entre outros. Ficamos presos em lampejos de sucesso com copas e classificação para Champions.
A sensação era que nunca mais conseguiríamos competir pelo título. A construção do novo estádio apertou ainda mais os cofres do clube justamente diante da nova realidade que surgiu na Premier League: o dinheiro absurdo investido nos poderosos Chelsea, United e, logo depois, Manchester City. O sucesso atual, ainda diante dessas circunstâncias, é um ingrediente especial nesta temporada no Arsenal. Jogando um futebol que dá gosto de ver, com o time mais jovem da competição e gastando menos que os rivais mais ricos.
Para se ter uma ideia, vamos olhar os ataques de alguns times principais:
Arsenal: Saka, Martinelli, Odegaard, Gabriel Jesus – 81 milhões de libras
United: Rashford, Antony, Sancho e Werghost – 156 milhões de libras
Liverpool: Núñez, Gapko, Luis Díaz e Salah – 190 milhões de libras
City: Haaland, Alvarez, Grealish e Bernardo – 208 milhões de libras
Chelsea: Havertz, João Felix, Mudryk e Sterling – 210 milhões de libras
Arteta!
"We've got super Mik Arteta! He knows exactly what we need!"
Acho o técnico de San Sebastian um cara estranho, muito sério. Meio robótico. Tinha minhas dúvidas se daria certo, era o seu primeiro clube como técnico. No início da série All or Nothing, gravada durante a temporada passada, era constrangedor ver algumas preleções do técnico.
Mas também comecei a ver a dedicação insaciável e o impacto positivo na atitude dos jogadores e a maneira de jogar. Liderança, disciplina e seriedade eram o norte do projeto idealizado por ele e pelo gerente Edu Gaspar. Tiveram tempo e apoio para remontar o time e mudar a estrutura de futebol do clube. Tomaram decisões corajosas como disciplinar e liberar o então capitão Aubameyang. Edu, que eu entrevistava como jogador no Arsenal, merece crédito. Fez dezenas de transações para limpar o elenco e trouxe novos jogadores. Passou por momentos turbulentos, sofreu críticas, mas aguentou firme ao lado de Arteta. Torcia para dar certo, mas tinha dúvidas se iria vingar.
Os resultados são indiscutíveis. As coisas foram se encaixando de forma assustadora.
“He comes from São Paulo, He plays for the Arsenal”.
A série de bastidores ajudou a torcida a se identificar com os jogadores, a conhecer melhor a personalidade de cada um e a sentir a seriedade do elenco que tinha a missão de fazer o Arsenal brilhar de novo. Fizeram as pazes com Xhaka após ver sua dedicação. Se apaixonaram ainda mais pela simplicidade de Saka e Emile Smith Rowe, emocionados por jogar pelo clube de infância. Se derreteram ainda mais por Martinelli, joia extraída do Ituano, mas que consideram quase uma cria da casa, por ter chegado ao clube com apenas 18 anos.
"North London forever Whatever the weather, these streets are our own And my heart will leave you never My blood will forever run through the stone"
Após um movimento nas redes sociais, a composição Angel, do músico local Luis Dunford, chegou aos ouvidos de Arteta. O técnico procurava uma nova música para tocar no estádio com o time entrando em campo. E, após a aprovação dos jogadores, o clube a introduziu no lugar de uma velha canção de Elvis (The Wonder of You) que nunca empolgou. O coro “North London Forever”, cantado pelos torcedores a plenos pulmões, vingou – e como! Angel retrata a vida nas ruas do bairro. Mudanças acontecendo, gentrificação no meio de problemas sociais. A música descreve que a vizinhança vai mudando, mas as pessoas continuam ali frequentando os mesmos pubs, o mesmo clube.
O Arsenal foi de Highbury para o Emirates, que fica ao lado, ainda em Islington no norte de Londres. Eu cheguei à região em setembro de 1988.
Minha primeira lembrança do futebol inglês foi o incrível título do Arsenal poucos meses depois, decidido no último jogo da temporada, contra o Liverpool, em Anfield. Ali conheci o Arsenal!
O menino de 11 anos de idade teve orgulho do time do bairro ser campeão. Gostei da euforia e da comemoração na escola e, aos poucos, fui adotando os Gunners como algo meu. A conquista me ajudou a sentir que podia viver numa boa ali bem distante da minha terra. O futebol, ou melhor o Arsenal, fincou os meus pés na fria, cinzenta e querida Londres. 34 anos depois, com cidadania inglesa, mas eternamente saudoso do meu país, aqui estou, andando pelas mesmas vielas de sempre, inesperadamente emocionado mais uma vez. Não imaginava que isso fosse acontecer. O título não veio, mas não faz mal, o meu Arsenal voltou.
Valeu, Gunners!
