Nesta sexta-feira, 1º de maio de 2020, completam-se 26 anos da morte de Ayrton Senna, tricampeão da Fórmula 1, em acidente no GP de San Marino.
Último brasileiro a ganhar a principal categoria do automobilismo, o ex-piloto de Toleman, Lotus, McLaren e Williams teve parte de sua vida retratada por Adriane Yamin, sua namorada entre 1984 e 1988, na biografia “Minha Garota”, lançada de forma independente no final de 2019.
A empresária - herdeira da Hydra Corona - começou o romance com Senna aos 15 anos e esteve presente na vida do piloto até seu primeiro título mundial, quando logo depois romperam.
No livro, ela conta o início da "paquera", as dificuldades por ser adolescente para aceitar o namoro à distância, a relação entre as famílias além dos altos e baixos do relacionamento quase secreto com Beco, como era chamado por amigos e familiares.
Adriane Yamin também dá detalhes de casos envolvendo a F1, como a paralisia facil que quase o fez parar de correr, a briga com Nelson Piquet, a ideia de pegar a bandeira do Brasil para comemorar e o título em 1988.
Leia abaixo cinco dessas histórias da biografia "Minha Garota".
PARALISIA DE BELL
Em dezembro de 1984, quando se conheceram, Senna tinha acabado de descobrir que sofria da Paralisia de Bell, o que lhe deixou com o lado direito do rosto paralisado. Adriane, junto com seus primos, perguntaram se isso o impediria de correr.
"Não, vou poder sim. No começo não sabíamos o que causou a paralisia ou se era reversível. Tive de consultar diversos médicos até descobrir. Tive uma inflamação num tipo de tubinho, na lateral direita da cabeça - disse, tocando o local com a mão -, que comprimiu onde passam os três principais nervos, chamados trigêmeos, que comandam os músculos da face, causando a paralisia", disse o piloto.
Questionado se era reversível, o então futuro piloto da Lotus respondeu: "Graças a Deus, é! Por isso, vou poder voltar às corridas. A equipe que estava me contratando não queria fechar contrato enquanto não tivesse o laudo comprovando minhas condições para pilotar".
A PRIMEIRA VITÓRIA
“Beco, além de bater o recorde da pista (Estoril), ganhou o Grande Prêmio em Portugal”, escreveu Adriane em seu diário no dia 21 de abril de 1985.
“Depois de subir ao pódio, Beco deu uma entrevista, emocionado, para o Reginaldo Leme, agradecendo a todos que o apoiaram e lhe deram estrutura para chegar até ali: pais, irmãos, empresário e a ‘minha garota’", contou a empresária.
Depois, ela recebeu uma ligação de Senna: "Dridrica, eu estou ligando para que você não tenha dúvida, apesar de você não me dar bola - riu sua risada pausada 0, de que foi pra você que eu dediquei minha primeira vitória, juntamente com a minha família... 'Minha garota' muito especial e que já é importante na minha vida.
MEDO DA MULTA
Dias antes do GP do Brasil, que abriria a temporada 1986 da F1, Senna estava com Adriana na fazenda da família dela em Porto Feliz quando se acidentou.
“Vi o Beco escorregando a traseira da moto para a esquerda e tombando para a direita numa queda, tudo muito rápido”, recorda a empresária.
"Tô bem, sim, mas bati meu braço e acho que machuquei", disse Ayrton, que teve o braço enfaixado e precisou ficar com uma tipoia.
"Ayrton! Você deveria ir a São Paulo para tirar uma chapa desse braço", disse o patriarca Amilcar Yamin. "Não, seu Amilca!", respondeu o piloto.
"Tenho certeza de que não é nada grave, só estou preocupado se estarei bom em tempo suficiente para a corrida no Rio. Se eu não puder correr, vou ter que pagar uma multa monstruosa porque me machuquei andando de moto; sou contratualmente proibido de andar de moto e, pior, impedido de pilotar machucando".
No final, era apenas uma luxação.
VITÓRIA E BANDEIRA DO BRASIL
Adriane Yamin revela que seu pai foi quem sugeriu a Ayrton para carregar uma bandeira do Brasil pela pista após uma vitória.
A hoje imortalizada cena aconteceu de forma inédita no GP dos EUA, em Detroit, no dia 22 de junho de 1986.
“Pela primeira vez, ele parou no trajeto de volta da comemoração para pegar a bandeira do Brasil de um torcedor. O Brasil explodiu de alegria, enquanto eu tive o privilégio de saber de onde vinha a motivação dele em tomar tal atitude. Nós estávamos na fazenda assistindo à corrida e eu disse, surpresa:
- Pai! Olha lá, ele pegou a bandeira!
Alguns dos que assistiam à cena com a gente, naquele dia, também estiveram presentes durante a conversa entre ele e o Ayrton sobre pegar a bandeira do torcedor na hora da comemoração da vitória. E o “poderoso chefão”, Sr. Amilcar, começou a chorar silenciosamente, comovido com a alegria que o gesto do Beco trazia aos milhares de brasileiros que estariam assistindo renascer o orgulho de ser brasileiro.
FUTURO HONDA
“O Ayrton já estava em contato com o pessoal da Honda para trazer o motor para a Lotus no próximo ano. Ele tinha revelado em uma conversa a sós, na fazenda, que recebera uma proposta da McLaren para correr em 87. Mas preferiu apostar no motor Honda e lembro que eu falei:
- Mas, Beco, por que você não vai pra McLaren, que já tem um carro e uma equipe de ponta?
Ele explicou que faltava na Lotus um motor que aguentasse a corrida e que realmente acreditava no motor Honda, porque o carro da Lotus era bom e estaria ainda melhor no ano seguinte com as novas tecnologias que seriam implantadas. Além disso, explicou que se fosse para a McLaren, seria novamente o segundo piloto, então preferia ficar na Lotus como primeiro piloto, e que se conseguisse trazer o motor Honda, seria só ir atrás do título. Mas, obviamente, a McLaren não deve ter feito uma proposta em valores que a Lotus não pudesse cobrir naquele ano".
BRIGA COM PIQUET
Na opinião de Adriane, "Piquet vinha perdendo a atenção da mídia brasileira para seu compatriota mais jovem e isso pode ter motivado os seus ataques ao Senna. Já havia algum tempo, desde 1986, Piquet desferia ataques ao Beco porque engatara um namoro sério com Katherine, com quem o Ayrton tivera um pequeno affair em 1984".
"Piquet atacou, de maneira imprudente, e levantou dúvidas sobre a sexualidade do Beco publicamente. Mas como diz a sabedoria popular: 'quem dizer o que não deve, escuta o que não quer'. E teve de escutar junto aos quatro cantos do planeta uma merecida e justa resposta: 'Diga ao Piquet para perguntar pra namorada dele, porque eu já a conheci como mulher!'", escreveu a empresária.
O jornalista Reginaldo Leme, que cobriu a F1 por mais de 40 anos na TV Globo, era amigo de ambos os pilotos e relatou à biografia: “Sei exatamente o que aconteceu porque assisti a tudo".
"O Piquet tinha uma roda de ‘amigos’, e entre eles alguns bem do tipo puxa-saco. Eu era amigo dos dois e quando, por acaso, ouvia um falar do outro, não deixava o outro saber, botava panos quentes. Mas esses ‘amigos’ do Piquet agiram ao contrário - por ética, não vou citar nomes. A situação tomou uma proporção absurda justamente por que esses ‘amigos’ foram cochichar com o Nelson: Olha, o cara acabou de falar isso sobre você.
Quanto ao agravamento da crise entre o Ayrton e o Nelson, sei que alguns desses ‘amigos’ do Piquet estavam no autódromo, em Jacarepaguá, assistindo a uma entrevista do Ayrton, quando o Eloir Maciel, repórter do JB (extinto Jornal do Brasil), perguntou a este: 'Por que você andou desaparecido?' E ele cutucou o Piquet com vara curta: 'Ah! Eu andei desaparecido para ver se vocês davam atenção ao campeão, porque vocês só dão atenção pra mim (Piquet era o campeão na época)'.
Quando o Eloir foi falar com Piquet, esses ‘amigos’ já tinham contado tudo para ele, mas à maneira deles, e deu no que deu”
PRIMEIRO TÍTULO
Em 1988, já na McLaren, Ayrton já não era mais o mesmo, segundo Adriane Yamin, e as brigas eram mais constantes, a ponto de ela pedir um tempo e ele pegar um avião da Europa para o Brasil querendo manter o relacionamento.
Na etapa do Japão, porém, a história mudou...
"Mais uma vez ele não me ligou antes desse GP... Essa situação entre nós ficou estranha até o dia em que o Ayrton venceu o campeonato. Ali, muito emocionado, novamente ele agradeceu o apoio de sua família e também o meu, numa entrevista concedida ao Reginaldo Leme, que relembra esse momento.
'Foi uma entrevista muito longa. Ele tinha vencido pela primeira vez na F1. E estava falando sobre uma série de coisas da corrida, principalmente, mas também sobre a vida dele. Aí perguntaram para ele a quem estava dedicando a corrida. Ele tornou a dizer: À minha garota! Mas quem é ‘minha garota’, todo mundo perguntava a ele. Mas o Ayrton foi categórico: 'Não posso dizer, vocês vão saber um dia'. Essa entrevista foi feita no autódromo”.
XUXA
Após o título, em dezembro de 1988, Senna se encontrou com Adriane e pediu um tempo, mas a empresária decidiu encerrar o namoro. Ela havia lido sobre os boatos de um relacionamento entre ele e Xuxa, apresentadora mais reconhecida do Brasil.
"No dia da exibição do especial de Natal do programa de TV, cuja gravação eu sabia que fora realizada antes dele me pedir um tempo - antes do dia em que o Beco foi em casa falar comigo usando óculos de sol -, achei que ele e ela tinham passado dos limites e mostraram para todo mundo o que estava 'rolando entre eles'. Então entendi o motivo dele estar usando lentes dentro da minha casa: aqueles óculos eram de vergonha do que ele estava fazendo comigo!
A notícia sobre o relacionamento dos dois caiu como uma bomba, virou notícia pelo Brasil. E aqui só se ouvia falar nisso, principalmente depois, no início de 1989, quando a apresentadora fez questão de correr e dizer logo que eles estavam namorando, em tom de conto de fadas", escreveu Adriane Yamin.
APOSENTADORIA?
Em meados de 1992, de acordo com Adriane, Senna à procurou para conversar em São Paulo anos após o término.
“Ele estava com algum problema de ter começado o ano sem assinar contrato, ou o contrato não estava como ele queria, ou ele não fechou contrato com nenhuma escuderia aquele ano e ele estava negociando por corrida, sem contrato, e aquilo o aborreceu muito”, escreveu.
Segundo Adriane, Ayrton queria se aposentar e ser piloto do pai dela, que pensava em comprar uma aeronave à época.
“Estou muito insatisfeito com a minha profissão. Eu não corro por causa do dinheiro, corro por prazer, e eu perdi o tesão nisso porque é muita sujeira, é muito interesse, e eu perdi o gosto. Fala com seu pai, eu ia adorar ser piloto dele, já tirei brevê, já sei pilotar jato, sei pilotar helicóptero, e eu viro piloto dele”, falou o já tricampeão da F1.
Ela rechaçou a ideia.
MORTE EM 1994
Adriane Yamin diz que não estava assistindo à corrida de San Marino na fazenda em Porto Feliz. Ao saberem da morte de Senna, seu pai e o cunhado foram à fazenda da família do piloto em Tatuí para consolar o pai, seu Milton. Depois, a mãe de Ayrton, dona Neyde, foi ao encontro do marido.
Ela conta que não foi a velório e enterro porque achava que "já tinha vivido o luto do Beco, do meu Beco, eu não queria viver o luto do Ayrton, já tinha sofrido demais", mas que ao lado de sua mãe foi até a casa de dona Neyde para prestar condolências.
"Assisti da televisão, chorei, me emocionei junto com a minha família com toda a comoção e manifestação de amor dos brasileiros àquele brasileiro. Realmente foi de cortar o coração, e para mim foi uma história encerrada, uma história linda que agora realmente estava concluída", escreveu Adriane Yamin.
