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Prost bateu Senna e parou corrida na chuva, mas 'vitória maldita' o fez perder título de 1984 por 0,5 ponto

Maior rival de Ayrton Senna na Fórmula 1, Alain Prost tem quatro títulos mundiais (1985, 1986, 1989 e 1993). Mas poderiam ser cinco, não fosse uma vitória que virou, podemos dizer, 'maldita'. E acredite: por causa do próprio francês.

Em 1984, Prost tinha 29 anos, estava em sua quinta temporada na categoria e guiava uma McLaren com motor Porsche. Já eram duas vitórias (Brasil e San Marino) até ali, mas a primeira pole-position do ano veio apenas na sexta etapa, em Mônaco, após briga acirrada com o inglês Nigel Mansell, com seu Lotus-Renault - 1m22s661 contra 1m22s752.

A disputa pelo título (24 pontos contra 18) era com seu próprio companheiro de equipe, o já consagrado Niki Lauda, austríaco então bicampeão (1975 e 1977) e com 35 anos.

Um temporal que caiu sobre o circuito do principado atrasou a largada em 45 minutos e preocupava. A ponto de os pilotos pedirem para que o trecho de pista seca do túnel fosse molhado, a fim de garantir uma condição mais similar em todo o circuito e, assim, evitar desgaste maior dos pneus.

E a bandeira verde naquele 3 de junho se deu assim, com muita água. Como esperado, teve acidente logo nos primeiros metros, com os dois carros da Renault (Derek Warwick e Patrick Tambay), que largaram em quinto e sexto, batendo e dando adeus.

Prost manteve a ponta, mas, diante daquela condição adversa, precisou de 2m5s para completar o giro (vale lembrar que fez a pole na casa de 1m29s), seguido de Mansell e das duas Ferraris, pilotadas, pela ordem, pelo francês René Arnoux e o italiano Michele Alboreto.

Ao final da primeira volta, Ayrton Senna, com 24 anos e que estreava na F1 naquela temporada, pulara do 13º para o nono lugar com sua Toleman-Hart, e o alemão Stefan Bellof, a bordo de um Tyrrell-Ford, foi de 20º para 11º; Nelson Piquet, atual campeão da F1, era o 16º com sua Brabham-BMW após ter largado em nono.

A água não dava trégua.

Enquanto Senna apresentava seu cartão de visitas e ia ganhando posições, Mansell foi para cima de Prost, tomou a liderança na nona volta com facilidade e abriu cerca de 2s por giro. Mas o reinado do inglês durou pouco. Sozinho, ele perdeu a traseira na volta 14, bateu no guard rail e viu seu GP acabar ali. O francês retomou a ponta.

Mas a chuva só aumentava.

Na volta 28 das 68 previstas, já eram 54 minutos de prova, e a certeza que a mesma acabaria pelo tempo máximo de duas horas. Lembra do alemão Bellof? Mesmo com uma Tyrrell, ele voava. Em certo ponto, deu um 'chega pra lá' na Ferrari de Arnoux e assumiu o terceiro lugar.

E Senna? Dava espetáculo!

"Vai com muito apetite e passa por Niki Lauda (veja a briga a partir de 40m27s no vídeo abaixo)! Assume a segunda posição Ayrton Senna... Na Sainte-Dévote, talvez o ponto mais perigoso do circuito. Passa e abre", gritou Galvão Bueno na narração pela TV Globo. "O show é dele em Monte Carlo", acrescentou, segundos depois.

O austríaco, pouco depois, rodou e deu adeus à corrida (veja no vídeo abaixo a partir de 53m11s).

E na primeira vez que se fala da diferença de Senna para Prost na transmissão, ela era de 34s. A chuva seguia aumentando, e Senna, já mostrando ser um especialista em pistas molhadas, fazia a distância sumir. Para 15s36, para 11s82, para 7s53...

O francês, então, faz sinais com as mãos para os membros da McLaren nos boxes, ao passar por eles na volta 29 (veja no vídeo abaixo a partir de 1h08m47s). E repetiu o gesto nas duas voltas seguintes. Pedia o fim da prova. O brasileiro, claro, era contra.

E o diretor do GP, o belga Jacky Ickx, atendeu ao pedido do francês. Primeiro, mostrou uma bandeira vermelha, o que indicava interrupção da corrida, com a possibilidade de ser retomada. Na sequência, a bandeira quadriculada, de encerramento da disputa.

Prost passou pela vermelha, mas não cruzara a quadriculada, o que o brasileiro fez.

Dúvidas sobre quem era o vencedor? "Não tenha dúvida, Senna é o vencedor", bradou o então repórter Reginaldo Leme.

Não foi.

Ickx argumentou que encerrou o GP por falta de condições viáveis. E o francês venceu porque foi o primeiro a receber a bandeira vermelha, no giro 31, o último completado por todos os pilotos que ainda estavam na pista.

Por meio ponto?

Como a prova não teve 75% de suas voltas previstas concluídas (51), a decisão foi dar aos ganhadores de pontos metade do que cada posição valia.

Naquela época, o sistema de pontuação era assim:

Primeiro lugar - 9 pontos
Segundo lugar - 6 pontos
Terceiro lugar - 4 pontos
Quarto lugar - 3 pontos
Quinto lugar - 2 pontos
Sexto lugar - 1 ponto

Logo, Prost somou 4,5 pontos, Senna, 3, Bellof, 2, e assim por diante.

E quando chegou o último GP da temporada, o 16º, em Portugal, o francês tinha 62,5 contra 66 de Lauda, então líder do campeonato.

Prost ganhou a prova, foi a 71,5, mas viu o parceiro de McLaren chegar em segundo, ganhar seis pontos e ir a 72.

O austríaco tornava-se, por meio ponto, tricampeão mundial.

Se a corrida em Mônaco tivesse seguido e Prost ganhado, ele teria somado 76 e sido campeão pela primeira vez na principal categoria do automobilismo; se fosse o segundo, teria acabado com 73... e sido campeão. Não foi. E o resto é história.