O GP da China tem sido chamado de “A milésima corrida de Fórmula 1”, o que atraiu muita atenção dos fãs e da imprensa.
É uma tática de marketing inteligente, e que, com certeza, atingiu seu objetivo antes da corrida em Xangai. Mas e quando as luzes se apagarem neste fim de semana? Será mesmo a milésima corrida da história da categoria mais famosa do automobilismo? Ou será que estamos enganados? (No bom sentido, é claro).
A resposta não é tão simples, mas tenha paciência conosco.
Nosso problema imediato é: o que pode ser chamado de Grand Prix, e se essa definição pode ser transferida para corridas que, atualmente, nunca seriam consideradas como tal.
Por exemplo, de 1950 até 1960, as 500 milhas de Indianápolis estavam incluídas no campeonato, mas pouquíssimos pilotos de Fórmula 1 competiam. Isso significava que a corrida era vencida por pilotos americanos que aceitavam as regras adaptadas. Então, aquelas 11 corridas que aconteceram em Indiana podem se encaixar como GP?
Se não, o que faremos com Bill Vokovich, campeão da Indy 500 em 1953 e 1954.
Ele nunca chegou a dirigir um carro de Fórmula 1, mas suas vitórias na corrida o colocaram em sétimo e em sexto no campeonato mundial de pilotos daqueles anos. Seus 19 pontos em cinco corridas ainda contam na história da Fórmula 1, e sua morte na Indy 500 de 1955 foi, tecnicamente, a primeira morte da história da Fórmula 1.
Regras foram um grande problema durante os primeiros anos do campeonato mundial. Em 1952, a Alfa Romeo não conseguiu encontrar um novo carro, então desistiu de competir antes mesmo da temporada começar. Com a desistência da British Racing Motors (BRM), a Ferrari se mostrava a única competidora séria daquele ano.
Os organizadores do torneio, então, decidiram fazer corridas com as regras da Fórmula 2, mudando os motores usados e permitindo que mais carros entrassem (a Ferrari venceu todas as corridas). A mesma coisa aconteceu em 1953, então daria para argumentar que aqueles dois anos foram anos de Fórmula 2, não de Fórmula 1.
Se adicionarmos as Indy 500 com os calendários cheios de 1952 e 1953, 26 GPs, que fazem parte da contagem da Fórmula 1, nunca nem tiveram um carro de Fórmula 1 neles. É fácil argumentar que tivemos apenas 974 corridas desde Silverstone, em 1950. E isso significa que estamos ainda a mais uma temporada de distância da milésima corrida.
Assim como é fácil dizer que já tivemos mais de 1000 corridas, já que tivemos várias “primeiras” corridas antes de 1950.
A primeira corrida que, geralmente, é reconhecida como Grand Prix, aconteceu em 1906 em Le Mans, e foi vencida pelo húngaro Ferenc Szisz. O GP de Mônaco existe desde 1929, e nós tivemos dois GPs em Silverstone em 1948 e 1949 antes daquela “primeira corrida”.
E aí, temos os Grand Prix que não eram válidos pelo campeonato: corridas de Fórmula 1 que não contavam pontos no campeonato mundial, mas aconteceram e foram, em algum ponto da história, bem populares. Isso acontecia bastante também – na verdade, em alguns anos, tivemos mais corridas que não valiam pelo campeonato do que as que valiam.
Os exemplos mais famosos são o Troféu Internacional, que aconteceu em Silverstone de 1948 até 1978, e a Corrida dos Campeões, que acontecia em Brands Hatch de 1965 até 1983.
Essas corridas eram utilizadas pelos times para testar mais os carros e prepará-los para a parte europeia do campeonato mundial. Apesar disso, elas eram levadas a sério, e foram vencidas por pilotos talentosos. Jackie Stewart, Niki Lauda e Emerson Fittipaldi são alguns exemplos.
Então, qual o veredicto?
Até aqui, não há um. A história em preto e branco da Fórmula 1 faz quase ser impossível dizer qual o número real do Grand Prix da China, mesmo que isso tenha levantado discussões.
Será a milésima vez que os pilotos ganharão pontos por uma corrida? Sim.
Será o milésimo Grand Prix? Absolutamente não.
Informação da Reuters contribuiu para esta matéria.
