Neste domingo, o "Maior Espetáculo do Automobilismo" acontece pela 102ª vez na história: as 500 Milhas de Indianápolis. E enquanto os carros aceleram na prova mais tradicional e famosa do mundo, a memória do que aconteceu há quase exatos 25 anos, em 30 de maio de 1993, certamente nunca será apagada da cabeça dos brasileiros amantes da velocidade.
Foi nesta data em que Emerson Fittipaldi ganhou as 500 Milhas de Indianápolis pela segunda vez na carreira. Até então, o único brasileiro a conquistar o troféu mais cobiçado do automobilismo.
Durante uma de suas passagens por São Paulo no primeiro semestre, o "Pai" do automobilismo brasileiro conversou com o ESPN.com.br para relembrar as memórias daquela corrida, bem como de sua carreira na Fórmula 1 e suas histórias com celebridades que conheceu mundo afora.
Nesta primeira parte, Emerson, hoje com 71 anos de idade, resgata as memórias e o cenário da corrida em 1993 que teve no grid nada menos do que nomes como Mario Andretti, Nigel Mansell e Nelson Piquet. E por pouco, como ele revelou, não contou com Ayrton Senna.
Veja a primeira parte da entrevista com Emerson Fittipaldi:
ESPN - Como foi a aventura de popularizar a Indy no Brasil?
Fittipaldi - A Indy no começo no Brasil tinha um grupo de apaixonados por automobilismo, incluindo meu pai e minha mãe, que faziam matinês de documentários sábado à tarde. Não tinha televisão transmitindo corrida, e a Bardal trazia filme de Indianópolis dos EUA. Eu via e gostava muito, quando entrei na Lotus, por coincidência, o Colin Chapman tinha vencido em Indianápolis com o Jim Clark. Foi a primeira vez que uma equipe inglesa foi para os EUA venceu dos americanos por lá. Isso me chamava atenção e eu perguntava muito sobre Indianápolis para o Jochen Rindt. Ele tinha testado, batido e não gostou. Falou: ‘Oval é uma porcaria, uma loucura, coisa de americano’. O Colin falava que o Jim gostava muito e o evento tinha uma história muito grande. Para nós brasileiros era desconhecida, mas para os americanos era muito importante e muito conhecida entre os europeus. Eu testei em 74 o caro do Johnny Rutherford, que ganhou com a McLaren naquele ano. Eu andei a primeira vez e me adaptei porque era um carro fácil de guiar e me dava bem em curva rápida pelo meu estilo. Eu gostei muito, mas o carro era muito fraco de segurança e mesmo com uma oferta muito boa que recebi da McLaren com a Texaco, eu não eu não quis. O carro batia e se desintegrava, já dava 400 km por hora.
ESPN - Vai fazer 25 anos da segunda vitória em Indianápolis. Quais os melhores momentos daquela corrida?
Fittipaldi - É um evento muito especial, muita gente correu e morreu por lá. Indianápolis não é só a hora que larga, tem a classificação, o procedimento deles. É uma coisa fantástica. Em 93 meu sonho era que o Ayrton fosse correr. Imagina, ter Nigel (Mansell), Ayrton e eu por lá? Três campeões do mundo. Quase aconteceu. Ia ser o máximo.
ESPN - O que travou essa corrida?
Fittipaldi - Foi o Ron Dennis por causa da renovação de contrato [da McLaren], isso travou. O Ayrton tinha sonho em correr em Indianápolis.
ESPN - Como foi o teste do Senna na Indy?
Fittipaldi - Ele estava praticamente certo que ia correr com a gente pela Penske. Já era praticamente certo colocar um carro a mais para ele. Tanto é que ele testou o carro da Indy no circuito misto. Andou muito rápido e gostou do carro. Os europeus não gostam muito da Indy e tinham feito uma imagem para ele que o carro na Indy não era legal. É uma certa arrogância de uma boa parte deles. Mas o Ayrton gostou muito. Ele queria correr. Era uma pista meio ingrata, muito cheia de terra, pequena e travada. Nem deu para ele sentir o carro. Ele foi com a ideia de correr em Indianápolis. O Roger (Penske) não deixou ele testar no oval de Phoenix porque tinha medo. Se você chega muito rápido e confiante você bate. Como foi o Jochen. Ele ficou me vendo testar. Ele achou que o Ayrton ia andar muito rápido e poderia bater. O Nigel bateu em Phoenix naquele ano e machucou as costas. Deu sorte.
ESPN - O que ele falou sobre o carro da Indy?
Fittipaldi - Achou a potência [do motor] boa e bom de guiar. Pena que não deu para limpar a pista, era um teste particular. Ele sentou no carro e gostou. Depois disso, eu fui testar no oval, em Phoenix, que era muito agressivo e rápido. Uma hora fui passar pela curva dois e vi uma cabecinha atrás do muro. Quando vi, era o Ayrton. Ele pegou o carrinho de golfe e ficou grudado na grade da curva dois eu nunca vi ninguém fazer isso em uma pista oval. A cabeça dele estava 40 cm da minha roda traseira. Eu disse: ‘Ayrton você é louco?’ Ele respondeu: ‘Eu queria sentir a vibração do ar e o barulho do carro’. Ele botou a cabeça lá (risos).
ESPN - Como foi o duelo com Mansell até a bandeirada final?
Fittipaldi - O carro estava muito difícil de acertar na classificação. Não estava legal, eu larguei ao lado do Nigel, mas eu tinha um set up muito bom para corrida. Quando o Nigel foi para Indy, o Ayrton me falou: ‘Esse inglês é muito louco e tem um controle do carro muito bom’ (risos). Em Indianápolis foi o único cara que eu vi que durante a corrida colocava o carro em posição de alto risco (risos). Eu estava grudado nele e pensava: vai sobrar para mim (risos). Se ele bate no muro, volta para o meio da pista. Eu estava na curva três no fim da reta, vento a favor. Depois de umas 100 milhas estava grudado nele. Aí, ele entrava na curva eu via a mão dele corrigindo a posição do carro, dando uma balançada. Eu olhava e falava no rádio. 'Ele vai bater' (risos). Mas não bateu. Na última relargada eu fui melhor e passei ele. Nas últimas 15 voltas eu ia pé embaixo. Ele chegou, mas não me passou. Ele raspou duas vezes no muro, ninguém sabe disso. Ele deu uma raspada no muro para tentar chegar em mim.
ESPN - Você ainda perdeu tempo nos boxes naquela corrida...
Fittipaldi - Foi gozado porque depois de umas 300 milhas eu estava saindo da curva 3 e deu bandeira amarela. Eu estava com viseira muito suja, consegui frear e tive que entrar nos boxes, os mecânicos olhavam para mim e não faziam nada. Daí, um cara começou a me dar sinal com o dedo e me xingar. Eu tinha entrado no box da Budweiser (risos). O piloto da equipe estava chegando e eu no lugar dele esperando trocar pneu. Daí eu engatei a primeira, fui ao boxe certo. Mesmo assim ainda ganhei a corrida. Mas virou uma piada.
ESPN - E como foram as voltas finais?
Fittipaldi - Teve um caso engraçado. O Roger ficou no rádio e falando muito no meu ouvido. Eu estava focado e queria abrir do Nigel. Não ia mais parar no box, ia no capricho com concentração total. Eu respondi: ‘Roger, fica quieto!’ E nunca mais ele falou (risos). Ele estava muito ansioso. Depois que a gente venceu eu expliquei que não estava acostumado com alguém falando tanto no meu ouvido no rádio.
ESPN - Na comemoração você rompeu a tradição de beber o leite e tomou um suco...
Fittipaldi - No pódio naquele ano eu já comemorava com suco de laranja. Eu eu tomei a laranja e depois o leite. Mas isso ninguém publicou (risos). Até hoje é uma polêmica nos Estados Unidos. Pessoal me fala: ‘Pô, você tomou a laranja e não tomou o leite’. Eu tomei o leite, mas foi depois. Era um suco que eu produzia na época. Hoje não trabalho mais com laranja. Deu uma repercussão gigantesca.
*ESPN - Fale sobre seus netos que estão seguindo seus passos...
Fittipaldi - Pietro me surpreendeu muito nos últimos dois anos. Ele começou na Nascar em oval curto com 14 anos. Ele andou muito rápido com um carro de 500 cavalos, passou pela formula Renault, Fórmula 3 e World Series. Em carro com muita potência ele anda muito bem. No primeiro ano teve muitos problemas com o carro em uma equipe que não estava legal, mas no segundo ele dominou o campeonato. Ele mostrou que guia muito com o pé. Quanto mais potência você precisa guiar com o pé e a mão. Acabou o campeonato e ele foi guiar a Porsche e virou mais rápido que o Alonso em um protótipo sem nunca ter andado em um. Tudo é diferente, é outro ambiente. Não é um fórmula. Os engenheiros da Porsche ficaram impressionados. Só o cara que ganhou Le Mans foi mais rápido do que ele. Isso me chamou muito atenção. Depois guiou Indy Lights e foi o mais rápido. Ele foi pilotar um Indy e virou quase igual ao Sebastian Bourdais. Pietro se dedica muito. É focado e concentrado, a vida dele é corrida de automóvel. Não tem mais nada.
ESPN - E o Enzo?
Fittipaldi - O Enzo tem andado muito rápido na Ferrari. É o segundo ano dele por lá. A expectativa é muito grande. O meu filho Emmo está andando muito rápido de kart também. Outro dia eu estava testando uma McLaren GT especial de pista de mil cavalos, em Austin. Eu saí do carro fui olhar o race monitor e estava o Pietro correndo na Espanha na World Series, o Enzo de gineta na Inglaterra e o Emmo nos EUA de kart. Eu fiquei maluco porque não sabia qual ia acompanhar (risos). Eles estão no caminho certo. É um esporte difícil, mas os três adoram e têm muito talento. Vamos ver como será. É muito legal ver a turma nova aparecer.
ESPN - Você ainda sente falta de pilotar, do clima de competição e corrida?
Fittipaldi - Eu estou competindo fora do cockpit agora com eles na torcendo (risos). Eu espero ainda daqui uns anos guiar o meu carro em uma 12h de Sintra [Portugal] ou 24h de Daytona com os três. Outro sonho que eu tenho. Eu guio uns 15 minutos, pelo menos dou umas voltas e o resto é com eles (risos). O Christian junto com a gente? Seria espetacular.
*entrevista feita antes de Pietro Fittipaldi sofrer o acidente na WEC onde ele fraturou a perna e foi obrigado a abrir mão de correr nas 500 Milhas de Indianápolis de 2018.
