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Crítica | Arcane encerra sua jornada, mas deixa um gosto melancólico por mais

A Netflix lançou o terceiro ato de Arcane neste sábado (20) Reprodução/Riot Games

Por três semanas seguidas, o mundo dos games foi bombardeado por Arcane, a epopeia da Riot Games e Netflix. A animação nos trouxe a história de Piltover e Zaun, que se entrelaça com personagens fortes e marcantes do universo League of Legends. Nesse meio tempo, Arcane se tornou a série do Netflix melhor avaliada no IMDB, invadiu jogos como PUBG Mobile, Fortnite e até um restaurante no iFood.

Porém, a jornada que chegou ao fim neste sábado (20), deixa no ar uma sensação de que ainda tem muito a ser explorada e que, inevitavelmente, terá que ser contada em uma segunda temporada - mesmo que isso não tenha sido anunciado oficialmente no momento em que escrevo esta crítica.

O terceiro ato veio para reforçar tudo o que disse anteriormente em minhas análises anteriores: Arcane é uma série madura, que não tem medo de se arriscar, traz uma animação incrivelmente bela e fluída - e ainda acho que é a melhor de todo o catálogo da locadora vermelha.

Entretanto, diferente do que muitos esperavam, os três últimos episódios não amarram todas as pontas, tampouco confirmaram todas as especulações dos fãs. E, antes que você siga em frente, preciso reforçar: esta crítica vai tocar em certos temas que são abordados durante toda a série e, por esse motivo, recomendo que assista aos nove episódios antes de seguir em frente.

Vá, assista mesmo não sendo um fã de League of Legends. Arcane tem um roteiro muito bem trabalhado, toca em temas importantes que são discutidos no mundo real com uma naturalidade na qual você não vai se arrepender de acompanhar.

O TERCEIRO ATO

Para quem está acompanhando a série desde o início, e lido minhas críticas anteriores, deve se lembrar que o primeiro ato foi importante para mostrar discussões entre progresso e tradição, a dor de perdas, rompimento de laços familiares e luta de classes. Já o segundo ato foi mais contido na apresentação de temas e focou no desenvolvimento de personagens, principalmente de Caitlyn, Vi, Jinx e Jayce, mas sem deixar de trazer mais contexto sobre o que acontece nas ruas da Cidade Alta e dos esgotos da Subferia.

Com o terceiro ato, as discussões políticas voltam com mais força, além de apresentar novos conceitos até nos últimos minutos, com cenas de ação impactantes e vorazes. E, reforço: esbanjando um arrojo sem igual com seu visual.

A cena de abertura do sétimo episódio apresenta os Fogolumes com um novo estilo de traço, mais robusto e estilizado para combinar com o rap tema da gangue. Encontramos Vi e Caitlyn presas na base dos rebeldes e encapuzadas. Em seguida, surge a revelação de que muitos esperavam: Ekko é o líder da facção.

Por mais que eu estivesse esperando pela cena, não deixei de me sentir surpreendido. Afinal, a discussão entre Vi e o Chefinho trouxe um diálogo bem construído e que acaba da mesma forma como deveria chegar ao fim qualquer discussão entre amigos muito próximos: um abraço fraterno.

A reintrodução de Ekko na história traz consigo uma nova camada para o desenho que se forma em Zaun, de que é possível florescer esperança e beleza mesmo nem um ambiente tóxico. E, claro, sua posição contra o império construído por Silco se torna clara e evidente de que, uma hora, as pessoas se cansam de serem enganadas por promessas vazias de quem está no poder.

TUDO ESTÁ LIGADO

O grande vilão da série tem um alvo na cabeça não só pela aristocracia de Piltover, mas de toda a máfia da Subferia. Seus atos terroristas causam problemas aonde quer que passe e mesmo que tente se enganar, Silco é a grande engrenagem desajustada que faz com que a máquina funcione de forma deturpada. Todos sabem que ele é a fonte dos problemas da cidade baixa e que para existir esperança, ele precisa ser derrubado. O problema é que ninguém tem poder para fazer isso.

Silco corrompe tudo o que toca em nome de sua ambição de tornar a Subferia em uma cidade independente de Piltover, de fazer com que Zaun seja livre dos seus desmandos. O objetivo é nobre, mas a forma de alcançá-lo é o que torna Silco uma ameaça a todos.

É nesse tipo de subtexto que Arcane se apoia, mostrando que até mesmo os tons mais escuros de cinza podem ter algum objetivo relativamente nobre. E sejamos francos: a ideia de libertar Zaun é nobre. Piltover se ergue como a cidade do progresso, oprimindo a Subferia, deixando mais vulneráveis em um ciclo sem fim de pobreza e violência.

Isso fica ainda mais explícito quando o próprio Heimerdinger vai para as vielas olhar com seus próprios olhos toda a desgraça que trouxe nos mais de 300 anos à frente da Academia. O yordle simplesmente não sabe da existência de Silco, mas é indiretamente responsável por sua criação.

Essa teia densa, cheia de fios que envolve todos os personagens de Arcane que, de alguma forma, estão relacionados e buscando o melhor para si ou para sua comunidade. É desse tipo de trama madura, nada simples de ser construída, que transformou a série em um sucesso na Netflix. Algo que poucos seriados conseguiram trazer para a plataforma, como é o caso das primeiras temporadas de House of Cards.

Ver isso acontecendo diante dos nossos olhos com a base sendo uma série inspirada em videogames é mais importante ainda não apenas para o serviço de streaming, mas também para o universo do mundo dos jogos - que já tinha sentido um gosto similar com Castlevania. Ao mesmo tempo, mostra o quanto a Riot Games soube aproveitar e mostrar esse segredo que estava escondido em suas páginas de história de contextualização de seu “universo de fadas”.

Não é apenas a trama política entre Piltover e Zaun que é entrelaçada com personagens e quero chamar atenção para dois protagonistas da série: Jinx e Jayce. Enquanto vemos a terrorista de Zaun se aprofundando cada vez mais na loucura, também vemos a máscara do “grande herói de Piltover” se dissolver e dar lugar a um homem cheio de falhas e defeitos.

MANIPULAÇÃO E LOUCURA

Antes de Arcane, Jinx e Jayce eram personagens rasos e suas biografias em League of Legends não faziam jus aos títulos que carregavam. Exemplo disso é Jayce, que antes da série era descrito como a mente mais brilhante de Piltover, mas sem dar exemplos práticos sobre essa genialidade. A série trouxe muito mais profundidade para o “Superman de Piltover”, mostrando que Jayce possui inúmeras fraquezas e incertezas, um jovem cego pela sua inteligência, mas facilmente manipulável. E sua relação com Mel é chave na construção de sua persona.

Mel começa a nutrir um relacionamento afetuoso real com Jayce, mesmo que inicialmente tenha se aproximado dele para manipulá-lo, no fim do terceiro ato ele se torna um ponto de apoio para a Conselheira. E isso é explicitado com a chegada de sua mãe, Ambessa Medarda, que chega em Piltover com intuito de criar armas com a tecnologia Hextec para levá-la a Noxus. E aqui vale um parêntese: ao meu ver, acaba de uma vez por todas a teoria de que Mel era na verdade Le Blanc. Mel é uma personagem por si só, não uma distração. Fecha parêntese.

Ambessa se mostra muito mais direta e brutal do que Mel. Uma guerreira que sabe que é poderosa não apenas em combate, mas por toda sua história. Ela sabe o que quer e, ao que tudo indica, vai ter o que deseja (de um jeito ou de outro). A mera presença de Ambessa faz com que Mel se sinta fragilizada e é por isso que ela precisa de Jayce ao seu lado, não apenas como uma marionete, mas também como um porto seguro.

Essa relação acaba sendo sufocante e, mesmo que não perceba, isso acaba fazendo com que Jayce não olhe para as necessidades de seu amigo, Viktor. Ao passo que Viktor descubra a necessidade domar o Núcleo Hex pela sua própria salvação, ele se volta para as suas origens em Zaun, ou melhor dizendo, o doutor Singed. Enquanto isso, perde a confiança em seu amigo.

A redenção de Jayce começa quando ele percebe que precisa tomar a responsabilidade de ser o líder que Piltover precisa, mesmo que isso tenha sido uma ideia incutida em sua mente por Vi. Ele se levanta e tenta usar o Martelo Hextec como resposta para acabar com uma fábrica de Silco, mas acaba entendendo que para certas coisas, a porrada não é a melhor forma para chegar ao melhor resultado final.

Jinx era o outro lado da moeda e nada explicava o real motivo de sua loucura, o que acabava dando a macabra impressão de que a Riot tinha se apoiado em uma construção narrativa arcaica, na qual a loucura era calcada na defasada “frágil natureza feminina” - onde as mulheres são rotuladas como loucas, bruxas ou más.

Existem diversas discussões sobre este tipo de narrativa que diminui a figura da mulher e, por algum tempo, senti que essa construção também estava se desenhando na série para retratar Jinx. Entretanto, Arcane trouxe uma explicação plausível para justificar a fragmentação de sua mente.

Powder nunca teve tempo de ser criança e tudo aponta para que a cascata de traumas a qual ela é exposta contribuiu para o nascimento de Jinx. A perda dos pais, a luta pela sobrevivência nas ruas da Subferia, o desprezo (e morte) dos amigos, a decepção (e desaparecimento) de sua irmã e, finalmente, a convivência com Silco - a pior influência possível como figura paterna.

Olhando objetivamente para a narrativa que é trazida em Arcane, Jinx não é apenas um arquétipo inspirado e espalhado da figura feminina na literatura e dramaturgia há séculos - é uma personagem muito mais profunda e compreensível de ser como é. Jinx não é apenas uma figura traumatizada: é o fruto de todas as experiências que viveu.

Essa virada de chave acontece apenas na virada do segundo para o terceiro ato e é expandida até o último segundo de cena, afinal, ela acaba reencontrando sua irmã para logo em seguida se sentir traída. E o que dizer de Silco, a única pessoa na qual ela sente um laço afetivo, que a usa como arma de destruição em massa?

As pessoas se identificam com histórias como essas que foram apresentadas ao longo dos nove episódios, entendem que dificilmente alguém conseguiria passar por tantos traumas ilesos. Isso fica explicitado nas cenas finais da temporada que conseguem colocar um ponto final na narrativa de Silco ao mesmo tempo que deixa para o espectador a possibilidade de amarrar as pontas para que Piltover se separe da podridão de Zaun, dando à Jinx ainda mais protagonismo do que tudo o que foi mostrado durante os nove episódios.

Após Arcane, Jinx não é mais uma cópia de fajuta Arlequina (de Batman) no mundo de Runeterra. É uma jovem que teve sua trajetória enriquecida, enaltecida e, finalmente, justificada.

O FIM?

Talvez não tenha ficado claro o quanto que Arcane é uma série animada incrivelmente bela e com cenas de ação de tirar o fôlego. O combate na ponte entre Piltover e Zaun de Jinx contra Ekko é conduzida de uma forma magnífica. O clipe de abertura do terceiro ato é ousado e o embate final arrepia até o último fio da cabeça da nuca. Mas isso faz parte apenas para dar um pouco mais de sabor aos fãs de League of Legends. Em Arcane essas cenas são tão importantes quanto as lutas de kung-fu em Matrix: um deleite visual.

Tudo isso somado faz com que Arcane se mostre, mais uma vez, aquela série madura na qual citei na minha crítica do primeiro ato. Agora, tudo faz mais sentido sobre qual direção a Riot quer levar a sua história e é o desfecho disso do terceiro ato que mostra que ao mesmo tempo que o ciclo chegou a um fim, é inevitável o desejo por uma segunda temporada (ou mais).

Esses personagens foram construídos para nos fazer refletir que existem muitas boas histórias a serem contadas no universo de League of Legends. E isso fica ainda mais nítido quando damos um passo para trás para observar que estamos olhando apenas para um grão de areia de todo o potencial latente que Arcane tem.

Se hoje Arcane chegar ao seu final definitivo e uma continuação não acontecer, acredito que tivemos uma boa jornada. O tipo de jornada que nos deixa com um gosto melancólico de que tudo que é bom, um dia acaba.

Os temas apresentados ainda possuem pontas soltas e existem inúmeras possibilidades de seguirmos vivendo nesse mundo. Ao mesmo tempo, me pergunto se isso um dia será possível colocar um ponto final, afinal, LoL está aí, há 12 anos e mais personagens e histórias são incluídas em sua mitologia.

Arcane é mais uma dessas histórias, mas prefiro, ao menos por enquanto, acreditar que não chegamos ao fim.