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LoL | Como incentivar e manter novos talentos no CBLoL?

Jean Mago deixou o competitivo de League of Legends Divulgação/Flamengo e-Sports

O cenário competitivo de LoL não pode se dar o luxo de perder talentos como o de Jean Mago


No último domingo (24) o cenário competitivo viu um dos seus mais novos talentos a se despedir, ao menos por enquanto, do cenário competitivo. Jean Mago, de 17 anos, anunciou que não pretende continuar competindo em 2022 e que vai se dedicar às suas streams.

A opção de Jean Mago deixar o cenário competitivo de forma alguma deve ser encarada como inválida. Seu motivo é mais do que justo, seria terrível e até criminoso força-lo a continuar jogando de forma profissional. Mas é um talento que quem mais perde é o cenário competitivo.

Vale lembrar como o primeiro lugar do ranking brasileiro de League of Legends chegou a esse status: o jogador alcançou o estrelato por ser um grande talento desde que foi descoberto nas filas ranqueadas em 2020 ao alcançar a primeira posição do servidor brasileiro e reunir fãs ao redor do mundo.

A conquista aconteceu ao lado de Kenzzy, seu duo, que o apoiou nas horas mais difíceis. Foi acompanhado pela Furia, INTZ, paiN e outras equipes. Recebeu apoio de jogadores como Kami, Revolta e brTT. E sua batalha para chegar ao topo atraiu atenção internacional, como a conta do Twitter do LoL Esports e outros membros da comunidade.

Não demorou muito para os times do CBLoL procurá-lo para ingressar nas suas frentes. E foi na segunda etapa de 2021 que Jean Mago assinou contrato com o Flamengo Esports para a equipe Academy, na qual saiu como campeão e, com isso, foi indicado ao Prêmio Esports Brasil.

A carreira meteórica de Jean Mago apontava que o jogador poderia se tornar um dos maiores nomes do cenário competitivo de League of Legends da atualidade, inclusive esse potencial foi citado por grandes atletas como brTT e Goku. A breve história de Jean Mago nas competições não é única e acontece com mais frequência do que imaginamos.

Esses novos talentos são descobertos, passam por algum tempo nas equipes e depois voltam para suas casas para fazer sua vida como streamers. Exemplos não faltam: YoDa, Yetz, Rakin, Baiano, Vash, eSa, Badd, Jukes... A lista é imensa e já virou pauta anteriormente aqui mesmo no ESPN Esports Brasil. São jogadores que já eram streamers talentosíssimos, testaram o cenário competitivo por algumas etapas e o abandonaram.

A diferença é que Jean Mago só precisou de uma etapa para descobrir que o cenário competitivo não era pra ele. E reforço: Jean fez o certo para ele. E isso basta.

Em suas próprias palavras: “Apesar desse split ter sido uma experiência ótima, eu sinto que eu não devo continuar, eu não curto muito o estilo do jogo competitivo em si, tanto que já fazia muito tempo que eu não acompanhava as ligas competitivas, e eu nunca procurei aprender os maguinhos do meta competitivo porque eu nunca tive interesse e vontade, o meu estilo de jogo é [Solo Queue], Yasuo, Irelia, Sylas, Akali, Jayce...”

O cenário competitivo nos esports, em qualquer jogo, exige muito por parte do jogador. Coisas que vão além do estilo de jogo como rotina de treinos, dias de jogo, deixar a família, cobrança dos fãs e muito mais. É uma vida que exige sacrifícios e, às vezes, o esforço não vale a pena. E talvez Jean não estivesse preparado e nem queria se dedicar ainda mais para ser escalado para disputar o CBLoL (e reforço, tá tudo bem!).

Mas, agora que você teve todo o contexto, é agora que vem o título da matéria: “Como manter e incentivar os novos talentos a ficarem no CBLoL?”. A pergunta é válida pois muito se questiona sobre os resultados brasileiros em torneios internacionais. E um dos pontos que foi enaltecido em 2021 foi o fato de a Red Canids ter levado novos talentos para o Mundial de League of Legends. Talentos que a equipe soube cuidar e manter em suas frentes.

Para isso, procurei dois técnicos que sempre foram atrás de novos jogadores no cenário competitivo. De um lado Maestro, que acabou de se unir à Furia e que reconhecidamente soube trabalhar com novos jogadores. Do outro Djoko, um dos idealizadores do Preparando Campeões da CNB e que revelou jogadores como Yampi, Wos e tantos outros.

Maestro disse em conversa com o ESPN Esports que “Pra mim existem dois grandes fatores que pesam. O primeiro é como o sistema de monetização parece funcionar”.

“Recentemente eu tive a informação escutando do pessoal do cenário que a maior fonte de renda dos investidores do ramo hoje em dia está vindo de plataformas de live streaming. Maior que patrocínio, que retorno de produtos, que direito de transmissões, algo diferente por exemplo de esportes tradicionais. Não estou criticando a ordem, mas faz sentido existir uma situação na qual um talento competitivo opte por trocar de cenário, seja por pressão, rotina ou dinheiro numa realidade dessas”, aponta o treinador.

“O segundo fator é sobre a qualidade e profissionalismo do nosso cenário competitivo. Quanto mais problemas, desentendimentos, escândalos e brigas tivermos, menos atrativo vai ser para que uma família queira ver seu/sua filho/filha ali (consequentemente menos atrativo para investidores). Esse papel é de todos, desde o atleta até todos do backstage e da produção de conteúdo e notícias”.

Maestro sumariza dizendo que “A nossa ‘luta’ tem que envolver deixar a competição cada vez mais bonita, profissional, rentável e autossuficiente”.

Djoko explica como esses talentos são descobertos: “Geralmente, os novos talentos seguem um padrão de como eles aparecem e são lapidados. O que é aparecer? É nas filas ranqueadas ou nos in-houses. E em sequência, são incorporados em alguma equipe, seja como reserva, seja como membro do Academy, ou até mesmo em casos excepcionais como titular para que na sequência terem um gosto do competitivo e entender se a adaptação para a vida de alta performance faz sentido”.

Na maioria dos casos, jogadores são levados para uma rotina diária muito diferente de seu dia a dia e isso pode ser um fator complicador, diz Djoko. “O grande detalhe é que muitos dos novos talentos, como eles aparecem em fila ranqueada ou em in-house, estão apenas jogando de casa, jogando um game que demanda muito menos do que um jogo competitivo organizado. Por isso, quando eles estão expostos a pressões muito maiores de um time (ou um time de muita expressão como foi o caso do Jean no Flamengo) é uma situação que envolve muito mais variáveis e que depende de uma rotina muito mais rígida, com mais atividades mais off game, com mais coisas focadas em trabalho em equipe”.

Para Djoko, jogar profissionalmente demanda muito do jogador “É uma realidade muito diferente o competitivo, de fato, da realidade das filas ranqueadas que é onde esses novos talentos aparecem”.

O técnico da Só Agradece avalia o caso de Jean de uma forma bastante particular: “Ele começou a streamar muito cedo e isso chamou a atenção de muita gente. Com 13, 14 anos o menino já estava aparecendo muito acima da curva, muito à frente do que se espera de um novo talento competitivo. Isso gerou uma expectativa muito grande, foi hypado por diversos streamers e pessoas que jogavam com ele”.

“Ele anuncia esse desligamento de uma forma muito suave por que ele foi, mostrou seu gameplay no Academy, provou do competitivo e venceu. Ou seja, não temos do que reclamar”.

SINAL VERMELHO

Descobrir novos talentos é a base de qualquer liga competitiva e não seria diferente no League of Legends. Ambos os técnicos concordam que o talento de Jean Mago é algo que não aparece no meio competitivo com tanta frequência e que sua saída pode ser passageira. Porém, ainda é uma perda.

“Sem dúvidas, um jogador com o potencial do Jean Mago não estar participando do competitivo ativamente é sim algo preocupante, todos perdemos com isso em questão de cenário, mas sempre temos que olhar para o jogador primeiro”, comenta Djoko, mas ele enfatiza que Jean fez o certo em seguir sua vontade – e que esse pode não ser o fim dele no competitivo.

“É da vontade dele, do Jean, o que ele quer fazer de sua vida. A gente entende também que é uma questão de momento. Neste momento, o Jean não tem vontade de continuar no competitivo, mas ele mesmo comentou que a corrida para o top 1 foi algo que acendeu a centelha competitiva dele e foi por isso que ele decidiu experimentar”, fala o técnico.

“Então, quem sabe no futuro essa semente pode reacender e ele volte a querer competir e conquistar coisas maiores. Eu tenho certeza de que se Jean voltasse agora ele não passaria pelo Academy e iria direto para o CBLoL em uma das equipes”, conclui.

Para Maestro, existe uma ponderação que precisamos fazer com a saída de talentos como o de Jean do competitivo. “Eu tenho sentimentos misturados sobre essa notícia. Primeiramente fico triste pelo nosso cenário ter perdido um dos talentos futuros que poderiam render não só resultados de performance, mas também muito entretenimento e retorno de mídia”.

“Dito isso, me vem um sentimento de dúvida sobre se esse é um caso isolado ou não. Ele é um menino de muito sucesso já, que felizmente consegue atingir milhares de pessoas e dar uma boa condição para as pessoas ao seu redor, tudo que a competição poderia lhe dar. Sendo assim, podemos estar apenas vendo um caso de má adaptação (sem colocar culpa para qualquer um dos lados) ou pode ser um termômetro de como a estrutura toda está funcionando, repelindo suas futuras estrelas e perdendo oportunidades. De uma forma ou de outra, só o tempo vai dizer, mas a luz de alerta tem que estar ligada”.

Maestro conclui: “No fim, o importante é aprender e fazer com que esses casos sejam cada vez mais raros. O esport tem condição de ser tão grande ou maior que muitos tradicionais, e ainda conviver bem com influenciadores, streamers, embaixadores. Precisamos trabalhar duro para que, no futuro, as histórias ruins de competitivo se tornem apenas história”.