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Análise: EA coloca sua marca em F1 2021, para o bem ou para o mal

F1 2021 foi lançado em 16 de julho para diversos consoles, incluindo os videogames da nova geração: PlayStation 5 e Xbox Series X|S. É um dos primeiros jogos de corrida a serem lançados para ambos e se beneficiam de algo que os gamers de PC conhecem há muito tempo: os 60 FPS (frames per second, ou quadros por segundo).

Antes de falar do desempenho ou dos gráficos do jogo por si – coisa que mais atrai em textos de análise de games – temos que falar sobre o “fator Electronic Arts”. A empresa fez mais uma aquisição importante em sua história em 2020 ao assumir o controle da Codemasters, responsável até então pelo game oficial da Fórmula 1.

Fato é que muitos fãs fiquem apreensivos e o histórico não é dos melhores. Depois que comprou a MAXIS, a EA praticamente matou Sim City – que foi substituído no coração dos fãs do gênero pela série Cities. Será que o mesmo aconteceria com a série F1 da Codemasters? Já adianto que não – embora o tempero EA esteja ali.

BRAKING POINT E O BOM DAS ARTES ELETRÔNICAS

Como tudo na vida, temos o lado bom e o lado ruim. Na aquisição da Codemasters, o temor da maioria dos fãs é que houvesse um “efeito Ultimate Team” em F1 e que os modos offline – como o Carreira – fossem largados. No Madden, embora recentemente a coisa pareça caminhar bem, foi assim.

A loja de “cosméticos” está mais poderosa para a edição 2021 do que era até então. Você pode comprar adesivos para o halo, novas texturas para seu carro no modo My Team e todo o resto. O modo Carreira teve uma interface simplificada – o que não faz com que tenha perdido elementos, apenas a questão da apresentação das melhorias possíveis no carro. É algo que a EA pretende fazer para atrair mais fãs casuais e assim o fez. Os treinos estão menos maçantes também. Agora temos o treino de ritmo de corrida, o de ritmo de classificação e o de gestão de ERS – eles dão os pontos que você usará para melhorar o carro. Ficou menos tedioso, mas sem perder profundidade.

O golpe de mestre, porém, foi alinhar as narrativas com aquela que é a principal responsável por um surto de popularização da Fórmula 1: a série Drive to Survive, da Netflix. Já falei sobre outras vezes, mas de toda forma repito. A série documental foi importante para mostrar que a categoria tem inúmeras narrativas, pressões, rivalidades e aspectos humanos que vão além de Lewis Hamilton ou Max Verstappen ganharem a corrida.

Calouros tentam mostrar seu valor, veteranos querem provar que ainda têm espaço no grid. Indo nessa toada e tentando replicar o que a Eletronic Arts já fez em Madden e FIFA, há um modo história roteirizado. Nele, você é Aiden Jackson e começa a história na última etapa do campeonato de Fórmula 2. Depois (spoilers breves) você sobe para a Fórmula 1 em uma das equipes médias ou fracas – Aston Martin/Racing Point, Alpha Tauri, Williams, Haas ou Alfa Romeo. São 16 capítulos, que culminam com a segunda temporada de Aiden na F1.

Como os modos carreira roteirizados de Fifa e Madden, tem o lado bom e o lado ruim. O lado bom é o aspecto narrativo, que certamente vai atrair novos fãs. O lado ruim é que em dados momentos remonta aos primórdios dos games interativos do Sega CD (Night Trap & Amigos), onde você não parece ter muito comando da história.

No terceiro capítulo, por exemplo, terminei em quarto lugar no GP da China – um feito e tanto para uma Williams. Isso em nada alterou o curso da história, que meio que considerou que eu cheguei em décimo e focou no conflito com meu companheiro de time, Casper Akkerman (claramente inspirado em Kimi Raikkonen).

E O RUIM: “CADÊ O CARRO QUE ESTAVA AQUI?”

O que impede o F1 2021 de ser literalmente o melhor jogo de Fórmula 1 que já joguei na vida? Fiz essa pergunta a mim mesmo quando comecei a montar o esqueleto deste texto. Deu-me uma sensação de faltar alguma coisa e de fato está faltando: carros clássicos. Há praticamente quatro edições sendo figurinha carimbada – tendo edições especiais como Senna x Prost e os carros da carreira de Michael Schumacher em 2020 – nós perdemos isso para 2021.

Isso é algo que incomoda porque a EA constantemente usa esse expediente. Algo some do jogo para alguns anos depois voltar como grande novidade. Simular partidas e entrar no meio delas? Grande novidade do FIFA 21 que os jogadores da época de PlayStation 2 já conheciam. Pro Bowl (jogo das estrelas) da NFL? Sumiu e ficou anos sem aparecer até ser alardeado no Madden 20.

Espere a mesma coisa para os carros clássicos – isso se eles não aparecerem totalmente como versão DLC ou nas versões mais caras/Deluxe do game. É uma pena, porque era muito bom pilotar carros antigos de vez em quando. Por enquanto, vou demorar a apagar o F1 2020 do meu SSD.

Segundo a Codemasters/EA, o objetivo foi de fazer a transição do PS4/Xbox One para a nova geração e os esforços foram para isso – e possivelmente para o Braking Point: “para F1 2021, focamos em melhorar a fidelidade visual das pistas atuais, do sistema de danos dos carros e o uso de ray-tracing em replays”.

COM 120 FPS, ESTOU NO COCKPIT, NÃO MAIS NA MINHA SALA

Em quesito jogabilidade, porém, nada chega perto do F1 2021 para a nova geração. Há duas possibilidades “gráficas”, por assim dizer: modos Gráfico e Performance. No primeiro, temos 4K e 60 FPS – no segundo, 1440 x 120 FPS. Pessoalmente, achei o segundo uma opção melhor – especialmente porque jogo com volante e sem assistências.

Haver uma taxa maior de quadros por segundo ajuda imensamente na correção do carro quando ele está saindo de dianteira ou traseira – sem contar as correções ao longo do traçado. A melhor resolução, no geral, ajuda a ver melhor os pontos de frenagem e/ou marcas de pneu na pista. Em algumas perseguições e usando fone, parecia que eu não estava mais na minha sala e sim no cockpit. Quando/se o jogo tiver suporte para VR, aí a coisa vai ficar outro patamar. Mas por ora, já é uma mudança para lá de bem-vinda. A meu ver, jogos de tiro (FPS) e corrida estão entre os gêneros mais beneficiados no salto de geração e de quadros por segundo.

VALE O PREÇO?

Por ora? Não. O salto de geração foi significativo, tal como outros jogos esportivos, mas sabemos que não é como se nossa economia estivesse ultra forte no momento e o aumento do dólar subiu o preço dos jogos por tabela.

F1 2021 traz consigo esse aumento em quadros por segundo que pessoalmente acho incrível, mas há traz fatores que me fazem recomendar que você espere por uma promoção. O primeiro é que o jogo vai ficar datado muito rápido – o regulamento de 2022 da Fórmula 1 prevê um carro totalmente diferente em relação ao deste ano.

O segundo é que faltam pistas. Imola e Portimão, que fizeram parte do calendário deste ano, não estão no jogo – ainda, mas serão adicionadas depois como DLC gratuito. E, por fim, a ausência dos carros clássicos, que provavelmente voltam no ano que vem.

Isso tudo não impede que recomendemos o jogo, que em termos de jogabilidade e gráficos é o melhor que já tivemos em toda a história dos videogames. Há a parte boa da EA, com as narrativas do Braking Point, e o ruim – com o “sumiço” de conteúdo. Mas mesmo os mais pessimistas em relação à aquisição da Codemasters podem considerar que por enquanto, está valendo a pena.

Observação: Para a análise, usei um volante Logitech G29 com todas as assistências desligadas.