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Persistência e sonho: A ascensão de Lahgolas, comentarista do CBLoL Academy

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"Não achei que fosse acontecer tão rápido", conta Krastyel sobre chegar à grande final do CBLoL (4:19)

O jogador da Vorax também fala sobre o estilo de jogo da equipe (4:19)

O CBLoL Academy se aproxima do final do seu primeiro split. Neste início de trajetória, dentro do novo sistema de franquia, o cenário brasileiro de League of Legends foi surpreendido pelas meninas que jogariam no Academy e a contratação de novos nomes para seu quadro de casters.

Então, a “voz” do CBLoL Academy se estabeleceu no talento de Ravena Dutra, Maria Julia “Fogueta” e Layze “Lahgolas”.

O ESPN Esports Brasil conversou com Lahgolas para saber mais sobre sua história e o que a levou para as transmissões do recém criado CBLoL Academy.

O INÍCIO DE LAHGOLAS NOS GAMES

O videogame sempre fez parte da vida de Layze. Ela conta que começou a jogar entre 4 e 5 anos de idade, ainda nos consoles, como Master System, Super Nintendo, Playstation 1 e 2. Mesmo ocupada com os estudo e aulas de natação (ela praticou dos 3 aos 15 anos), sempre arrumou um tempinho para se dedicar aos games, pois era uma forma de se conectar um pouco mais com sua família.

“Sou filha única, então meus pais viram uma oportunidade de passarem um tempo comigo. Passamos muito tempo juntos, era muito bom. Íamos à locadora no final de semana para alugar fitas dos jogos que queríamos. Jogamos com meus primos também e todos passavam o final de semana inteiro juntos”, confessa.

“Na minha infância, o computador não era tão acessível. Era muito caro e não tínhamos condições de ter um. Tive um computador em casa por um período muito curto de tempo, uns meses apenas. Nessa época a internet era discada, então só podia jogar de madrugada. Por isso, a maioria dos jogos que eu costumava jogar eram offline mesmo”, conta Layze.

Seu primeiro jogo de PC foi Doom 95, mas ela só começou jogar de forma online na época que fazia faculdade, aos 18 anos.

DO DIREITO À COMPUTAÇÃO

A vontade de trabalhar com jogos surgiu ainda na infância, enquanto Layze assistia um programa de entrevistas na MTV. Nele, o entrevistado era um “alfa tester”.

“Nem sabia o que era ‘alfa tester’, mas ele explicou que testava os jogos antes do lançamento. Não era nem do Brasil e ele basicamente ficava jogando videogame o dia inteiro, testando games novos e ganhando bem pra fazer isso. Pensei: ‘é o emprego dos sonhos, quero isso pra mim’. Só que naquela época era um sonho um pouco distante, pois não conhecia nada na minha realidade que pudesse me levar naquela direção. Na minha cabeça era algo impossível, mas mantive os jogos na minha vida e continuei jogando sempre que dava”, comenta.

Ela se formou em Direito em 2010 e exerceu a profissão por uma bom tempo. Só que seu desejo era se reaproximar dos games, já que havia parado de jogar durante a faculdade pela falta de tempo. Então, em 2014, ela prestou o Enem para a faculdade de Computação e começou o curso na Federal do Maranhão em 2015.

“Cursei alguns períodos, aprendi a programar e construir meus próprios jogos. Foi aí que me deu aquele estalo: seria difícil eu começar a jogar e ganhar dinheiro, mas poderia fazer meus próprios jogos. Eu poderia estudar mais programação e desenvolver meus jogos”, conta Layze.

“Minha ideia era desenvolver uma categoria chamada de ‘Jogos Sérios’, voltado para a educação e auxílio em alguma área específica. Por exemplo: meus pais são fonoaudiólogos, então minha ideia era fazer jogos que ajudassem em terapias no campo deles, para ajudar pessoas em reabilitação de uma forma geral. Programei durante um bom tempo, mas como um hobby, nada muito profissional”, diz.

Só que uma ‘crise existencial’ fez Layze refletir sobre o que, de fato, queria para a vida. Foi nesse período de reflexão (em 2016) que conheceu League of Legends graças ao seu namorado – hoje marido.

“Resolvi aprender mais sobre o jogo, procurei vídeos para aprender e descobri o cenário competitivo do LoL. Era um negócio imenso, com todas aquelas equipes. Fiquei chocada em por não visto isso antes, sabe? E aquela vontade de trabalhar com games sempre ali comigo. Então, joguei mais, aprendendo cada vez mais, sempre como hobby, mas nunca descartando a possibilidade de me tornar uma profissional”, relembra Layze.

Só que como acontece com muitas meninas nos jogos online, Layze também deixou o LoL um pouco de lado por causa da toxicidade do game: “Gostava muito do jogo, mas fui parando porque não me divertia tanto assim. Toda vez que ia jogar, era um rage desnecessário de outros jogadores e aquilo foi me incomodando muito. Até porque o LoL foi o primeiro jogo competitivo online que joguei. Eu vim de títulos de MMO e RPG, onde a comunidade se ajuda, joga juntas. Era muito diferente e foi um choque pra mim a forma como a comunidade do LoL é extremamente tóxica durante as partidas”, afirma.

DESCOBRINDO A VOCAÇÃO

Em 2019, Layze “Lahgolas” decidiu, depois de assistir a um campeonato feminino promovido pelo coletivo Sakuras, que se dedicaria ao League of Legends. Aprenderia mais, silenciaria o chat e se focaria no game da Riot.

“Fiquei encantada ao ver o cenário feminino nascer. Acompanhei o campeonato pensando que, no próximo, estaria lá também, porque queria fazer parte disso tudo. Em 2019, participei de um campeonato, também da Sakuras. Nosso time perdeu logo na estreia porque enfrentamos um time bem forte, mas a experiência num todo foi muito bacana”, lembra Layze.

“O desejo de começar a fazer stream começou a crescer em mim. Ainda em 2019, abri minha primeira live, mesmo sem a estrutura que tenho hoje, sabe? Usei a câmera do meu celular como webcam, um abajur com papel manteiga como iluminação, mas era uma tentativa do que eu queria fazer. Foi importante para entender se conseguiria trilhar um caminho profissional a partir daquilo. As transmissões duraram cerca de 1 semana, porque, infelizmente, tive que me desfazer de algumas peças do meu computador para resolver alguns problemas”, revela.

O sonho de ser streamer não morreu para Layze e voltou às lives em março de 2020, aos pouquinhos. Conquistou uma comunidade, aprendeu mais sobre a plataforma e sempre estudou. Pouco tempo depois, descobriu que o coletivo Sakuras estava fazendo uma seleção para streamers - e se candidatou.

“Não tinha muitas esperanças, sabe, mas acabei sendo selecionada. Em agosto, fiz minha primeiro stream oficial no canal da Sakuras e foi justamente no dia da estreia da Harumi, da Rensga, no Circuitão. As meninas que estavam no chat da transmissão da Sakuras combinaram de ir para o Discord assistir juntas o jogo. Foi especial, pois ver uma garota jogando assim mexe muito com a gente. Durante essa reunião, uma das meninas virou para mim e falou ‘poxa, você comenta muito bem, nunca pensou em ser caster?’. Respondi ‘não, nunca tinha pensado nisso”, lembra Layze.

Em mais um dos campeonatos organizados pela Sakuras, dessa vez destinado ao modo Blitz do Nexus, Layze foi convidada para ser comentarista. “Fiz e o feedback foi muito positivo, curti demais fazer aquilo! Em seguida, fui convidada para a Copa Wakanda, que é outro coletivo que também participo e o feedback desse campeonato também foi super positivo. Pensei: ‘as pessoas tão gostando do meu desempenho e estou gostando de comentar, então vou investir na minha carreira de caster’. A partir daí eu comecei a estudar bastante sobre o jogo e tudo o que diz respeito ao casting. Coloquei até em minhas redes sociais que eu era comentarista de LoL e tudo mais”, brinca.

O campeonato de maior visibilidade para Layze “Lahgolas” foi o Ravenão, organizado por Ravena Dutra, também comentarista de League of Legends.

“Atuei no cenário amador, fiz algumas ligas universitárias e vários outros campeonatos menores, sempre com o objetivo de melhorar e evoluir a cada evento. Em janeiro, recebi o convite da Riot, no qual estavam procurando novas vozes para o cenário. Eles estavam de olho em mim já há algum tempo e isso me deixou muito surpresa, já que não fazia nem 6 meses que começara como caster. Disseram que ‘viam muito potencial no meu trabalho e que poderia evoluir muito no Academy’, então fiquei muito feliz. Desde que comecei como caster, era óbvio que mirava a Riot, mas não esperava que fosse acontecer tão cedo”, confessa.

A ficha ainda não caiu, segundo Layze: “Ainda estou me acostumando, sabe. É muito grande. Fico muito feliz com essas minhas conquistas, pois são a prova de que todo meu esforço valeu a pena. Quando comecei a comentar, não parei as streams. Ainda trabalhava, de manhã e de tarde, chegava em casa e transmitia das 19:00 à meia noite. Tinha pouco tempo, que usava pra estudar. Ver o quanto evolui nesse tempo é gratificante demais”.

REVELAH CASTERS

O ReveLAH Casters é um projeto organizado por Layze ‘Lahgolas’ para ajudar a profissionalização de meninas na área de casting para o cenário de esportes eletrônicos.

“A minha ideia é usar a visibilidade que tenho com o Academy para ajudar o cenário feminino de alguma forma. Pensei em oferecer uma mentoria para meninas que querem entrar no cenário como casters e fazer um acompanhamento com elas. O feedback de quem que participa do projeto - atualmente em 23 meninas – é bastante positivo. Elas tão gostando bastante”, comemora Layze.

O projeto também conta com workshops e palestras, como no caso de Saeky, que conversou com as meninas e deu diversas dicas no que diz respeito a narração. Outro encontro muito importante foi com doutora Márcia Menezes, fonoaudióloga oficial da Riot Games, que passou um tempo conversando com as meninas do projeto sobre a voz. A doutora deu dicas, respondeu as dúvidas, dentre outras coisas”.

“A ideia geral do projeto profissionalizar as mulheres para entrarem no cenário. Quero ver mais mulheres profissionais no mercado, não apenas no LoL, mas em todos os jogos. Óbvio que consigo dar essa mentoria no LoL, porque é o jogo que eu ‘vivo’, mas a ideia é trazer outras pessoas para falar de outros títulos. Aos poucos, vamos recebendo essas ajudas da comunidade, que são muito úteis e importantes pra manter o projeto vivo”, diz Lahgolas.

Quando perguntada da presença feminina em League of Legends, Layze conta que, na sua opinião, o cenário já mudou bastante e vem evoluindo justamente pela presença de casters mulheres no CBLoL Academy (na transmissão oficial).

“As organizações estão dando um pouco mais de atenção para as meninas que jogam em alto nível. No Inhouse Jinx, por exemplo, tem muitas garotas que jogam bem demais e que já estão sendo notadas. Fazer lives e transmitir os jogos são formas de ajudar o cenário, porque mostramos para as organizações o potencial que as jogadoras têm”.

“Ainda há muita coisa para alcançar, mas o caminho que começamos a percorrer nos últimos anos está começando a dar frutos. Temos que continuar nos esforçando para fazer isso dar certo. Acredito que são ações como essas - que deram minha primeira oportunidade - vão abrir portas para outras mulheres se descobrirem profissionalmente e atuarem no cenário. Com essas barreiras sendo quebradas, a tendência é que tenhamos mais mulheres atuando no cenário, não só como casters ou jogadoras, mas em qualquer função”, finaliza Lahgolas.

Julia Macalossi é apaixonada por games e esports e colunista no ESPN Esports Brasil. Siga-a no Twitter e Instagram.