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Do Circuito Desafiante ao CBLoL Academy: Conheça Ravena Dutra

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League of Legends possui um dos cenários competitivos mais bem estruturados dos esportes eletrônicos. Dentre seus grandes torneios, que movimenta milhões de fãs por todo, podemos citar o Campeonato Brasileiro (CBLoL), o Mid-Season Invitational (MSI) e o Mundial (Worlds). É também o responsável pela popularização dos esports no Brasil.

Seu cenário feminino, no entanto, ainda precisa de muita lapidação para chegar em patamares como do jovem VALORANT - seu “jogo irmão”.

Quando pensamos no cenário feminino de League of Legends, alguns nomes nos vêm à cabeça: Sjokz, apresentadora belga do Campeonato Europeu, Froskurinn, comentarista na Liga Europeia, Leticia Motta, ex-analista de LoL, Tawna, ex-apresentadora, dentre outras forças do esports, como Ravena Dutra.

QUEM É RAVENA DUTRA?

Ravena é comentarista no CBLoL Academy de 2021, ao lado de meninas incríveis como Layze “Lahgolas” e Maria Julia “Fogueta”.

Apegada aos videogames desde pequena, seu primeiro contato com jogos online não foi League of Legends, mas com Warcraft 3: “sempre fui viciada, ia para casa da minha avó porque havia um lan-house próxima. Ganhei meu primeiro computador aos 9 anos e aí comecei a ter mais contato com jogos mesmo. Nos títulos online, meu primeiro jogo foi Warcraft 3, que marcou muito minha vida. Era extremamente viciada nele, minha mãe chegava a brigar comigo para sair do computador, sabe?”, comenta Ravena.

“Quando League of Legends foi lançado (2009), todos os meus amigos migraram para a novidade e eu, cabeça dura, fiquei no Warcraft. Não queria ir, mas não tive escolha, pois todos meus amigos tinham me ‘abandonado’. Comecei a jogar LoL, lá pro finalzinho de 2012, na Temporada 2. Relutei tanto, mas acabei gostando muito do jogo, de sua dinâmica que lembrava bastante Dota, que a gente tinha lá no Warcraft”, completa.

A paixão pelo game só cresceu. Em 2014 ela criou seu canal no YouTube para compartilhar seu conhecimento do jogo, fazer análises de atualizações e postar vídeos de gameplays. Ser uma youtuber famosa era o que a Ravena de 2014 queria e ela acabou ganhando certa visibilidade.

Ravena lembra que seu primeiro contato com o competitivo do game foi em 2015, no All Stars, torneio internacional amistoso que reúne os nomes mais votados e aclamados pelo público de cada região no LoL.

“Não tinha intenção de trabalhar com o jogo, mas foi algo que desenvolveu tanto, que em 2016 me chamaram para ser apresentadora de uns quadros de esports do Circuito Desafiante. Teria que fazer análises, criar conteúdo e topei a tarefa”. O Circuito Desafiante era promovido pela XLG, empresa responsável pela primeira contratação da Ravena dentro do cenário de esports. O campeonato é a 2ª divisão de LoL, abaixo do Campeonato Brasileiro de League of Legends, que representa a 1ª divisão.

“Foi meu primeiro passo dentro dos esports. Meu objetivo sempre foi ganhar a vida com jogos, mas como sou formada em Tradução, queria trabalhar com localização de games. Só que a vida de caster foi acontecendo e fui aproveitando, gostando de fazer as gravações, participações, de ter esse contato com o competitivo”, confessa Ravena.

“Fiquei 1 ano na XLG e tive a oportunidade de ir até ComicCon nos EUA. Essa oportunidade me abriu os olhos para o cenário competitivo, pois pude ver como que funcionava por dentro, tive contato com os jogadores, com a produção por de trás do campeonato. Infelizmente não consegui continuar com a XLG porque morava em Uberlândia e quando o Circuito Desafiante foi pra Promo Arena, eles precisavam de tudo no Rio de Janeiro”, lembra Ravena.

Quando o contrato com a XLG acabou, Ravena ainda queria manter seu trabalho como apresentadora no cenário de esports. Por isso, conta que correu atrás de uma maneira de continuar seu sonho e encontrou uma saída em um campeonato feminino do grupo do Facebook da organização Ilha da Macacada.

“Teve um campeonato feminino da Ilha da Macacada, inclusive acho que foi o primeiro campeonato feminino que organizado no Brasil, e as meninas precisavam de uma comentarista. Foi aí que comecei a curtir o cargo. Passei a estudar ainda mais, me preparar para estar em outros campeonatos depois desse. Fiz vários eventos com a Ilha, participei de outros campeonatos pequenos, feitos em eventos de animes, campeonatos universitários também”, conta Ravena.

Com uma bagagem gigantesca em campeonatos, Ravena foi enriquecendo seu portfólio e agarrando todas as oportunidades que surgiam para sempre melhorar na sua posição.

O SONHO DE ESTAR NA RIOT GAMES

“Desde que comecei a trabalhar de fato com esports, meu sonho era entrar na Riot (responsável por League of Legends). Queria estar junto das pessoas que admirava, sabe? Os jogadores, os casters, queria ter essa oportunidade. Estava desde 2016 lutando para Riot me notar, e meu primeiro contato com eles foi em 2019, por causa do programa ‘Depois do Nexus’, diz Ravena.

O Depois do Nexus é um programa que vai ao ar toda segunda-feira, após o CBLoL, com convidados entre jogadores, analistas e personalidades do cenário, para repercutir as partidas do final de semana.

“Nem acreditei quando recebi o contato deles. Até então, eu mandava emails, alguns com meu portfólio, falando que queria muito uma oportunidade. Não recebia respostas. Estava morando em Uberlândia, trabalhando e finalizando minha faculdade. Morava com minha mãe e meu irmão. Manteria minha vida ‘normal’ ou ia me focar 100% no esports. Sentia que a vida que tinha lá estava me travando muito, não tinha tempo para participar de campeonatos. Trabalhava 8 horas por dia, além da faculdade. Era uma carga horária muito pesada e, às vezes, fazia os campeonatos muito cansada. Não conseguia me dedicar como gostaria”, relembra.

Também em 2019, aconteceu o Girl Gamer Festival, campeonato que deu uma visibilidade gigantesca para Ravena - até mesmo internacional - sendo um dos primeiros campeonatos presenciais que ela participou.

“Foi por causa da visibilidade que o Girl Gamer me deu que decidi mudar o rumo da minha vida, me dedicar aos esports. Sai de Uberlândia e vim para São Paulo, sem nenhuma expectativa”, conta Ravena.

Lembra que a Riot não respondias as mensagens de Ravena? Pois ela veio: “lembro que eu estava em Uberlândia quando recebi a ligação da Riot. Estava visitando meus pais quando a Riot entrou em contato. Eles disseram ‘Ravena, estamos querendo te trazer para o Depois do Nexus, gostamos muito do seu trabalho’. Chorei muito, tamanha minha felicidade, sério”, admite Ravena.

Estar em um programa oficial da Riot foi um sonho realizado, mas o melhor ainda estava por vir. A experiência acumulada com o Depois do Nexus foi grande e, para Ravena, participar de uma transmissão ao vivo e falar com pessoas que realmente entendiam do jogo foi totalmente diferente, algo que mudou sua perspectiva que tinha do cenário.

“No final de 2020, queria dar um passo maior. Com a vinda do sistema de franquias para o CBLoL, eu já imaginava que o casting ia mudar. Então pensei ‘é a minha chance’. Precisava tentar. Então, fui atrás, mostrei meu trabalho para eles, disse que a posição que mais me sentia confortável era de comentarista, trabalhava com isso desde 2016 e tudo mais”.

“Depois de um tempo, já estava praticamente desistindo de ser caster para a Riot. Já estava quase fechando com uma organização para ser analista deles quando recebi mais uma importante mensagem da Riot, formalizando o convite para ser comentarista do Academy. Explodi por dentro! Fiquei muito feliz, era o que eu queria, um passo grande na minha carreira”, comemorou Ravena.

REFERÊNCIAS

Ambiciosa, ela ainda pretende ter um CBLoL e um Mundial no currículo. Por isso, se prepara e estuda como nunca. “Para mim, só a oportunidade de estar ali, sendo preparada pra ter um crescimento, para quem sabe mais pra frente conseguir essas oportunidades, já fico feliz”, confessa.

Esse ano, Ravena comenta que teve que declinar um convite para ser comentarista na LEC, pois o Academy tomou seus dias e porque acredita que tem que melhorar seu casting em sua língua nativa: “sinto que preciso melhorar, mas tenho interesse em ligas internacionais, até mesmo para não acabar estagnada eventualmente”, diz.

Quando questionada sobre sua maior referência na carreira, Ravena assume que era, a princípio, Sjokz. Depois que conheceu Froskurinn, porém, passou a admirar ainda mais a comentarista, principalmente pela semelhança de cargos.

“Quando comecei, não tinha nenhuma mulher aqui no Brasil para me inspirar. Conhecia a Sjokz e ela foi minha inspiração. Só fui conhecer a Frosk depois. A Sjokz foi minha primeira inspiração, do tipo ‘quero chegar lá aonde essa mina chegou’. Apesar de ela não ser comentarista, sempre teve uma postura muito interessante, um conhecimento de jogo muito legal, que agregava demais às mesas de análise. Por mais que tivéssemos papéis diferentes, me inspirava muito nela por ser uma referência no Brasil. Foi uma das coisas que me deu mais combustível para continuar lutando por esse sonho aqui”, diz Ravena.

O CENÁRIO FEMININO E O RAVENÃO

O competitivo feminino de League of Legends ainda é muito pequeno se comparado a outros cenários, mesmo que recentes, mas, na opinião de Ravena, falta maturidade das jogadoras e investimento por parte das empresas.

“É um trabalho muito difícil desenvolver o cenário feminino do LoL. Quando foi criado, lá no começo, os campeonatos se adaptavam e se moldavam à agenda das meninas. Hoje não é mais assim, sabe? Por isso, acho que existe um certo receio das empresas em não querer fazer esse tipo de evento”, comenta.

“Gostaria muito que o cenário feminino fosse melhor, tanto que criei o ‘Ravenão’ para tentar ajudar, fomentar e movimentar o cenário, porque uma das coisas que mais me dói é vê-lo parado, sem que as empresas façam investimentos”, lamenta Ravena.

O Ravenão aconteceu em maio de 2020 e foi um torneio amistoso entre equipes femininas. O evento teve sua versão 2.0, realizada em outubro de 2020 e contou com uma estrutura um pouco mais profissional, sendo realizado entre dias 3 e 17 de outubro, com direito a chave de vencedores e de perdedores.

“No Ravenão 2.0, tentei trazer uma coisa mais profissional, para dar essa experiência às meninas. Limitei o elo, deixei só jogadoras do nível Platina para cima jogar. Não foi só um final de semana, tivemos todo um circuito, com chance de repescagem e tudo mais. Eu me inspirei no modelo que o Girl Gamer tinha, que foi um campeonato super profissional”, diz.

Quando questionada sobre uma nova versão do campeonato, Ravena se mostra disposta: “Queria muito que ele fosse algo recorrente, mas é complicado porque fiz tudo sozinha nos dois. Sempre me cobro muito em elevar o nível do campeonato, mas não tenho agenda pra cuidar de tudo sozinha de novo. Trabalho tanto com o Academy quanto com o SBT Games, então fica muito apertado conseguir tempo para viabilizar isso de novo, mas quero muito trazer ele de volta”, confessa Ravena.

Assim como Sjokz foi sua inspiração e Froskurinn agora ocupa o cargo, Ravena também é inspiração para outras meninas que querem seguir a carreira como comentarista de League of Legends.

“Fico muito feliz quando as meninas mandam mensagens falando que sou uma inspiração para elas, era algo que sempre quis. Como disse, não tive nenhuma referência aqui no Brasil, então queria me tornar essa referência. Ver que isso aconteceu é muito doido. Venho trabalhando, me cobro muito, principalmente em meus erros e acho que tenho muito a crescer ainda”.

“Meu sonho é chegar no nível da Frosk um dia. Ela passa uma confiança absurda, sabe se estruturar muito bem numa conversa em relação à mesa de análise e tudo mais. Gostaria muito de ter um pouquinho do que ela tem. Ainda não me vejo no patamar que gostaria, mas estou feliz de ser inspiração para outras meninas”, admite Ravena.

DICAS DA RAVENA

Para quem está iniciando na carreira como caster - independente do jogo - Ravena dá algumas dicas:

“Uma coisa que não fiz e me atrapalhou um pouco meu crescimento foi trabalhar minha imagem nas redes sociais. Sempre comente sobre as ligas, sobre o que está acontecendo dentro do cenário competitivo. Outra coisa muito importante é ter um portfólio. Demorei bastante para criar o meu e foi algo que me atrapalhou bastante também. Hoje, praticamente todo campeonato que você for trabalhar, vão te pedir um portfólio de referência”, alerta.

“E tem mais uma coisa, superimportante: dar a cara a tapa. Algo que sempre digo para as meninas que me procuram é que, infelizmente, as empresas não vão atrás de você. É você que tem que ir atrás das oportunidades”, completa.

Agora, para meninas que querem seguir uma carreira como jogadora profissional, a dica é “assistir bastante VOD, entender um como o competitivo funciona (porque é totalmente diferente do amador) e estar sempre antenada no que acontece no meta”.

“Assim como para quem quer ser caster, chama bastante atenção das organizações se você tem um portfólio com os campeonatos já participou, sabe? Outra coisa é deixar explícito em suas redes sociais que você é jogadora, que você é caster, analista, comentarista etc. E mais uma vez: vá atrás de oportunidades, não espere elas virem até você.”

Julia Macalossi é apaixonada por games e esports e colunista no ESPN Esports Brasil. Siga-a no Twitter e Instagram.