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Superliga Brasileira da Diversidade reúne times com pessoas que fogem do estereótipo padrão de gamer

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Nesta terça-feira (17), teve início a Superliga Brasileira de Diversidade, campeonato que tem como objetivo reunir times formados por pessoas que fogem do estereótipo padrão de gamer: negros, mulheres, cadeirantes, surdos e que fazem parte da comunidade LGBTQIA+.

Iniciativas para a inserção da minoria no cenário de esports são cada vez mais comuns e pessoas lutam diariamente para que o tema seja vez mais abordado. Um exemplo é a Suuhgetsu, intérprete de libras que faz um trabalho fantástico ao levar conteúdo de games e esports para surdos; e a Wakanda Streamers, iniciativa voltada para reunir, integrar e impulsionar a comunidade preta nos esportes eletrônicos.

Com a intenção de reunir todos esses grupos, Andre “NerdSurdo” Santos, idealizador da Liga dos Surdos, criou a Superliga Brasileira de Diversidade, campeonato que está acontecendo desde o dia 17/11 em conjunto com as organizações Sakuras, Streamholics, Furnace Esports, Wakanda Streamers e Projeto Fierce.

“Na Liga dos Surdos, não queremos que os surdos fiquem em uma ‘bolha’. Isso não é inclusão. É mais segregação, você está separando as pessoas... Queremos vê-los em outros campeonatos. Eu já tinha pretensão de colocá-los para jogar em campeonatos de fora (da Liga dos Surdos), para não ficar só entre eles. Queria que conhecessem ouvintes, para se testarem e evoluírem seu jogo. Nós tentamos alguns campeonatos, mas não deu muito certo. Com frequência os surdos eram humilhados, então resolvemos parar”, lamentou André.

Infelizmente, ainda ocorrem muitos casos de preconceito nos esportes eletrônicos. A criação de cada um dos projetos que fazem parte da Superliga BD foi essencial para que as comunidades - que são minorias - se unissem e formassem um grande grupo, lutando cada vez mais contra todo o tipo de preconceito nos esports e trazendo a inclusão para todo o cenário.

PEDRAS NO CAMINHO

“Quando comecei a Liga dos Surdos, uma das maiores dificuldades foi a narração. A gente não tinha narrador, porque todo mundo que eu convidava não tinha tempo ou precisava ser remunerado. Era tudo na base do voluntariado e eu não tinha grana para isso”, lembra André.

Garra e força de vontade definem bem NerdSurdo, que não deixou as adversidades afetassem a sua vontade de fazer o bem e de trazer a inclusão. “Antes de sair do papel, eu já estava inquieto, como se isso não se algo não tivesse certo, sabe? Como se aquilo ali não fosse o melhor que eu pudesse proporcionar para os jogadores da Liga dos Surdos. Eu estava vendo a forma como eles eram tratados e não me sentia bem”, diz André.

A ideia da Superliga Brasileira de Diversidade veio enquanto ele assistia a uma palestra, algumas frases ficaram gravadas em sua memória: “se você quer algo bom para você, tem que arregaçar a manga e ir atrás, tem que fazer acontecer. Não dá para ficar parado, esperando que tudo aconteça se você não faz a sua parte”.

“Depois de ouvir estas frases inspiradoras, pensei ‘pô, por que não fazer algo que seja de fato aberto?’. Aberto no sentido de, não só surdos, mas com outras inclusões, como pretos, deficientes, mulheres, comunidade LGBTQIA+? Por que não agregar? ’ Pensei que poderia fazer algo meu e chamar alguns convidados. Mas que representatividade eu teria num evento como esse? Óbvio, tem o fato da minha surdez, mas e se criasse um campeonato para falar de jogadores pretos e tivesse um jogador preto”, se perguntou NerdSurdo.

A Superliga BD foi criada pensando em dar legitimidade a todas as causas, juntando pessoas que realmente representam essas comunidades no cenário, que normalmente são minoria, e dando para elas um espaço ainda maior.

“Depois que conversei com todos os projetos e eles abraçaram ideia, a gente começou a fazer reuniões, a realmente montar o esqueleto do campeonato. Vimos o que cada projeto poderia fazer, criar as regras - que de fato fossem inclusivas”, comenta André. “A gente foi pegando toda a experiência que cada um tinha e juntando, moldando tudo para que ficasse algo agradável”.

REPRESENTATIVIDADE ATRAVÉS DAS CORES

O logo da Superliga também representa muito do que eles tentam trazer para o cenário: “tem todo um conceito por trás… Tem uns cristais na composição, né? Vieram de uma ideia que tivemos em uma reunião, uma brincadeira entre nós de que seríamos os “Power Rangers” lutando pela diversidade. Só que não estávamos satisfeitos, até que veio o conceito de um cristal só, um prisma. A gente percebeu que não precisaríamos fazer todas as cores para ter uma representatividade”, afirma. “Um prisma tem a refração de luz, não é? Você tem todas as luzes decompostas, então por que a gente vai querer fazer todas as cores se temos um elemento que pode representar todas? ”, completou André.

Assim surgiu o logo, junto com a ideia dos troféus em cores diferentes, representando as quatro grandes vertentes da inclusão: azul para pessoas com deficiência em geral, preto para a comunidade preta, colorido da LGBTQIA+ e rosa que representa a luta feminina.

“Pensamos nisso e fizemos com o designer várias tentativas, até chegarmos na que escolhemos - e curtimos muito. Como disse, o importante é primeiro a gente goste, por que é para gente, nós somos as pessoas que passam por coisas negativas, que sofrem com a comunidade. A partir do logo, fomos construindo todo o conceito do campeonato e convidando as equipes. Eu, por exemplo, tenho três equipes da Liga dos Surdos, e lá há elos variados, do diamante à prata. Convidei a todos, porque queria que eles tivessem essa experiência. Como a gente vai saber quando eles vão ter uma experiência como essa de novo? ”, indaga André.

A diretoria do campeonato cogitou abrir as inscrições, mas, não tendo como garantir que os times que se inscreverem fossem realmente inclusivos, a ideia não foi para frente.

“Na primeira rodada (dia 17), a gente ficou super feliz e satisfeito em ver que o nosso trabalho deu certo, ficou muito legal, muito positivo. A energia de quem estava lá na transmissão, assistindo, dava para perceber, sabe?”, confessa.

A Superliga Brasileira de Diversidade também conta com a participação da Player1, organização que apoia a iniciativa. Todos os projetos envolvidos deram 100% do seu melhor e isso é perceptível através das streams, que podem ser acompanhadas pelo canal oficial da Superliga na Twitch.

“Uma frase que sempre me motivou muito foi dita por minha mãe: ‘que temos que pegar o limão e fazer dele nossa limonada’. Depois de ver esse campeonato acontecer, brinquei no grupo da diretoria, ‘estamos fazendo desse limão uma limonada’. É mais uma barreira que a gente enfrenta e, ao invés de ficarmos só sentados reclamando, transformamos em num desafio”, conta NerdSurdo.

SOMOS TODOS GAMERS

O desejo do idealizador do evento é que esse campeonato sirva para mostrar ao cenário de esports que é possível fazer coisas legais com minorias, para que as organizações tenham preconceito. Seja mulher, deficiente, surdo, preto, LGBTQIA+, somos todos gamers, todos unidos pelo amor que temos aos jogos.

“A gente também quer que isso sirva para abrir os olhos da comunidade de esports, para abrir portas para a inclusão de fato. É muito fácil falar nas redes sociais sobre inclusão, mas na hora de fazer, o que você está fazendo por essa comunidade? É uma forma de provocação, mostrar que se a gente, que tem pouco, traz um conteúdo de qualidade e um campeonato bacana, por que investidores não conseguiriam também?”, provoca Andre.

“A gente quer trazer experiências em várias frentes, queremos nos divertir com isso, como comunidade, sentir aquele calor gostoso do coração. Entrar no chat de uma stream e ver que tem um clima legal e positivo, que não tem aquela toxicidade e agressividade que estamos - infelizmente - acostumados. Estamos preocupados com tudo isso”, finaliza.

PROGRAMAÇÃO

A Superliga Brasileira da Diversidade acontece entre os dias 17 de novembro e 19 de dezembro na plataforma de esports Player1. A fase de grupos acontece de 17 de novembro à 04 de dezembro, e os playoffs começam no dia 08 de dezembro, com as quartas de final. As semifinais serão disputadas nos dias 12 e 13 de dezembro. Por fim, a grande decisão será no dia 19 de dezembro 2020.

O campeonato conta com a participação de 16 times convidados, que serão divididos em quatro grupos: Unikorns Red, Stormtiger Team, Gamer Squad Guardians, Team Innova, Unikorns Black, Match Found, KNO Gaming, Tchalla Esports, Anhembi Esports, Kanin, Furnace Esports, Gamer Squad Supernova, Probono, Quase Nada, ATS Esports e Unicamp Mermaids.

Para acompanhar as atualizações e ter mais informações sobre o campeonato, basta seguir a conta oficial no Twitter da liga.

*Julia Macalossi é apaixonada por esports e colunista do ESPN Esports Brasil. Siga a gamer no Twitter e Instagram.