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'Os esports estão na minha essência': uma conversa com Froskurinn

Froskurinn, comentarista de League of Legends. Riot Games

Os times de transmissão dos torneios de League of Legends da Riot Games fazem bonito em todas as regiões por serem divertidos, bem informados e competentes. No entanto, uma caster vem se destacando entre todos – e não só por suas roupas estilosas.

Indiana Juniper Black, ou apenas Froskurinn, é atualmente comentarista na liga europeia, a LEC, e tem conquistado e impressionado com seu conhecimento e suas opiniões fortes. Além disso, é uma voz importante – e uma inspiração – para outras mulheres e pessoas da comunidade LGBTQ+ que se interessam por esportes eletrônicos.

Por esses motivos, eu estava muito ansiosa (e nervosa!) com a chance de entrevistá-la durante o Mundial de League of Legends. Quando a oportunidade apareceu, aproveitei o máximo dos meus sete minutos para conseguir trazer um pouco da história de uma pessoa tão impactante no cenário.

Assim como diversos nomes do esporte eletrônico, Froskurinn – que significa “pequeno sapo” em islandês – conta que começou a jogar videogame desde pequena, em sua infância na cidade de Portland, Oregon, nos Estados Unidos.

“Minha mãe fez algum tipo de curso de Ciência da Computação e eu fui uma das primeiras crianças do bairro a ter um computador em casa e a saber como usá-lo. Acho que foi pela proatividade da minha mãe de entender que isso ia ser a próxima ‘onda’ da tecnologia”, lembra Frosk. “Minha primeira memória é de jogar Sonic no computador. A partir daí, tive vários consoles até chegar ao League of Legends”.

Mas como exatamente ela acabou nos esports? A comentarista explica que conheceu League of Legends por meio de seus colegas de faculdade e que, até então, era mais da turma dos consoles. No entanto, por ser competitiva, acabou se apaixonando pelo jogo

“Eu nunca tinha jogado Starcraft ou World of Warcraft, por exemplo, mas amei League of Legends e fiquei muito boa no jogo”, recorda. “Tentei ser jogadora profissional, mas eu não era boa o suficiente. Isso foi antes de existir o elo Mestre. Eu era Diamante I e tentei entrar em alguns times, mas não deu certo, então comecei a fazer transmissões”.

As transmissões de Frosk, inicialmente, tinham como foco assistir os jogos de seus espectadores e dar feedback, quase como uma técnica antes da profissão realmente existir. “Eu era praticamente uma técnica, mas eu chamava apenas de ‘fazer comentários’”, explica. “Então, alguém da ESL viu minha stream e me ofereceu uma chance de participar da transmissão de um torneio e hoje estou aqui”.

Antes do “aqui” significar “LEC”, no entanto, a caster passou por diversas experiências nos esports. Depois de sua estreia como comentarista em torneios como o Go4LoL europeu, Frosk deixou as transmissões de lado por um tempo para seguir a carreira de técnica pelas equipes RMU, Roar (quando fez um bootcamp na China) e Team Dignitas da Europa – tudo isso entre maio de 2014 e junho de 2015.

Froskurinn também ficou conhecida por fazer parte de um projeto de narração amadora da LPL, a liga chinesa, que ela considerava ser um “treinamento” para narrações do Challenger da liga norte-americana. No entanto, o projeto de Frosk chegou ao fim quando a Riot decidiu que teria sua própria transmissão da LPL. A solução? Se inscrever para fazer parte da equipe da Riot.

“Quando a Riot decidiu realizar a transmissão da LPL da Oceania, eu me inscrevi pra ser uma caster, eles me levaram pra Sydney. Então, quando a China decidiu abrigar a transmissão secundária no país, fomos de Sydney pra China”, conta.

Foi durante esse período na China que Froskurinn teve seu momento mais emocionante nos esportes eletrônicos até então. Ela reconta a narração que fez das finais regionais da LPL para o Mundial, quando a I May enfrentou a Team We e venceu por 3 a 2.

“O quinto jogo foi uma loucura, uma partida de 50 minutos, e a história de um dos jogadores me emocionou, tive um tipo de explosão emocional quando o AmazingJ agradeceu o público que estava torcendo em peso pra WE, e é até possível me ouvir chorando na transmissão”, revela com uma risada.

“Eu estava muito emocionalmente investida na história dele, que, infelizmente, não teve muita exposição para o público ocidental porque o time não era muito conhecido. Mas eu sempre digo que estar naquele estádio, naquela atmosfera, vendo o jogador conquistar seu sonho foi algo marcante”, descreve. “Eu entendo os esports, eles estão na minha essência, mas assistir aquilo faz todo mundo entender que isso é um esporte”.

Depois de cerca de três anos na China, a comentarista decidiu aceitar mais um desafio em sua carreira e anunciou sua ida para a LEC – um tipo de “retorno” para o cenário europeu. De acordo com Frosk, a grande diferença até o momento é o público.

“A audiência é bem diferente aqui, e é a primeira vez que estou interagindo com o público”, comparou. “Os fãs da LPL são muito gentis e generosos, e param a gente pra tirar fotos, mas não ouvem nossa transmissão por completo, só algumas coisas são traduzidas, então existe uma barreira linguística. Na Europa, o público te ouve, você consegue sentir a energia deles e pode interagir porque temos a mesa bem de frente pra ele, é uma experiência bem diferente, uma atmosfera única”.

Com o tempo da entrevista se encerrando, perguntei a Froskurinn que dicas ela daria para alguém que está interessado em seguir o caminho de comentarista. A resposta foi assistir com cuidado a gravação dos jogos.

“Quando eu assisto um VOD, eu questiono o draft de campeões da mesma maneira que faço nas transmissões. Mas, depois, eu pauso o vídeo e me pergunto: ‘OK, quais são as condiçõe de vitória da essência dessa composição?’. A essência da composição é a sua definição. É uma composição de poke, uma composição de 5v5, uma de 1-3-1…”, aponta Frosk.

De acordo com ela, é importante pensar nessas definições de composições e em aspectos que podem influenciá-la, como o ‘power spike’ de item, e encontrar entre cinco a sete condições de vitória. Então, é hora de fazer algumas predições de curto prazo.

“Essa predições podem envolver qual será o foco do early game das equipes, qual será o caminho escolhido pelo caçador, como as matchups vão funcionar quando se pensa em prioridade. Então, você assiste o jogo e vê se estava certo nas predições. Basicamente, meu trabalho é tentar entrar na cabeça dos jogadores. Se eu consigo fazer e passar isso pro público, consigo predizer o que os jogadores vão fazer”, detalha.

Mas é claro que nem sempre é possível descobrir o que um jogador está pensando, e tudo bem. Nesses casos, o importante é “traduzir o que está acontecendo” para os espectadores. “Penso que um analista ou técnico opina mais sobre qual é a melhor jogada, enquanto um caster apenas transmite o que os jogadores estão fazendo”, afirma.

Frosk continuará com esse trabalho neste final de semana, durante a grande final do Mundial de League of Legends entre FunPlus Phoenix e G2 Esports – um confronto dos times de sua antiga e atual liga. O confronto acontece em Paris, França, a partir das 9h de domingo (10).