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Da Europa à América: o impetuoso Ocelote, líder da G2 Esports, está construindo um império

Ocelote, de pro-player esquecido ao líder e ícone da G2 que olha para uma oportunidade imperdível para fazer Nova York a capital dos esports Riot Games

Enquanto Carlos Rodríguez Santiago caminha pelas ruas movimentadas de Manhattan, ele observa um império que espera que em breve seja seu.

O centro do mundo dos negócios, mas longe disso nos jogos, Nova York oferece uma nova oportunidade para o CEO de 29 anos que nos últimos seis anos construiu a franquia de esports mais popular da Europa.

Ao longo dos anos, Santiago conquistou a Espanha, a Alemanha e todo o continente, construindo franquias vencedoras de campeonatos - principalmente no League of Legends, o jogo que ele jogou profissionalmente. Esquecido como jogador profissional, o perfil de Santiago é de um divertido e competitivo executivo da G2 Esports, que aumentou seu estrelato significativamente em comparação com seus dias de glória de quando usava teclado e mouse.

Santiago agora tem um negócio de US$ 165 milhões que ele fundou após uma ideia que lhe ocorreu aleatoriamente enquanto estava no banco de trás de um táxi há mais de meia década. Em novembro, a G2 quase completou o grand slam do League of Legends - conquistando dois títulos nacionais, o Mid-Season Invitational e o Mundial de League of Legends - mas terminou como vice-campeão ao ser derrotado pela FunPlus Phoenix diante de milhares de fãs em Paris. Santiago está agora ansioso, concentrando-se nos aspectos positivos e nas coisas que estão sob seu controle: a cidade de Nova York é seu alvo.

Em dezembro, o co-fundador da Alibaba, Joseph Tsai - que comprou o Brooklyn Nets e o Barclays Center em agosto - investiu US$ 10 milhões na G2 Esports. Santiago, juntamente com sua esposa e filho, se mudarão para Nova York no final de 2020 e procurará dominar a região metropolitana e expandir as fortunas da G2 nos Estados Unidos.

"Nenhuma equipe parece estar aproveitando o quão grande é essa cidade", disse Santiago. "Nem mesmo a CLG, que foi comprada pelo pessoal do Madison Square Garden e eles não estão usando [o estádio]. Acho que não podem usá-lo. Não acho que eles não estejam equipados nem tenham a ambição necessária para assumir Nova York”. "Então eu irei". Santiago também chamou atenção de outra franquia de esports da cidade, a New York Excelsior. Está claro para o líder impetuoso da G2 que "eles não têm ideia do que estão fazendo". Santiago está apaixonado por Nova York, uma cidade que ele descreve como vibrante e movimentada, cheia de pessoas que curtem a cidade. Um ambiente franco e aberto aos negócios, onde procurar um escritório de canto em um arranha-céu é a regra, não a exceção. Uma cidade como ele.

"Eu gosto da alta energia", disse ele. "Eu gosto de alta octanagem. Segunda-feira de manhã, bam, bam, bam. Todo mundo trabalhando, todo mundo fazendo coisas - Fazendo a por$@ toda acontecer. Sem meio-termo - Essa é Nova York para mim."

Se alguém pode se encaixar na bravata de Nova York, é Santiago.

Quando Santiago fundou a Gamers2 em fevereiro de 2014, a equipe foi focada de uma forma muito específica para atender aos fãs espanhóis. Aqueles que fizeram Santiago ser um ícone que depois escreveu um livro. Os fãs que transformaram sua marca, o oceloteWorld - mais conhecido por vender os lenços de assinatura de Santiago – em um case de sucesso.

Agora poucos fãs pensam na G2 como um clube espanhol, exceto nos momentos em que são visivelmente lembrados com camisas com a bandeira da Espanha. Pelo contrário, a G2 é da Europa. Eles são o time mais popular do continente, um título que já foi disputado pelo rival de Santiago, a Fnatic.

Expandir para Nova York e os EUA parece ser o próximo passo lógico para a G2. A equipe foi uma das quatro equipes do Campeonato Europeu de League of Legends que se candidatou a uma das vagas de franquia na América do Norte (a G2 foi além dos outros três clubes no processo de inscrição, até mesmo recebendo uma entrevista com a Riot Games em Los Angeles). Eles foram finalmente recusados, mas seu desejo de se ramificar continuou. Quando a LCS europeia propôs um modelo geolocalizado, a G2 pediu para que a sede fosse em Londres. A empresa eventualmente acabou se mudando de Berlim para Madri em maio de 2017.

Em todos os lugares em que ele esteve nos últimos quatro anos, a personalidade contagiante e barulhenta de Santiago tomava conta da sala. Ele conta que era o palhaço que sempre era expulso da sala de aula, mas que via professor rindo de suas piadas ao passar pela porta enquanto estava indo para a diretoria.

O que é novo, porém, é a abordagem de Santiago. Nos últimos cinco anos, o ‘jogador que virou dono de um time’ reabilitou sua imagem pública - que estava entre as piores em League of Legends. A Gamers2 enfrentou escândalos de pagamento com treinadores, seguidos por declarações abrasivas nas redes sociais e no Reddit feitos por Santiago, que era implacável em sua teimosia. Ele acreditava que estava certo e ia contar a todos.

Como resultado, ele se tornou um vilão na comunidade League of Legends - um jogador arruinado tentando bancar o empresário.

Mas como a G2 continuou a crescer, o mesmo aconteceu com Santiago. Sua equipe subiu no ranking do League of Legends amador e acabou se classificando para o LCS europeia. À medida que os investimentos aumentavam, Santiago amadurecia. Agora, ele é amado por fãs e membros da comunidade e temperou sua personalidade com alguma empatia. Santiago, uma vez conhecido por sua cabeça quente, agora sabe quando dosar sua agressividade e quando é o momento certo para ser cruel e imprudente.

"Se eu ferrar tudo, eu vou ferrar tudo", disse ele. "Eu não posso voltar atrás. A melhor coisa que eu poderia ter feito foi não fo@$%r tudo. Qual é a segunda melhor coisa que posso fazer? Bem, aprenda algo e siga em frente".

No seu auge como jogador, a reputação de Santiago não era tão diferente do que é agora.

Naquela época, enquanto jogava na SK Gaming, Santiago, conhecido como "ocelote", era um dos dois melhores jogadores da Espanha, ao lado de Enrique "xPeke" Cedeño Martinez, da Fnatic. As batalhas frequentes e ferozes de seus times ficaram conhecidas como "El Clásico" para os fãs de League of Legends, levando o nome da rivalidade entre os dois melhores times de futebol da Espanha, FC Barcelona e Real Madrid.

"É sempre bom ter um Larry Bird e Magic Johnson", disse Santiago sobre seu antigo rival. "Quando você tem alguém que sempre está enfrentando e ambos estão melhorando com isso. Khabib-Connor. Há muitos exemplos por aí. Essa competição apenas traz o melhor das pessoas. Você não pode ser uma lenda sem ter alguém na sua frente que está fazendo tão bem as coisas que o mantém sempre alerta".

Ambos eram adorados e sua rivalidade criou um dos maiores momentos da história de League of Legends: o backdoor xPeke.

Em um jogo de 56 minutos diante de milhares em Katowice, na Polônia, xPeke se infiltrou na base indefesa da SK Gaming, enquanto seus oponentes faziam o mesmo no mapa. Esquivando-se das habilidades, Cedeño Martinez lamentou o nexo da SK e, em poucos segundos, venceu a agitada base rush. Santiago levantou-se da cadeira e colocou as mãos no rosto.

Ele gritou.

"Eu sei exatamente o que faria de diferente", disse ele. "Confie em mim, já fiz essa jogada na minha cabeça mil vezes.

"Eu acho que foi a melhor coisa que me aconteceu. Esse momento me ensinou que eu vou te ferrar em algum momento, do ponto de vista competitivo. Esse momento me ensinou que um dia eu vou te destruir tanto que nada o que aconteceu será repetido novamente".

Por fim, ocelote e xPeke seguiriam caminhos semelhantes. Ambos fundaram suas próprias equipes: Santiago lançou o Gamers2 e Cedeño Martinez formou a Origen. Ambos lutaram no lado comercial, incluindo escândalos de pagamento e outro incidente em que Santiago foi acusado de caçar dois dos melhores jogadores de Origen: o AD Carry Zven e o suporte mithy.

Mas Santiago se destacou, apoiando-se em mentores como o ex-CEO da ESL, Jens Hilgers, e Peter Mucha, COO da G2, que foi anteriormente executivo da Adidas e da Microsoft, para ajudar a guiar seu caminho. Santiago e Hilgers se conheceram quando Hilgers ajudou a organizar e falou em uma conferência sobre esports em Barcelona em 2014. Hilgers convidou Santiago, um dos jogadores profissionais mais famosos do país, para falar.

Durante o café antes da conferência, a conversa dos dois passou do que iriam discutir no palco da conferência para se tornar o objetivo de vida de Santiago e formar sua própria equipe. Hilgers, um investidor veterano em esports, queria ter uma equipe e o potencial de trabalhar no projeto despertou imediatamente seu interesse.

"Eu acreditava que uma pessoa que era jogador profissional e seria capaz de traduzir sua experiência de jogo em experiência profissional de gerenciamento seria a melhor pessoa para fazer parceria", disse Hilgers. "Eu percebi: 'Esse é o cara. Esse é o cara com quem eu quero parceria'".

Mesmo nos pontos mais baixos, como Santiago atraiu a ira de fãs e profissionais por seu comportamento agressivo online, Gamers2 permaneceu à tona. Origen se dissolveu e ressurgiu mais de uma vez: Eles agora são de propriedade do Astralis Group, que também possui a bem-sucedida equipe dinamarquesa de Counter-Strike. Mas a Gamers2 permaneceu firme e forte e acabou sendo renomeada como G2 e Santiago trabalhou para melhorar sua própria reputação e a de sua equipe.

"Se o Carlos de hoje enfrentasse situações semelhantes, ele teria reagido de maneira diferente? Sim, ele teria", disse Santiago. "Como está meu relacionamento com a comunidade agora? Fantástico. Durmo bem à noite sabendo que não vou deixar corpos para trás? Sim, eu durmo. É essa a realidade".

A vida fora dos negócios também mudou para Santiago. Em junho de 2016, nasceu o filho de Santiago.

"Isso me deu muita perspectiva", disse ele. "Ele me ensinou que quando você tem um dia ruim, vai para casa, vê sua família, não é tão ruim assim. Quando você tem um ótimo dia, vai para casa e vê sua família, algo aconteceu e não está tudo bem".

A vida familiar deixou Santiago mais humilde, diz ele, e o ensinou a ser mais empático. Para colocar os outros antes de si. Investir em outros. Olhar para coisas maiores que ele.

"Estou muito, muito feliz com o crescimento pessoal de Carlos", diz Hilgers. "O empreendedorismo nunca é apenas crescimento profissional. É sempre também crescimento pessoal por causa do que você passa. Acho que os dois lados de Carlos têm crescido tremendamente".

Entre os que Santiago está investindo está Luka "Perkz" Perković, o atual mid laner da equipe de League of Legends. Perkz é a estrela da G2 – que liderou a adolescência da equipe ao se qualificar para a LCS EU e construindo uma carreira na G2 que agora se estende por mais de quatro anos. Perkz visitou Santiago em sua casa durante o feriado de Natal, e os dois continuaram se reunindo fora do jogo.

Um dia, teorizou Santiago, Perkz poderia seguir seus passos para se tornar um executivo de sucesso.

"Muitas coisas estão certas", disse Santiago. "Se ele estiver disposto a aprender, crescer, receber feedback e críticas e receber uma resposta: 'Isso é péssimo, isso é péssimo e isso é péssimo', de 1.000 a 1 bilhão de vezes ao longo de alguns anos, ele pode se tornar muito, muito bom. Por que não? Estou aberto a essa ideia".

Perkz, Santiago e G2 têm algumas adversidades a serem superadas atualmente. A equipe perdeu sua primeira partida do campeonato europeu do League of Legends na última sexta-feira, contra a Misfits que vinha sem hype algum e que acabou destruindo os atuais campeões europeus. E depois caiu para a equipe do Schalke 04 que estava sem vitórias até o último sábado. A G2, no entanto, tem o score de 6-2 no LEC e tem mais chances de se recuperar e conquistar outro título europeu do que desmoronar sob o peso de algumas perdas surpreendentes.

Por enquanto, Santiago está confiando em Perkz e o ex-mid laner que virou AD, Caps - apoiando-se nos outros, outra lição que Santiago disse que aprendeu da maneira mais difícil - a tomar as melhores decisões para a troca de papéis. O objetivo final? Para mudar a maneira como League of Legends é jogado para sempre.

"É muito provável que, se esse time se manter unido e motivado a se unir, acho que veremos todos os anos o jogo se tornar cada vez mais solto", afirmou Santiago. "Não há papéis e todo mundo se move por toda parte. É como o caos. Caos controlado".

*Texto publicado originalmente no ESPN Esports