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Opinião: Mesmo sendo bom, Legends of Runeterra chega tarde ao mercado dos card games

Com mercado saturado de card games, Legends of Runeterra chega um pouco tarde na cena Riot Games

No dia 24 de janeiro, Legends of Runeterra chegou aos jogadores em sua fase beta. Como mencionei no primeiro texto sobre o game no ESPN Esports Brasil, em outubro de 2019, rumores sobre um jogo de cartas da empresa haviam vazado em 2013 e, no fim de 2018, a Riot registrou a marca Legends of Runeterra. Finalmente, na celebração de 10 anos do MOBA, pudemos ver o jogo que agradou não apenas a nossa redação, mas também influenciadores digitais de concorrentes, como Magic, e a própria comunidade de League of Legends.

Agora, com o lançamento do Beta, sinto que LoR chega atrasado ao mercado de card games digitais, que está extremamente populado. A situação do gênero é similar à vivida pela Riot quando viu concorrentes chegando ao universo dos MOBAS, após o League of Legends. Inúmeros competidores no universo de jogos de cartas pipocaram em um curto espaço de tempo, e poucos tiveram destaque de fato — como, por exemplo, os “falidos” Gwent (do universo de The Witcher), The Elder Scrolls Legends (com heróis de The Elder Scrolls), e o maior vexame da história da Valve, Artifact (inspirado em Dota2). No lado do sucesso, temos o monstro da Blizzard, Hearthstone (do mundo de Warcraft).

Em 2015, notícias sugeriam que o faturamento de Hearthstone figurava entre os dez maiores do mercado de jogos grátis, e as informações mais recentes sobre o assunto indicam que, até 2017, o game continuava no Top 10. No entanto, uma pesquisa realizada pela Superdata, em novembro de 2019, não mostra mais Hearthstone nesse Top10. Isso não quer dizer que o game ou o gênero não rendem, mas indica que não estamos nos tempos de “cartas gordas”.

Mesmo assim, Legends of Runnetera chega com um papel importante, e o fato de “estar atrasado” também tem seus prós. O game de cartas da Riot foi capaz de pegar todos os ingredientes bons do mercado e incorporar em sua própria jogabilidade, não criando um jogo único, mas gerando um game sólido de propostas, mecânicas e regras claras, visuais e concisas.

A esses fatores, a Riot acopla ainda o Universo de Runeterra, que é rico o suficiente e para ir além de League of Legends. No jogo, as “cores” ou “classes” são as regiões do mundo de fantasia, tendo suas características próprias reforçadas por mecânicas diversas, como shield, stun, recall e outras. Além disso, cada uma das áreas tem personagens já existentes na lore desse mundo, estando ou não presentes em League of Legends.

Temos personagens interessante: alguns já conhecidos, como Yonne, o irmão de Yasuo, e outros novos, como “Kato, The Arm”, “Shiraza, The Blade” ou “Tianna Crown Guard”. Para fechar a lista de novidades, Cinthria, de Demacia, possui duas cartas e pode ser a próxima queridinha dos jogadores de League of Legends se vier a se tornar uma personagem. E é isso que todos esperam.

Diferente dos seus concorrentes — com exceção do Magic — LoR não é um subproduto de um outro jogo. Ele faz parte ativa do universo de Runeterra, tanto quanto League. E, como card games são menos complexos em seu desenvolvimento, é bem possível que grandes eventos desse universo também tenham casa no jogo. E essa deve ser a principal estratégia da Riot tanto para manter jogadores no game quanto para animar aqueles que querem saber mais sobre esse universo.

Quem sabe a guerra que deu fim a Shurima não seja contada em uma próxima atualização, trazendo a região, com seus Ascendentes e os corrompidos Darkins? Ou o Monte Targon, com seus aspectos deuses. As possibilidades pra contar histórias em jogos de cartas foram bem exploradas por outros jogos, e há muito potencial para ser explorado no desenvolvimento de Legends of Runeterra.

E O GAMEPLAY?

Momento final e importante desse texto. Os caminhos que Legends of Runeterra pode seguir me empolgam muito mais do que o gameplay de fato. Como disse, pegar pontos positivos de outros jogos entrega um game sólido, mas não entrega nada muito diferente do que a gente já vê no mercado.

Isso me faz questionar a criatividade da Riot, ao mesmo tempo em que é preciso enaltecer seu time de desenvolvimento. E, mesmo tendo uma dinâmica bem redonda, o ritmo de jogo é truncado. Nessa dinâmica de cada um faz uma ação, visto também em Gwent, acontecem muitas animações, passagens de ação e apenas em algumas jogadas é possível tatear o tempo. Os jogos não costumam durar mais de 25 minutos, mas muitos deles parecem aquele longo e inacabável agosto. Essa questão de “game pacing” deve melhorar com novas expansões, mecânicas e maturidade na equipe de desenvolvimento, assim como melhorou em Hearthstone e Magic.

Agora, ninguém pode dizer que Legends of Runeterra não é honesto e que seus criadores não amam card games. Não há espaço para RNG, tanto no jogo quanto nas recompensas, e isso é uma das coisas mais reconfortantes de todas. Quantas vezes já não estivemos atrás de uma carta especifica nos boosters sabendo que a verdadeira esperança de ter ela é no famoso farm de pozinho ou wildcard? No LoR, é possível escolher a região das recompensas de acordo com seus interesses e necessidades, e mesmo isso não aumentando consideravelmente a chance de receber aquela carta épica, pelo menos diminui a frustração de poder vir qualquer coisa no lugar.

No geral, é possível dizer que Legends of Runeterra chega muito bem no beta aberto. A equipe da Riot conseguiu observar o mercado e desenvolver um jogo feito pra quem de fato gosta de jogos de cartas, e isso pode atrapalhar um pouco a penetração do game no público mais casual, já que é a aleatoriedade que faz com que jogadores medianos possam vencer jogadores mais experientes. A decisão pode aproximar o game dos jogadores mais hardcores — mas para poder competir com Magic Arena, o game precisa de mais corpo.

Novamente, é importante lembrar que Legends of Runeterra ainda está em fase de testes beta, e que seu papel, talvez, não seja ser um hit absurdo — como foi o que aconteceu com League of Legends. De qualquer forma, é um bom momento para expandir o cardápio de opções da Riot Games.