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DreamHack Rio ainda deve por aluguel da Arena Carioca e participações de Flamengo e INTZ

Final do primeiro dia da DreamHack Rio terminou com cadeiras vazias Júlia Garcia / SporTV

Oito meses já se passaram e a DreamHack Rio ainda tira o sono de muita gente. A licença pela exploração da marca DreamHack no Brasil, o aluguel referente a utilização de uma das arenas presentes no Parque Olímpico para sediar o evento, assim como a participações de Flamengo e INTZ no showmatch de League of Legends e os serviços prestados por fornecedores ainda não foram pagos pelos responsáveis que trouxeram a maior lan party do mundo para o País.

Trata-se da segunda reportagem do Dossiê da DreamHack Rio, cuja primeira parte foi publicada em maio do ano passado e trouxe a público o fato do comitê organizador do evento carioca ter conseguido, em 2019, um projeto aprovado pela Secretaria de Estado de Esporte, Lazer e Juventude (SEELJE) para a captação de R$ 3.894.291,74 via Lei de Incentivo ao Esporte. Mas nenhum valor foi arrecadado.

O SONHADO TORNEIO QUE VIROU AMISTOSO

Se a priori a intenção do comitê organizador da DreamHack Rio era realizar um torneio de League of Legends com a participação de oito times e premiação total de US$ 35 mil, conforme mostram documentos os quais a reportagem teve acesso por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), a presença da modalidade no evento acabou acontecendo por conta um showmatch disputado por Flamengo e INTZ - equipes estas que na época foram as finalistas da primeira etapa do Campeonato Brasileiro (CBLoL) 2019.

O amistoso protagonizado pelo embate das equipes Intrépida e Rubro-Negra foi uma atração a parte na DreamHack Rio, sendo responsabilidade do comitê organizador local formado pela Federação do Estado do Rio de Janeiro de Esportes Eletrônicos (FERJEE) e o então diretor geral da DreamHack Brasil, Filipe Alves, conforme explicou a empresa que comercializou a licença, Encom Games, ao ESPN Esports Brasil.

As informações obtidas pela reportagem apontam que, pela participação no showmatch que abriu o primeiro dia da DreamHack Rio, Flamengo e INTZ deveriam receber R$ 10 mil. Além disso, o vencedor do amistoso levaria para casa R$ 15 mil, enquanto o vice-campeão embolsaria R$ 5 mil.

Sem comentar valores contratuais, INTZ confirmou que ainda não recebeu pela participação na DreamHack Rio e explicou que o convite foi feito inicialmente pelo então head de esports do evento João Pott, enquanto "as trativas contratuais, operacionais e financeiras" ficaram sob a responsabilidade do então presidente da FERJEE, Paulo Ribas, e de Filipe Alves.

O clube afirmou que o contrato para a participação na DreamHack Rio foi assinado pelo presidente da FERJEE e deixou claro que "desde o primeiro semestre de 2019 temos histórico com dezenas de cobranças. No começo respondiam, mas nos últimos meses não mais".

O INTZ deixou claro que levou o problema a matriz da DreamHack, que afirmou ao clube "que o responsável [pelo evento] é o organizador local, enquanto este nos enviou um e-mail copiando todos os envolvidos falando que a culpa é da DreamHack Espanha. Mas quem nos contratou e assinou o contrato foi o organizador local".

A reportagem também entrou em contato com o Flamengo, que não retornou até a publicação desta matéria.

PRESTADORES DE SERVIÇO A ESPERA DO PAGAMENTO

Não foi só em 2019 que a FERJEE enviou à SELJEE um projeto envolvendo a DreamHack Rio com o objetivo de captar recursos por meio da Lei de Incentivo ao Esporte.

Um ano antes, a Federação teve uma proposta aprovada pelo Governo do Rio de Janeiro com a intenção de poder arrecadar R$ 5 milhões. Deste total, a Secretaria liberou "R$ 3.690.352,40, sendo R$ 2.952.281,92 de incentivo pleiteado e R$ 738.070,48 de recursos próprios do patrocinador". Mas, sem nenhum valor captado, o projeto foi arquivado a pedido do próprio requerente por conta da mudança que a legislação iria sofre ao final de 2018.

Os dois projetos elaborados pela FERJEE, ao todo, contam com orçamentos enviados por 54 empresas, as quais o ESPN Esports Brasil entrou em contato. DS Alado, Inside Produções e Radios RJ foram as que responderam confirmando que prestaram serviços durante a DreamHack Rio - assim como fizeram em maio de 2019.

Planilhas orçamentárias referentes ao projeto de 2018

Em novo contato, feito neste mês, para saber se receberam pelos serviços prestados na DreamHack Rio, Radios RJ e DS Alado confirmaram que possuem quantias a receber dos organizadores do evento. Já a Inside Produções afirmou que "não iria comentar".

Radios RJ e DS Alado apontaram ainda que os contratos para a prestação dos servidos foram assinados pela FERJEE, mas com valores abaixos dos que foram apresentados nos orçamentos.

A Radios RJ informou que foi contratada para executar "o serviço de comunicação por meio de rádios comunicadores" e que não recebeu pelo serviço. Já a responsabilidade da DS Alado na DreamHack Rio era a brigada de incêndio, serviço pelo qual recebeu "80% do valor acordado". Ambas as empresas deixaram claro que, nos últimos meses, tentaram receber os respectivos pagamentos junto aos responsáveis pelo evento, mas sem sucesso.

"O primeiro contato que tivemos para falar sobre orçamento para o evento foi com o Paulo Ribas. Fizemos o serviço de sistema de rádios comunicadores no local com o acordo de que receberíamos no último dia do evento, como fechado anteriormente com o senhor Raphael Ganem, também da FERJEE. O acordo era de que recebêssemos o valor integral no último dia, quando o técnico que estava presente no local, acompanhando e regulando o uso dos equipamentos, terminasse de recolher tudo. Chegando no fim do evento, fomos avisados de que não teria como ser pago na hora pois o responsável por fazer o pagamento não estava no local e por ai só fomos enrolados", informou Radios RJ.

Ainda de acordo com a Radios RJ, a empresa foi avisada "pela parte da DreamHack brasileira que ela não tinha mais como fazer nada em relação ao pagamento porque os sócios da Europa se negaram a pagar. Após relatarem que estavam em processo judicial, entramos em contato por e-mail com os representantes da Espanha a fim de resolver diretamente, mas não tivemos nenhum sucesso".

LICENÇA DO EVENTO TAMBÉM NÃO FOI PAGA

Além das equipes que disputaram o showmatch que abriu a DreamHack Rio e as empresas que prestaram serviços no evento, quem também está a espera de um pagamento é a Encom Games, pela licença de exploração da marca DreamHack no Brasil.

O valor da licença consta nos orçamentos do projeto enviado pela FERJEE à SEELJE em 2018. De acordo com os documentos, pela exploração do nome DreamHack no Brasil, a Federação deveria pagar à Encom € 380 mil ou R$ 1.831.600 na cotação da época. Quantia esta que sobe para R$ 2.309.647,60 por conta do imposto de renda sobre a taxa (25%) e o imposto sobre operações financeiras (1,10%).

Ainda de acordo com os documentos obtidos via LAI, o contrato referente a aquisição do direito de exploração da DreamHack no Brasil foi assinado por FERJEE e Legavisa Assessoria Empresarial, a representante da Encom Games no Brasil. O acordo previa a concessão no período de três anos pelo valor de € 380 mil.

Orçamento que consta o valor pela licença de exploração da marca DreamHack no Brasil

Procurada pela reportagem ainda no ano passado, a Legavisa informou que o contrato citado "foi substituído por outro assinado diretamente entre FERJEE e Encom Games em janeiro de 2019. Esse, sim, é o contrato válido em relação aos temas de representação da Encom Games no Brasil, bem como para a realização do evento. Até onde sabemos, a licença do evento segue pertencendo à Encom Games nunca chegou a ser adquirida".

A empresa disse ainda estava "ciente de que o evento apresentou problemas em sua execução. A Encom Games por sua vez, salvo engano, esteve atuando na execução do evento junto à FERJEE e, portanto, imagino, também conheça dos problemas ocorridos".

O ESPN Esports Brasil entrou em contato com a Encom para saber se a empresa espanhola foi paga pelo valor acordado pela exploração da marca. Sem confirmar o valor, por email, a companhia confirmou o não recebimento da quantia.

A reportagem questionou a empresa se a mesma está ciente dos problemas envolvendo os times convidados e os prestadores de serviços. A Encom respondeu que sim, dizendo que "FERJEE e Filipe Alves são os responsáveis pelos pagamentos. Eles receberam e mantiveram todas as receitas da venda de ingressos e patrocínios, mas não pagaram os parceiros, prestadores de serviços e equipes. Alguns dos parceiros e serviços prestados, incluindo a Encom, estão tomando ações legais contra FERJEE e o sr. Alves".

A Encom apontou ainda que a "DreamHack foi responsável apenas pelo DreamHack Open, enquanto FERJEE e Filipe Alves pelo restante do evento por meio de um acordo com a Encom Games". Também de acordo com a empresa, "todos os pagamentos relacionados ao DreamHack Open foram feitos no local durante o evento pela DreamHack e Encom Games".

A reportagem também procurou a matriz da DreamHack, mas a mesma não respondeu o contato até a publicação desta matéria.

E O ALUGUEL DA ARENA CARIOCA, FOI PAGO?

O aluguel da Arena Carioca 1 é outro vultuoso valor presente nos dois projetos da DreamHack Rio que foram aprovados.

Apesar do evento ter utilizado apenas uma das três estruturas presentes no Parque Olímpico do Rio de Janeiro, a FERJEE solicitou orçamento para o uso de todas elas: R$ 375.867,07 é o valor presente no projeto enviado em 2018 e R$ 475.268,89 no de 2019 - ambos equivalem a 10 dias de montagem, quatro de evento e sete de desmotagem

Até 30 de junho de 2019, o Parque Olímpico estava na responsabilidade da Autoridade de Governança do Legado Olímpico (AGLO), autarquia esta que não teve contrato renovado pelo Governo brasileiro. A fim de saber quem estava no comando do parque, o ESPN Esports Brasil procurou a Prefeitura do Rio de Janeiro, que informou que "a administração da Arena 1 do Parque Olímpico é de responsabilidade do Governo Federal".

Com o objetivo de saber se o aluguel pela utilização da Arena Carioca 1 para sediar a DreamHack Rio foi pago, a reportagem entrou em contato com a Secretaria Especial do Esporte, uma das pastas do Ministério da Cidadania, que informou que "o pagamento da Guia de Recolhimento da União (GRU) referente à locação da Arena Carioca 1 para realização do DreamHack Rio não foi registrado até o momento.

COM A VOZ, PAULO RIBAS E FERJEE

Presidente da FERJEE no período em que a DreamHack Rio foi realizada e citado como um dos responsáveis pelo evento, Paulo Ribas se pronunciou deixando claro que "não houve dinheiro publico no evento. Caso houvesse, como de costume, a FERJEE tomaria todos os procedimentos legais para a devida prestação de contas".

O executivo declarou que "a FERJEE não poderia estar na direção e execução do projeto, ou conteúdo, pois isso é exclusividade dos donos da marca. O único conteúdo que a FERJEE, de fato administrou integralmente, sob a chancela da CBGE – Confederação Brasileira de Games e Esports, na qual está filiada, foi o Desafio sulamericano de League of Legends, realizado com recursos próprios, envolvendo quatro estados brasileiros, Argentina e Chile".

Ainda de acordo com o ex-presidente da FERJEE, "para de fato realizar seu projeto no Brasil, a DreamHack AB, através de seu braço espanhol, realizou aqui o seu evento internacional, com o compromisso de abrir uma empresa no Brasil, para legalmente realizar seus contratos e produção do evento", sendo que ocorreu que o diretor executivo "nomeado para o evento DreamHack Open no Brasil, convidou e conquistou o sonho da FERJEE em apoiar este grande evento, cujos altos custos seriam todos pagos pelos sócios com os patrocinadores que já estavam aguardando o Certificado do Mérito para isenção fiscal, bem como, outras 40 empresas contatadas para patrocínio privado".

Na nota enviada, o ex-presidente da FERJEE reconheceu "nossa ousadia em acreditar que o evento já estava pago pela organização, dado o nome e reconhecimento que a empresa DreamHack AB e sua sócia espanhola obtém mundialmente, bastando documentos oficiais para realizar a produção executiva. Assim, cumprimos nosso papel institucional de fomento ao esporte e providenciamos os documentos necessários para que o projeto estivesse apto à obtenção de incentivos fiscais, ratificando tudo que fosse necessário ao evento. Ledo e assumido engano".

"É a parte que pedimos escusas aos fornecedores contratados, em nome da organização, e como apoiadores, do evento Dreamhack Open, acreditando que os proprietários do evento irão honrar com seus compromissos. Inclusive a diretoria da minha gestão, é credora de aporte financeiro próprio emprestado documentadamente para o pagamento de fornecedores do evento. Sendo portanto, também uma interessada no processo", afirmou o executivo.

"A operação, a produção executiva e a organização do Dreamhack Open nunca foi responsabilidade da Federação, até por que não possuía recursos financeiros, tampouco nos seus quadros, efetivo em pessoal e material para tal." Paulo Ribas, o ex-presidente da FERJEE

Paulo Ribas disse ainda que "diversos contatos foram feitos com os proprietários do evento, na Suécia e na Espanha, por telefone, e-mail e WhatsApp, visando quitar os compromissos assumidos, porém não obtivemos o êxito esperado" e revelou que "tratativas já estão bastante adiantadas para judicializar as questões pendentes e acionar, no Brasil e no exterior, os verdadeiros responsáveis pela organização e produção do evento “DreamHack Open” buscando as devidas reparações pelos imensos danos que causaram à Federação a aos fornecedores.

O ex-presidente finalizou dizendo "toda produção foi feita pela própria Dreamhack AB, com pessoal e equipamento vindo de fora do Brasil - há que se buscar as guias de entrada no aeroporto internacional do Galeão e hospedagens no Hotel oficial do evento -, e onde não alcançava solicitou, por intermédio de seus sócios e CEO, a contratação de fornecedores brasileiros. Tudo está documentado nos diversos contatos realizados com a produção executiva no Brasil".

A Federação do Estado do Rio de Janeiro de Esporte Eletrônico, que mudou de gestão em 9 de dezembro de 2019, também enviou uma nota, com a qual afirmou que ficou estabelecido e aprovado por ata que "todo proveito econômico obtido com a ação cível proposta pela FERJEE em face das empresas DreamHack AB e Encom Games será repassado a Paulo Roberto Ribas, presidente da diretoria executiva no período em que o evento foi realizado".

"Temos a certeza de que todos os envolvidos fizeram seu melhor e que as renomadas empresas proprietárias do evento Dreamhack Open, ainda que sob ordem judicial, irão honrar seus compromissos, a fim de que possam realizar, com os devidos apoios institucionais, de empresas, experts brasileiros e de fornecedores locais, novos eventos no Brasil e América Latina", afirmou a entidade em nota.

Ainda de acordo com a entidade, ficou estabelecido que "as despesas processuais serão de responsabilidade da diretoria executiva do período em questão, que também tomará todas as decisões relacionadas ao processo, cabendo à FERJEE somente, o amparo com fornecimento de todo e quaisquer documentos que forem solicitados para a propositura da ação.

"Quaisquer cobranças referentes ao evento DreamHack Rio são de inteira responsabilidade da diretoria executiva do período em questão" FERJEE em nota enviada

O ESPN Esports Brasil também entrou em contato com Filipe Alves, então diretor geral da DreamHack no Brasil, que optou por não responder.

A HISTÓRIA POR TRÁS DA DREAMHACK RIO

A vinda da DreamHack ao Brasil começou a ser veiculada em meados de 2018, a partir de uma foto uma foto de um dos responsáveis pela DreamHack na Espanha visitando as trigêmeas Arenas Cariocas, localizadas dentro do Parque Olímpico do Rio de Janeiro. Pouco tempo depois, num fórum também realizado na Cidade Maravilhosa, a confirmação da DreamHack Rio foi feita pelo mesmo executivo.

No final daquele ano o comitê organizador do evento realizou uma coletiva de imprensa num luxuoso hotel carioca e lá revelou as primeiras informações sobre a DreamHack Rio, que, inicialmente, iria contaria com um torneio de Counter-Strike: Global Offensive válido pela sério Open. Além disso, o diretor-geral da DreamHack no Brasil, Filipe Rodrigues, apontou que a lan party iria contar também uma feira de inovação, e “casas” das equipes que iriam participar num formato parecido com que aconteceu nos Jogos Olímpicos, quando as nações participantes se instalaram em diversos locais da cidade e nesses locais “construíram” casas temáticas.

Meses depois, atendendo o clamor da comunidade, os responsáveis pela DreamHack Rio revelaram que iriam promover uma competição de Rainbow Six, com esta contando, inclusive, com a participação de equipes femininas. Contudo, o torneio acabou sendo cancelado por questões financeiras.

De tudo o que foi prometido para o evento, apenas o torneio de CS foi realizado de fato - e mesmo assim com problemas. No primeiro dia, instabilidades acarretaram em atrasos nas partidas, com algumas, inclusive, sendo disputadas sem a presença do público - bem menor dos sonhados 100 mil presentes. A cazaque Avangar foi quem ficou com o título após vitória sobre a brasileira Furia.