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Dossiê DreamHack Rio: projeto enviado ao governo do RJ previa 8 torneios e R$ 4 milhões de verba

Atrasos no dia de abertura fizeram com que o público presente fosse embora antes do fim Roque Marques / Mais Esports

Campeonatos para oito modalidades, premiação total de quase US$ 300 mil, estimativa de participação de mais de 400 jogadores e presença de 100 mil pessoas. Era desta forma que os responsáveis pela DreamHack no Brasil imaginavam a primeira edição do evento, que teve toda a execução orçada em R$ 3.894.291,74.

As informações acima citadas estão presentes no projeto “DreamHack Rio” apresentado pela Federação do Estado do Rio de Janeiro de Esportes Eletrônicos (FERJEE) à Secretaria de Estado de Esporte, Lazer e Juventude (SEELJE) na tentativa de obtenção de recursos via Lei de Incentivo ao Esporte. O ESPN Esports Brasil teve acesso aos documentos por meio da Lei de Acesso à Informação.

Os documentos mostram que o processo de análise da SEELJE foi aberto em 7 de março, isto é, faltando pouco mais de um mês para o início do evento. No dia seguinte (8), a Comissão de Projetos Esportes Incentivados (CPEI) informou que o projeto encontrava-se "apto a integrar a pauta de votação da próxima reunião" e foi apresentado "ao Relator sorteado para emissão de parecer".

A aprovação para o projeto ser contemplado pela Lei de Incentivo ao Esporte foi dada em 21 de março. O relator Thiago Ribeiro de Paula foi quem deu o aval para que a FERJEE fosse em busca da captação dos quase R$ 4 milhões, deixando claro que a instituição não apresentou nenhuma "carta de intenção de patrocínio".

"A justificativa se baseia na possibilidade de viabilização deste projeto na parceria tripla entre Governo do Estado-proponente-empresa patrocinadora. Diante dos elevados custos para um projeto que busca o alto nível, a utilização da Lei de Incentivo ao Esporte se apresenta como um instrumento fundamental para que logre êxito em sua execução", escreveu o relator.

Com o “sim” dado, a FERJEE recebeu em 1º de abril o Certificado de Mérito Esportivo, assinado pelo atual secretário da pasta, Felipe Bornier.

Abertura do processo para aprovação do projeto DremHack Rio

O QUE DIZ A LEI

Desde 1992, o Estado do Rio de Janeiro conta com uma legislação própria para o incentivo a projetos culturais e esportivos. Resumidamente, a Lei dá incentivo fiscal para empresas promotoras de eventos que podem solicitar o desconto de parte do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) em troca do patrocínio a um evento a sua escolha.

Para receber o benefício, o evento deve ser aprovado pela CPEI e, ao requerer o incentivo, o patrocinador compromete-se a contribuir com recursos próprios, isto é, aqueles não incentivados.

Em dezembro passado, o governador em exercício, Francisco Dornelles, sancionou um Projeto de Lei que manteve as vantagens da antiga legislação e garantiu que o valor investido seja 100% isento, ao invés dos 80% da redação antiga da Lei.

O PROJETO

A FERJEE orçou a execução da DreamHack Rio no valor de R$ 3.894.291,74 e informou que no evento seriam realizados torneios de oito modalidades: CS:GO, Fortnite, League of Legends, Overwatch, Playerunknown's Battlegrounds (PUBG), Rainbow Six, StarCraft II e o simulador de futebol Pro Evolution Soccer (PES).

As projeções feitas pela FERJEE quanto aos números de jogadores e público presentes na DreamHack Rio impressionam. No projeto enviado à SEELJE, a Federação fala sobre 416 competidores e 25 mil pessoas comparecendo no Parque Olímpico em cada um dos três dias de evento - totalizando, de acordo com a instituição carioca, 100 mil presentes.

Também chama a atenção o cronograma estipulado. Os documentos mostram a DreamHack Rio com duração de 233 dias, sendo 172 destes em relação a "planejamento final para início do Projeto, contratação de serviços e pessoal, treinamento de pessoal técnico e divulgação" e "realização da execução do projeto com organização do evento e pagamento das despesas". Os 61 dias restantes seriam para "prestação de contas e relatório final". O tempo destinado para "montagem da estrutura do evento", "realização do evento" e "desmontagem da estrutura do evento" não foi levado em consideração.

Cronograma de duração da DreamHack Rio

A CONTA DOS QUASE QUATRO MILHÕES

Nos documentos obtidos pelo ESPN Esports Brasil estão planilhas elaboradas pela FERJEE que detalham o uso dos R$ 3.894.291,74 pleiteados junto à SEELJE.

A instituição dividiu as despesas em: Despesa de Execução com Recursos Humanos / Serviços / Materiais (1), Despesas Administrativas com Prestação de Contas (2), Despesas com Impostos, Taxas, Contribuições e Seguros (3), Despesas de Divulgação (4), Despesas de Elaboração e Captação de Recursos (5) e Contrapartida Social (6).

Mas não foi do nada que a FERJEE chegou a conclusão de que realizar a DreamHack Rio custaria quase R$ 4 milhões. Esse valor é o somatório dos orçamentos solicitados pela Federação à empresas terceiras para a realização de serviços. Isso mesmo, a DreamHack Rio seria, a grosso modo, terceirizada, e as funções dentro do evento seriam executadas por aquelas que apresentassem as menores estimativas de custo pelos serviços.

Ao todo, a FERJEE fez orçamentos para 23 serviços com um total de 63 empresas contactadas. Destas, 17 ganharam as “licitações” por terem mostrado as menores estimativas de custo pelos serviços. Ruddah Produções (4), Entreartes (2) e Inside Produções foram aquelas acumularam funções.

O ESPN Esports Brasil procurou as empresas selecionadas pela FERJEE. ART Entretenimento, Batista Associados, BSS Vigilância, Grupo Safety, Litoral ABS, Ruddah Produções, Retrátil Cenografia e Talent Experts responderam informando que não participaram da DremHack Rio. DS Alado, Inside Produções e RadiosRJ revelaram que prestaram os serviços.

Já a Autoridade de Governança do Legado Olímpico (AGLO) disse que iria se posicionar, mas não voltou a responder até a publicação desta matéria, enquanto os demais estabelecimentos ou não enviaram respostas ou não conseguiram ser contatados pela reportagem.

HOUVE CAPTAÇÃO DE RECURSOS?

A fim de saber se a FERJEE conseguiu captar o total de recursos pleiteados ou parte dos R$ 3.894.291,74 orçados para a execução da DreamHack Rio, o ESPN Esports Brasil também procurou a SEELJE.

Por meio de assessoria de imprensa, a Secretaria de Estado de Esporte, Lazer e Juventude confirmou que "o projeto DreamHack Rio foi aprovado pela Secretaria de Estado de Esporte, Lazer e Juventude dentro dos critérios da Lei de Incentivo ao Esporte e Cultura, nº 8266/2018, em reunião no dia 01/04/2019, conforme publicação no D.O. de 04/04/2019”.

Mas, de acordo com a SEELJE, “até agora, não foi dada a entrada no processo de utilização da verba. Ou seja, a angariação de recursos via Lei de Incentivo ao Esporte não foi efetivada. Sendo assim, a Secretaria não tem acesso ou responsabilidade de fiscalização quanto ao pagamento dos fornecedores selecionados pelos produtores do evento”.

COM A VOZ, FERJEE

Ao ESPN Esports Brasil, o presidente da FERJEE, Paulo Ribas, esclarece que "a Federação apoiou, institucionalmente, a DreamHack Rio, no evento originariamente conhecido mundialmente como 'DreamHack Open', pertencente a dona da marca, com sua equipe estabelecendo as base jurídicas para possibilitar a vinda deste grande evento internacional para o Brasil, de forma pioneira e empreendedora, por conseguinte, não lhe coube esta parte de estratégias de planejamento e produção do evento".

Quanto ao projeto enviado à SEELJE, o presidente da FERJEE disse que "é sabido que na época do planejamento feito pela dona da marca DreamHack Open, em março de 2018, falava-se em produzir um evento com a força da marca e do momento que os esports estava, sendo o Brasil a 3ª potência mundial da modalidade". O executivo afirma que a Secretaria recebeu um outro projeto, “pela primeira vez, em setembro de 2018, após toda a estruturação iniciada em junho de 2018, com um certificado emitido em 07 de novembro de 2018".

Paulo Ribas explica que, “após vários contatos e já estabelecidos alguns acordos com patrocinadores de peso, também circulava a notícia da tramitação de uma nova lei de incentivo por ICMS, no estado RJ, mudando as bases de fomento ao esporte, que ocasionou o interesse das empresas em esperar sua aprovação - o que só aconteceu em 27 dezembro 2018. Diante deste cenário e com a troca de governo no estado e no País, em 1 janeiro 2019, houve uma estagnação nas tratativas que já vinham bem adiantadas”.

Documento da FERJEE que mostra a primeira aprovação dada pela SEELJE

Por conta de toda essa incerteza, o presidente da FERJEE aponta que “foi necessário novamente desenhar e preparar o projeto, para ser apresentado somente após a abertura para tal no governo do estado, causando uma grande perda de tempo e necessitando novas tratativas com as empresas. Provavelmente, este tempo de demora, mais a incerteza política e econômica do País, tenham causado certo recuo nos patrocinadores que já estavam acordados em apoiar o evento, desde o início do segundo semestre de 2018, e tenham levado a Dreamhack, a optar em, ainda que com recursos próprios, realizar o evento prometido, investindo no Brasil e nos seus fãs da América Latina”.

Ao ser questionada se a aprovação do projeto ter sido feita próxima à realização do evento atrapalhou o processo de captação dos recursos, a FERJEE reitera que "os trabalhos para captação começaram muitos antes do anúncio do evento. A janela de captação não começou na aprovação do segundo projeto. Há e-mails e documentos da Dreamhack Rio que comprovam a busca de patrocínio em março de 2018. Inclusive, em 2018, participamos do ‘Rio Esports Forum’ onde vários patrocinadores foram chamados e havia representantes da imprensa".

Em avaliação sobre a primeira edição da DreamHack Rio, a FERJEE diz que “acreditamos que as pessoas e os fãs que foram ao evento tiveram uma boa experiência. Naturalmente, o evento no Brasil foi um primeiro e houve pontos que exigem aprimoramento. Lições aprendidas, a FERJEE segue comprometida em fomentar o cenário e se coloca à disposição para ser parceria em novos eventos, como os que já realizamos de cunho educativo, business e campeonatos. Acreditamos que todos os envolvidos fizeram seu melhor”.

A HISTÓRIA DREAMHACK RIO

A vinda da DreamHack ao Brasil começou a ser veiculada em meados de 2018, a partir de uma foto uma foto de um dos responsáveis pela DreamHack na Espanha visitando as trigêmeas Arenas Cariocas, localizadas dentro do Parque Olímpico do Rio de Janeiro. Pouco tempo depois, num fórum também realizado na Cidade Maravilhosa, a confirmação da DreamHack Rio foi feita pelo mesmo executivo.

No final daquele ano o comitê organizador do evento realizou uma coletiva de imprensa num luxuoso hotel carioca e lá revelou as primeiras informações sobre a DreamHack Rio, que, inicialmente, iria contaria com um torneio de Counter-Strike: Global Offensive válido pela sério Open. Além disso, o diretor-geral da DreamHack no Brasil, Filipe Rodrigues, apontou que a lan party iria contar também uma feira de inovação, e “casas” das equipes que iriam participar num formato parecido com que aconteceu nos Jogos Olímpicos, quando as nações participantes se instalaram em diversos locais da cidade e nesses locais “construíram” casas temáticas.

Meses depois, atendendo o clamor da comunidade, os responsáveis pela DreamHack Rio revelaram que iriam promover uma competição de Rainbow Six, com esta contando, inclusive, com a participação de equipes femininas. Contudo, o torneio acabou sendo cancelado por questões financeiras.

De tudo o que foi prometido para o evento, apenas o torneio de CS foi realizado de fato - e mesmo assim com problemas. No primeiro dia, instabilidades acarretaram em atrasos nas partidas, com algumas, inclusive, sendo disputadas sem a presença do público - bem menor dos sonhados 100 mil presentes. A cazaque Avangar foi quem ficou com o título após vitória sobre a brasileira Furia.