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CBLoL: Orquestrando a segunda dinastia da INTZ, Maestro quer 'deixar um legado'

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CBLoL: "É a primeira vez que me separo do Exodia e acredito que estão percebendo minha importância", diz Micao. (4:37)

Atirador, Envy e Maestro, falam sobre o split da INTZ e a grande final (4:37)

A uma semana da grande final do CBLoL, o trabalho na INTZ acontecia a todo vapor. Treinos intensos eram protagonizados pelos jogadores titulares e acompanhados de perto pelos reservas — todos orientados pela comissão técnica, tão dedicada quanto à missão de bater o Flamengo na série mais importante do ano quanto seus comandados.

No quartel-general do time finalista, uma figura destacava-se. Atrás dos jogadores, o head coach Lucas Pierre apontava algo em conversa com o técnico estratégico, Juc. Conhecido como Maestro, o treinador era o ponto central da metodologia intrépida.

Pierre ergueu os olhos ao ver a reportagem do ESPN Esports Brasil chegar ao QG, e, antes de me cumprimentar, pediu para que Juc e Luiz, técnico assistente, dessem conta dos treinos, que não seriam interrompidos por sua ausência. Com 30 anos de idade (e quase três de INTZ), sua maneira de trabalhar já é rotina para os companheiros de equipe.

“Estão falando que você é o melhor técnico do Brasil”, comento, com um sorriso, minutos depois de cumprimentá-lo. Ele sorri de volta, mas desvia o olhar, quase encabulado. “Sabia que ia vir algo desse tipo”, confessa.

“Eu não tô acostumado com isso”, o treinador assume, o tom de voz calmo, mas assertivo. “Não sei, nunca vai parecer comigo. Mas tudo bem. É natural que as pessoas falem disso… Por estarmos sendo o time que mais dá resultado, é natural. Não vou reclamar”, divaga.

“Mas você não tá acostumado com esse holofote, não?” questiono, o tom de voz também baixo.

“Não. Nem um pouco”, ele responde.

Maestro é treinador do time intrépido desde 2017, tendo chegado à equipe meses após o fim da dinastia vivida pela INTZ em 2016. Desde então, o técnico viveu desde a lua de mel até o momento mais difícil do clube, passando de assistente para a linha de frente, alternando entre candidato a rebaixamento e campeão do CBLoL.

MENTORIA

Entre 2016 e 2017, a INTZ dominou o cenário competitivo nacional de LoL. Bicampeã na temporada 6 e líder da fase de pontos durante a temporada 7, o sucesso Intrépido é desmistificado, hoje em dia, quando fala-se do líder da formação na época: o treinador inglês Peter Dun.

Em seu ano de estreia no clube, Maestro foi assistente de Peter. O clube perdia peças importantes da escalação na virada de temporada — além de Tockers, que partiu para a Red Canids, Yang, Revolta, o treinador Abaxial e o assistente Lorenzo Jung juntavam-se à Keyd, desfalcando a INTZ.

“Pouca gente conhecia o trabalho dele por dentro”, conta Pierre, voltando ao dia de sua aplicação ao clube. “Quando eu vim fazer a entrevista, eu não sabia quem ele era. Ele já estava há um ano na INTZ, e eles falavam que, apesar de estar fora, ele era um excelente treinador e analista. Ele já era o cara antes de vir [para o Brasil]”, relembra.

Maestro tem carinho em sua fala ao referir-se a Peter. “Ele foi um grande mentor. Não só como treinador, mas como profissional, mesmo. Acho que boa parte do que eu sou como profissional, eu aprendi com ele”, reflete. A mentoria de Peter ia além do Rift. Era, também, sobre trabalhar com visões divergentes e entender o papel de diferentes pessoas em um objetivo comum — geralmente, em prol do cenário.

Em seu primeiro ano presencialmente no cenário de LoL, o então assistente foi líder da fase de pontos em uma INTZ reestruturada, mas que, com Ayel, Envy e Shini, já se impunha como time a ser batido.

“Foi muito legal, mas, ao mesmo, acabou sendo um pouco enganoso”, confessa. “Eu sei que eu fiz parte daquele sucesso, mas eu entrei no bonde do sucesso”, avalia.

“Eu achei que era muito fácil. Achei que era só grudar no Peter, entender do jogo e ajudar ele que a gente ia ganhar tudo. Eu sentia que a gente era muito poderoso. E, por mais que a gente tivesse perdido as semis, eu ainda achava no final do ano que foram dois deslizes bobos”, relembra.

“No ano seguinte, eu descobri que não era bem assim”, assume.

ASAS PRÓPRIAS

“Quando eu assumi como treinador, passei por um ano muito difícil”, revisita Maestro, referindo-se à temporada de 2018.

“O próprio Peter me falou que, naquele ano, a gente tinha uma combinação muito perigosa: muitos jogadores novatos e um treinador novato. Dava pra dar certo, mas que era muito difícil.”

Ao relembrar dos tombos sofridos durante o CBLoL 2018, Maestro divaga, descansando o olhar no teto.

“Todas as vezes que eu não atinjo o objetivo, eu repenso. Eu pensei realmente se eu seria um bom treinador. Eu sabia que iam me comparar com o Peter, como foi feito, na época. E eu pensei seriamente se eu era o problema, ou se algum jogador era o problema. Eu não sabia identificar, mas repensei. Mas eu estava tendo a chance, e vendo a chance escorrer pelos meus dedos”, diz.

“Minha guerra com o Peter nunca foi externa. Eu nunca xinguei as pessoas, bati de frente. Sempre foi interno”, ele pausa. “Eu sempre pensei, sempre me comparei, sempre pensei que eu nunca vou ser tão genial quanto ele. Que os jogadores nunca vão me respeitar como respeitavam ele”, complementa.

“O Peter é uma exceção. Ele é um cara que tem uma autoridade absurdamente alta sem se impor. Ele tem um jeito meio de gênio louco, anda pisando em cima do sapato, maluco. E as pessoas acham isso… é bonitinho e genial. Ele tem um jeito só dele de fazer as coisas, é impossível copiar. E eu queria desenvolver o meu próprio, mas eu pensava, ‘será que eu consigo’?”

“Durante toda a minha carreira… eu acho que ainda ‘tô’ aqui porque eu fui teimoso”, ele ri. “Porque eu perco, fico puto, às vezes xingo os meninos, eles me xingam de volta. Mas alguma coisa me faz voltar”. O olhar volta a transmitir firmeza. “Essa foi uma das primeiras vezes que isso aconteceu.”

DESAFIOS

Apesar do título na Superliga 2017, a novamente reformulada INTZ não manteve o desempenho para o CBLoL, e terminou a primeira etapa em sexto lugar, escapando por pouco de uma série de promoção precoce.

Com a chegada de Redbert à escalação na segunda etapa, Maestro tinha sob tutela uma bot lane campeã brasileira e três jogadores da Team Genesis. O treinador assume ter acreditado que a sinergia da escalação ‘compensaria’ sua inexperiência — mas o segundo split foi ainda mais difícil que o primeiro.

Tropeçando durante toda a fase de pontos, a última e decisiva derrota foi na sétima e última semana, contra a IDM Gaming. “Foi a derrota mais dolorosa da minha vida. Quem ganhasse estava na Escalada, quem perdesse estava na Escalada pra baixo. Estávamos 1 a 0, com 8 mil de gold na frente, com uma composição que a gente adorava. Era só fechar o jogo”, relembra.

Seu tom de voz, mais uma vez, baixa. “Teve uma jogada que até hoje é muito clara na minha memória, o Absolut morreu dando recall… a gente perdeu o jogo, ficou fora, o sonho foi embora de novo. Eu cheguei na sala, depois, e o Absolut tava no canto, chorando. Absurdamente triste. A van, na volta, foi um velório. Foi uma experiência extremamente difícil”, revela.

Em seguida, a INTZ perderia as duas séries md3 que salvariam o time da Série de Promoção. O último desafio de 2018, no CBLoL, foi pela permanência no campeonato.

Questiono se Arthur, técnico assistente em 2018, estava no time durante a série. “Não, ele estava do outro lado”, diz, referindo-se à paiN, time adversário. “O Juc estava do outro lado. O Djoko também, o Ayel também.”

Sinestésico, Maestro descreve detalhes sobre a Série de Promoção. “Quando a gente chegou, eu senti que estava tudo mais escuro no estúdio. A energia era muito pesada. Eu não sou religioso, mas não sei, eu sinto um pouco de energia, nas coisas”, comenta.

“Eu encontrei o Arthur. Fazia um tempo que eu não o via, e eu pensei que ele estaria feliz em me ver, mas ele estava muito triste. Disse ‘não era pra ser assim’. Tava todo muito muito triste em disputar aquela série. Não foi legal ganhar e ver os outros perderem. Na época, foi o que dava pra fazer”, conta.

Ele segue falando de energia ao contar sobre a vitória. “Quando a gente ganhou, muita gente estava feliz. Mas a única coisa que eu sentia era energia ruim saindo. Nenhuma energia boa entrando. Eu chorei desenfreadamente. Eu não suportava mais pensar que eu tinha falhado. Eu só consegui deixar sair a energia… eu só queria deixar esvaziar. Saí vazio de lá”, confidencia.

RECONQUISTA

A temporada foi finalizada, mais uma vez, com a Superliga — que terminou em mais uma vitória intrépida. Para Maestro, o torneio foi o resgate de sua vontade de trabalhar, de doar-se à equipe e de vencer. A retomada teve, também, a ver com o breve reencontro com seu mentor.

“O Peter ficou aqui 7 dias, eu acho, e ver ele foi um negócio incrível. Não foi nem sobre conteúdo, ele nem trouxe tanta coisa… mas o mais legal de tudo foi essa coisa da energia. Fiquei com vontade de trabalhar de novo. Ele não tinha nenhum motivo pra estar aqui, e ele estava”, aponta, com um vestígio de gratidão na voz.

“Ali, foi mágico para mim. O estúdio da BBL [sede do campeonato] me traz boas lembranças. Ali, comecei a ver rostos e pessoas que realmente acreditavam em mim. Eu reconquistei a confiança no meu trabalho ali”, confessa.

“Eu via jovens, meninos novos, que não tinham nada na carreira ainda, como o Hauz, o Sephis, entrando no time. Ao mesmo tempo, tinha o Whitelotus engatilhado, e ele já chegou confiando muito em mim. A vitória na Superliga não foi legal só pra reformular o time, mas pra eu recuperar a confiança de que eu sabia guiar as pessoas”, crava.

RETOMADA

A campanha da INTZ na primeira etapa do CBLoL 2019 teve seus tropeços — mas foi o suficiente para que o time se classificasse para as semifinais em segundo lugar. No início da temporada vigente, os intrépidos, apesar de terem se adaptado ao longo do campeonato, já mostravam alicerces muito mais fortes do que no ano anterior.

A vitória contra a Redemption na semifinal não foi fácil. A INTZ conquistou no último jogo a vaga na final da primeira etapa, cravando-se como adversária do Flamengo, favorito absoluto ao título, na série decisiva.

“É difícil falar isso, porque vai soar derrotista, mas eu fiquei surpreso quando a gente ganhou”, confessa Maestro, com um sorriso. “O que eu mais queria naquela série era que a gente jogasse bem, que a gente desse trabalho. Porque era um Davi contra Golias”, avalia.

“Eu queria que a gente jogasse bem, fizesse bons jogos. Mas aquele último jogo… eu virei pro pessoal e disse, galera, tá muito perto. Dá pra ganhar”, diz.

Em mais um quinto jogo, a INTZ levou o rubro-negro ao limite e conquistou o título do CBLoL. Foi a quinta melhor de cinco de Maestro como head coach — e a quinta vez que o técnico comemorava a vitória.

“Eu acho que a gente se preparou muito melhor. Eles estavam com a cabeça na nuvem, já. Estavam com a cabeça no MSI, na viagem… tiraram visto pra segunda, terceira fase do MSI. E a gente só aqui. A gente deu a vida pela preparação, por aquela série, e deu certo.”

MID SEASON INVITATIONAL

“Apesar de ficar muito feliz por ganhar, eu fiquei maluco no MSI”, confessa, descontraído. “Eu pensei ‘não é possível a gente não ter condição de ganhar’. E eu tomei mais um chute na cara da vida”, diz.

“Depois que eu atingi esse objetivo, eu descobri que tinha mais coisas. E também descobri que a gente não vai melhorar fazendo cada um o seu. Temos que melhorar juntos, como povo, como cenário. Hoje em dia eu já tenho mais ambições sobre o que fazer pelo cenário. Não quero ser só um bom treinador”, divaga.

Maestro é sincero ao revelar motivos externos que prejudicaram a INTZ em sua última campanha internacional. “Me falavam muito de jet lag, e eu disse ‘não, vamos passar por cima disso’. Todo mundo chegava 4 da tarde, jantava todo mundo junto, todo mundo era proibido de dormir até as 10. E, assim… super inocente”, conta.

“5, 8 dias depois a gente ainda estava totalmente zureta da viagem. Derrubados às 5 da tarde, totalmente despertos às 2 da manhã”, ele confessa. Por conta da rotina da INTZ ser regrada e extremamente pontual, a dificuldade em sincronizar os organismos dos jogadores com o novo horário foi um fator extremamente negativo.

Além disso, boa parte da extensa delegação da INTZ não pôde acompanhar o time na campanha. Apenas Maestro, os cinco titulares e o reserva BocaJR puderam participar do campeonato — e a comissão técnica Intrépida, apesar de centralizada no head coach, tem cada um de seus membros como peça-chave.

Luiz, o técnico assistente, não esteve presente, assim como os técnicos Juc e Exorant, a psicóloga Natália e o fisioterapeuta Bruno. “Eu me senti um pouco impotente. Eu queria colocar aquele ritmo, aquele volume de treino, aquela rotina, mas sem as pessoas lá e com o fuso diferente, foi muito difícil”, confessa.

Com a comissão técnica reduzida, o jet lag e a cobrança ferrenha da comunidade brasileira — que também desacreditava qualquer resultado dos Intrépidos —, Maestro confessa que o time chegou, sim, inferiorizado.

“Mas, ao mesmo tempo, eu senti que eu queria muito estar lá de novo. A principal sensação que eu tive no MSI foi de: ‘okay, aqui é o meu lugar. Eu preciso disputar internacionalmente de novo, porque é muito legal, é muito bom. É aqui que eu quero estar. Eu quero estar aqui todo ano”, crava.

RETORNO

No retorno ao Brasil, uma proposta fez com que o descanso de Maestro entre etapas fosse menos tranquilo. Em seu retorno ao CBLoL, a paiN Gaming tentou trazer o treinador para sua comissão técnica.

“Alguma coisa me chamou de volta”, diz o técnico, ainda sinestésico, sobre ter ficado na INTZ. “Eu finalmente tinha encontrado um lugar legal para trabalhar. As pessoas me respeitam, os jogadores confiam muito em mim, todo mundo da minha staff confia em mim e tem funções definidas”, compartilha.

“Pensei se valeria a pena deixar isso para construir em outro lugar. Eu sei que eu conseguiria, mas… o meu legado está aqui. Não está na hora ainda”, divide, voltando a seus pensamentos do meio da temporada. “Uma das conversas que mais me fez ficar, também, foi com o MicaO”, conta.

“Ele estava para voltar e a gente foi numa pizzaria aqui perto. Ele disse: ‘cara, eu tô voltando e vamos nessa, vamos ganhar. Como você vai sair agora? Você não pode sair. Eu tô voltando agora. Eu quero ganhar’”, divide as palavras do atirador veterano. “Foi super significativo para mim”, assume.

PROGRESSÃO

No próximo sábado (7), o esquadrão liderado por Maestro enfrentará, pela segunda vez, o time do Flamengo, em busca do segundo título do CBLoL no ano — e o quinto da INTZ. Caso o título venha, os intrépidos terão repetido a história que o próprio clube traçou em 2016: o início do que poderia se tornar uma dinastia.

“Um dos sonhos da minha carreira, e eu acho que o mais legal de todos, é criar uma dinastia”, revela Maestro, sem prepotência na voz. “A coisa do Exodia, não é legal só por eles serem bons ou terem ganhado. É sobre as pessoas lembrarem”, divide.

“Deixar um legado sempre foi um desejo meu. Eu tenho a chance de deixar um, agora, apesar das pessoas sempre acharem a gente underdog”, brinca. “Se tem um clube que apoia a minha ideia e também quer fazer a mesma coisa, e jogadores que também acreditam em mim, acho que é uma das melhores chances que eu tenho.”

LIDERANÇA

Em seu segundo ano como head coach, assumir a linha de frente já aparenta ser natural para Maestro. Desde absorver os pontos baixos da história de seu time a levantá-los a voos cada vez mais altos, o treinador torna rotina a centralização das responsabilidades em si, e faz com que a confiança em sua figura torne-se uma das bases mais importantes da escalação intrépida.

Para ele, o papel de líder é sim exercido, mas de maneira externa. “Um líder de rotina, de vida, de saber colocar eles no pensamento e no ambiente correto”, opina.

Ele bate na tecla do profissionalismo ao explicar sobre como lida com a pressão, a responsabilidade. “Eu sempre tento pensar que todo mundo na vida tem obrigações. Todo mundo tem pressão, trabalha sob pressão, faz vestibular, estuda, faz prova, tem que entregar trabalho”, aponta.

“As pessoas relativizam [o trabalho nos esports] por ter mais público e dinheiro envolvidos. Mas se você pensar que faz parte do seu trabalho e é normal, dá para ficar mais tranquilo. Acho que eu levo para a minha vida que faço a mesma coisa que qualquer um faria”, divide.

Maestro encerra comentando, mais uma vez, o título de "melhor técnico do Brasil".

“Se as pessoas falassem que eu sou um bom treinador, eu já ficaria feliz”, confessa. “Não preciso ser considerado o melhor. Mas acho que todo mundo gosta de reconhecimento sobre o trabalho que faz. Como nem sempre isso vem, faz bem aceitar o carinho das pessoas”, comenta.

“Se as pessoas estão sendo honestas, eu fico muito feliz. Prometo que isso não vai afetar meu jeito de trabalhar e que eu vou trabalhar cada vez mais para criar boas pessoas, bons técnicos, bons atletas”, finaliza.