Como em todo esporte eletrônico, os jogos de luta possuem suas lendas, mas também suas novas promessas. No Brasil, uma dessas promessas é Raphael Henrique “Zenith” da Costa Puglielli, jogador de São Paulo que pegou todos de surpresa com sua Menat em 2018.
Vencedor dos maiores torneios organizados pela comunidade de São Paulo no ano passado, Zenith contou ao ESPN Esports Brasil que sua paixão por jogos de luta vem desde a infância.
“Minha casa sempre teve videogame. Meu pai gostava, meus tios gostavam… Acho que quando eu fiz três anos, meu pai me deu um Super Nintendo de presente. Ele veio com Super Mario e o Street Fighter 2, então eu jogava SF2 infinitamente”, lembra. “Depois, fui morar num bairro maior e tinha muita molecada de 8, 9, 10 anos, e todos eles iam no fliperama. Como era muito novo, não podia ir, então a molecada toda da rua se reunia lá na minha casa para jogar Super Nintendo”.
Zenith lembra que também “trabalhou” no fliperama do tio, na Cohab do Educandário, na Zona Oeste de São Paulo. “Eu ficava com ele ‘trabalhando’ e jogando o dia inteiro. Eu tinha ficha infinita e não gastava dinheiro, e jogava jogos como The King of Fighters e Street Fighter, tinha de tudo lá”, conta. “Às vezes eu passava duas, três semanas com ele lá, e era todo dia das nove da manhã até às quatro da tarde”.
O jogador aproveitou para explicar seu amor pelos jogos de luta: “eles têm essa pegada de ‘se você ganha ou você perde, é culpa sua’. É você que tem que ser bom, você que tem que melhorar. Se você perde não é culpa da outra pessoa ou do jogo, é porque você não é bom o suficiente”.
A VOLTA PARA O STREET FIGHTER
Segundo Zenith, suas jogatinas de jogos de luta duraram até os 15, 16 anos, quando parou para focar nos estudos e fazer faculdade. Anos depois, em 2017, já adulto e com um emprego flexível como autônomo, o jogador decidiu comprar Street Fighter V, mas confessa que não foi amor à primeira vista.
“Eu não gostei muito no começo, mas conforme foram saindo os personagens, eu ia testando. Até que saiu o personagem que eu mais gostei, que é a Menat, então eu voltei a jogar de verdade”, explica.
Mas por que a Menat? Para Zenith, a personagem é a que mais dá liberdade criativa para o jogador. “Ela não tem um ‘flowchart’, uma cartilha, para seguir. Ela é completamente situacional, tem um zoning forte e um alcance bom, apesar de ter uma defesa frágil”, detalha. “Por permitir uma maior criatividade, é muito prazeroso quando você consegue descobrir e fazer coisas novas com ela”.
ENTRANDO NO COMPETITIVO
A preferência por Menat rendeu bons frutos ao jogador. Ao se tornar o melhor brasileiro entre os jogadores de Menat no país, Zenith foi chamado para participar do grupo STKF. “Na época, eu era o único que jogava com essa personagem, então a galera me chamou para o time para poder treinar”, conta. “Foi então que conheci toda a galera da comunidade que eu não sabia nem que existia. Eu estava muito por fora, pois não joguei as versões passadas do Street Fighter e jogava apenas com a galera do meu bairro”.
Suas habilidades com a Menat também fizeram o jogador chamar a atenção dos profissionais. “Os players mais fortes queriam jogar comigo, então eu fui melhorando no jogo”, lembra. “Aí teve a primeira etapa do Rise Up no ano passado. Confesso que eu estava meio receoso de ir, porque eu achava que o pessoal da comunidade era um pouco tóxico, aí insistiram para eu jogar, então eu fui e fiquei em segundo. Joguei a final da Winner’s contra do Didimokof, ganhei e joguei a final contra o HKDash”.
Ao fim do torneio, Zenith foi convidado para fazer parte da Shodown Gaming, que dá um maior suporte aos jogadores de fighting games - como, por exemplo, custeio de passagens para participação dos torneios da Capcom Pro Tour no Brasil. “Então eu conheci melhor todos os jogadores do competitivo e o pessoal de fora de São Paulo só depois de entrar no competitivo, mas peguei gosto pela coisa. Essa foi a etapa que me fez me sentir bem e gostar bastante do competitivo”, revela.
Além do sucesso no circuito da Rise Up, Zenith também conquistou o Battle Coliseum, cinco edições do evento semanal Tiger Upper Quarta e a primeira Tiger Upper Cup, realizada no fim de 2018. E para encerrar o ano de sucesso, o jogador ficou em terceiro lugar no torneio aberto das finais regionais da América Latina da Capcom Pro Tour.
PLANOS PARA 2019
Como um dos novos prodígios do Street Fighter brasileiro, Zenith tem planos ambiciosos para este ano.
“Esse ano eu pretendo fazer uma viagem para fora e participar de um campeonato para ver como é”, afirma. “Eu tive uma experiência muito boa no ano passado durante a CPT, quando hospedei o Itabashi em casa. Ele ficou quase uma semana, e vieram outros japoneses durante esse tempo e jogamos bastante. Mesmo sendo os melhores na modalidade no mundo, deu jogo e o nível estava bem equilibrado, então quero ver como me saio lá fora”.
Ele continua: O Itabashi participou do TUQ e não conquistou nem o terceiro lugar, ele foi eliminado por mim e pelo HKdash, e ele é vice-campeão da Capcom Cup. Quando você joga com esse tipo de pessoa e tem um jogo equilibrado, dá vontade de ir lá pra fora e ver como está seu nível”.
Zenith afirma que este ano a intenção é fazer o máximo de pontos para se classificar para a Capcom Cup e se arrepende de não ter conseguido o feito em 2018. “Se eu tivesse conquistado uma colocação melhor no Treta, ou no torneio em Brasília, eu poderia ter classificado pelo menos pelo Top 8 LATAM da CPT”, diz. “O mínimo que eu quero em 2019 é ter resultados melhores que o ano passado”.
Perguntamos sobre quais campeonatos o jogador gostaria de participar, e ele deu alguns exemplo. “A EVO é um campeonato muito grande, mas eu encararia na boa. Mesmo que a possibilidade de voltar com um resultado insignificante seja muito grande, pois é muita gente, a experiência seria muito boa”, diz.
“A minha intenção era ir para Atlanta, mas eu acho que eu não vou conseguir o visto a tempo, então provavelmente devo ir para EVO, a CEO, ou um evento próximo no ano”, continua. “Até o final do primeiro semestre pretendo ir para os EUA competir. Se eu conseguir ter um resultado bom, pode ser importante tanto para mim quanto para o Brasil. Posso trazer um pouco mais de notoriedade ou destaque para o país”.
A COMUNIDADE DE JOGOS DE LUTA
Para terminar a conversa, entramos no assunto de como a comunidade de jogos de luta ainda é pequena se comparada à de outros esportes eletrônicos e como isso poderia mudar.
Segundo Zenith, o primeiro passo para a comunidade crescer é uma maior divulgação e mais iniciativas da comunidade. “Precisa de iniciativas que nem o TUQ está sendo, algo gerido pela comunidade para a comunidade”, afirma. “Se mais pessoas soubessem que isso existe, às vezes a pessoa que está lá na casa dela, com o jogo parado, vai começar a jogar, vai comparecer.
O jogador sabe que é complicado entrar no mundo dos jogos de luta porque eles pedem mais técnica da pessoa, mas diz que quem tem a vontade de jogar precisa saber “que existe uma comunidade ativa e disposta a receber novas pessoas, a ajudá-las a melhorarem, treinarem em um ambiente legal, que elas pessoas podem fazer parte disso”.
Zenith acredita que os jogos de luta podem ser comparados a esportes radicais por serem de nicho, e que para conseguir mais patrocinadores, público e participantes é necessário registro dos eventos e divulgações.
“Acho que falta vender o peixe”, crava. “Eu gosto de comparar com esporte radical, que é super de nicho. O Skydiving, por exemplo, mesmo sendo bem fechado e poucas pessoas praticarem, possuem equipamentos especialmente desenvolvidos para eles, são patrocinados... Por quê? Porque teve registro e boa vontade das pessoas que praticam, que se abriram para novas pessoas para participar do esporte”, comenta.
Por fim, Zenith levanta um ponto que também foi comentado por Vinícius Passos, um dos organizadores do TUQ: a possibilidade dos jogos de luta serem gratuitos (free-to-play) e mais acessíveis.
“Outra coisa que eu falo também é mudar o sistema de venda do jogo, talvez torná-lo free to play. Você vê que os MOBAs são bem famosos pois quase não possuem restrição de equipamento, qualquer computador roda e eles são free to play, você não precisa de muito para jogar”, compara.
Ele finaliza: “outro exemplo é o Fortnite e o PUBG, que você consegue jogar até no celular, tudo de fácil acesso. O que falta para o fighting game, já que as empresas estão querendo se incluir na gama de esportes eletrônicos, é garantir essa acessibilidade”.
