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Opinião: Os dois pesos e medidas no caso Vaevictis

Reprodução

Nas últimas semanas, um episódio ocorrido na liga russa de League of Legends (LCL) repercutiu mundialmente e causou revolta entre a comunidade de esports. A lineup feminina da Vaevictis Esports, primeiro quinteto só de mulheres no mundo a jogar uma liga oficial da Riot Games, estreou a temporada 2019 com desrespeito quando adversários do time da ROX efetuaram o ban de cinco suportes contra as jogadoras.

Para quem não é familiarizado com LoL, existe um estereótipo frequente e nocivo entre os fãs do jogo que afirma que mulheres só devem, podem e sabem jogar como suporte — a posição menos assertiva e, em tese, relevante entre as cinco apresentadas no jogo. Enquanto os outros integrantes são responsáveis por conquistarem objetivos, abates e terem protagonismo, a função dos suportes é justamente servir o restante do time, protegendo os carregadores e, eventualmente, criando jogadas.

Não vou entrar no mérito de que, em minha visão, a posição de servidão é imposta às mulheres até nos jogos online — esse não é o foco. A questão é que, entre mais de 150 campeões disponíveis, os jogadores da ROX gastaram seus banimentos retirando cinco escolhas na mesma posição, incluindo três campeãs estigmatizadas como preferidas por mulheres (Janna, Nami, Lulu, as três na primeira rotação de bans).

O acontecimento foi recebido com estardalhaço. Boa parte das mulheres na comunidade do jogo — eu inclusa — recebeu a atitude como ofensa, interpretando o fato como desrespeito à escalação feminina por afirmar, não-verbalmente, o meme de que mulher só joga de suporte. Pedidos de punição eclodiram pelo Brasil e ao redor do mundo, chegando aos tópicos mais falados no Twitter e à primeira página do Reddit. Lolzeiras desde as casuais às profissionais da área tomaram para si as dores das jogadoras — que, apesar do deboche, perderam a md1 contra a Rox.

No dia seguinte, nada havia atingido a liga russa. Outro jogo da Vaevictis, outra atitude depreciando mundialmente o campeonato — apesar da condição de vitória em mãos, os jogadores do Vega Squadron prolongaram a partida para buscar abates contra as jogadoras. O fato não abalou tanto a comunidade, ainda ferida pelo dia anterior, que considerou, apesar disso, a atitude antidesportiva e desnecessária. Mais pedidos de punição, mais silêncio da desenvolvedora.

Poucos dias depois, com a poeira um pouco mais baixa — estratégia inteligente, ao meu ver —, a Riot Games russa anunciou seu posicionamento sobre o caso. De acordo com a empresa, os dois times feriram o regulamento oficial: A ROX por discriminação, e a Vega, por atitude antidesportiva. As duas organizações foram advertidas, e uma punição ocorreria caso o cenário fosse reincidente.

Não comemorei. Divulguei e esperei opiniões, até que um colega (Gabriel “Loreviz” Loureiro, head coach do CNB) apontou: “A regra em que a Rox foi autuada é exatamente a mesma infringida por YoDa, no MSI 2017.” Lembrei, com o toque, da ocasião em que a paiN Gaming foi punida, em 2015, por um comentário contra a g3x no chat do jogo.

Punições. YoDa deixou de representar a Red Canids por três jogos no Mid Season Invitational 2017 por um comentário em sua rede social, desvinculada das mídias oficiais da Riot Games, em que afirmava: “já passei gritando flango no quarto de hotel dos japoronga”. Artigo 9.2.4 do regulamento do MSI, Discriminação e Difamação. O mesmo em que a Riot russa enquadrou a ROX.

A paiN perdeu um banimento (de três, na época) por insultos contra os jogadores da g3x. No regulamento do CBLoL, artigo 10.1.2, Profanação e Discurso de Ódio. No ano seguinte, 2016, Mylon foi penalizado sendo suspenso por duas rodadas e pagando 2 mil reais de multa por gesto ofensivo em uma transmissão. Mesmo artigo do anterior — para fins de curiosidade, a punição por atitude antidesportiva da Vega é inédita no mundo, de acordo com minha pesquisa.

Os atos dos brasileiros não foram pequenos, e as punições não foram injustas. YoDa foi racista. A equipe da paiN agiu errado, assim como Mylon. Passeando por outras punições, Shernfire, da Dire Wolves, agiu de maneira terrível ao discriminar coreanos nas filas ranqueadas (punido com suspensão de 2 partidas e multa de 2 mil dólares). De acordo com a Riot, na penalização de YoDa, a atitude de Svenskeren no Mundial de 2014 seria punida de maneira muito mais severa na época, há dois anos.

Diversos jogadores ao redor do mundo foram penalizados de maneira concreta ao infringir o exato regulamento que a ROX violou na liga russa, de acordo com a própria Riot Games, desenvolvedora de League of Legends e organizadora das ligas competitivas do jogo em todo o mundo. Sem advertências — com punições diretas.

Então por que, no caso da Vaevictis, a medida utilizada foi diferente?

A Vaevictis Esports

Até aqui, acredito que meu ponto esteja claro: já que a Riot assume que as atitudes da Rox e da Vega (especificamente da Rox por ser uma punição recorrente), a organização deve ser penalizada. Independentemente de terem sido “apenas banimentos”, como alguns argumentaram, a empresa assumiu que o time infringiu o regulamento, o que deve acarretar em punição — em qualquer outro caso, são dois pesos e duas medidas.

Mas acho importante ressaltar que a Vaevictis, enquanto organização, está muito longe de ser vítima. O argumento mais forte contrário à iniciativa da empresa, que foi trazer uma escalação completamente feminina à principal liga de LoL da Rússia, é de que as jogadoras não têm elo (ranking de desempenho no jogo) e nível para estar lá. E é verdade, elas não têm.

O ranking mais alto no League of Legends é o Desafiante, em que apenas os 200 jogadores com melhor desempenho em partidas ranqueadas no servidor se encontram — 0,06% do servidor brasileiro, e 0,09% do russo. A maioria dos jogadores profissionais no mundo vêm desta divisão, por ser uma métrica simples de habilidade no jogo.

Abaixo do mais alto, existem duas divisões também de alto nível, Grão-Mestre e Mestre. Abaixo destes, em ordem, há Diamante, Platina, Ouro, Prata, Bronze e Ferro. No Brasil, os jogadores selecionados em peneiras e com chances de jogarem competitivamente estão entre o Diamante I (divisão mais alta entre as 4 no Diamante) e o Desafiante. Apenas uma das cinco jogadoras da Vaevictis estão neste nível.

A top laner TR1GGERED é a Diamante 1 em questão. A caçadora Merao é Diamante 3, a mid laner VioletFairy e a atiradora Trianna são Diamante 4, assim como a suporte, Ankote. Além disso, observando as estatísticas das jogadoras em suas contas principais, a única jogando em sua rota de ofício é a própria suporte, Ankote. Antes de entrar na Vaevictis, as posições ocupadas agora profissionalmente pelas jogadoras eram, no máximo, secundárias.

Mas por que uma organização seria irresponsável a ponto de inscrever representantes muito abaixo do nível profissional para a principal liga do país?

A liga russa (LCL)

A LCL teve uma série de mudanças para a temporada 2019 a fim de, de acordo com a Riot, melhorar o ecossistema de esports na região. Seguindo os passos do sistema de franquias, a liga aboliu o sistema de rebaixamento para proteger as organizações e garantir um ambiente mais seguro para investimentos. Os times, no entanto, prosseguem os mesmos, e aplicações formais serão recolhidas apenas ao final da experiência e da temporada.

A mudança não foi amplamente aceita pela comunidade. Um artigo de um blog do site russo Cybersport apontou falhas no sistema. “O problema principal do sistema de franquias na Rússia e de todo o cenário de LoL no país é que as organizações são muito fracas financeiramente. Houve casos de times que não pagavam aos jogadores nada além dos subsídios da Riot (que foram cancelados nesta temporada). Sem dúvida, alguns times não conseguem competir seriamente e constantemente com monstros como a Gambit e a M19”, afirma o autor, Rusianno.

Historicamente, a Vaevictis não é uma organização forte na região. Com resultados pífios na última temporada, o time, ainda com jogadores homens, fez a pior campanha da história na LCL, vencendo apenas quatro partidas em 2018. De acordo com um relato no Reddit, a organização despediu seus jogadores e tentou vender sua vaga na liga antes do início da temporada, mas não obteve sucesso.

A decisão da organização, então, foi estratégica. A Vaevictis sabia do impacto que uma escalação feminina causaria — não sei se previam que seria global, mas sabiam que seria grande. A formação foi anunciada, e a comunidade abraçou o time como ícone de representatividade. Inocência, na minha visão. Sabíamos que aconteceriam represálias, mas os bans em suportes machucaram, de qualquer forma.

A Vaevictis também sabia. Quando um usuário do Twitter afirmou que a decisão de franquear a liga com a Vaevictis e a TJ presentes, comparando-as a uma medida dentro de jogo, a organização respondeu com um meme. A organização também publicou um vídeo que, bem, pode ilustrar a decisão da escalação feminina como estratégia de marketing.

A Vaevictis mostra que não leva a LCL a sério ao escalar cinco Diamantes para a liga de mais alto nível na Rússia. E mostra que não dá a mínima para a causa das mulheres nos games ao zombar de sua própria decisão.

E onde a Riot entra nisso?

Ao colocar TR1GGERED, Merao, VioletFairy, Trianna e Ankote no Rift, a Vaevictis tomou uma decisão grave e irresponsável. Irresponsável com o cenário russo de League of Legends, porque a permanência de uma equipe diamante na liga profissional prejudica o nível da região e do campeonato. Irresponsável com a causa feminina, pois representatividade por representatividade não serve de nada, e assistir mulheres sendo massacradas por homens no cenário profissional é revoltante para qualquer mulher que torce pelo progresso feminino nos esports.

E, acima de todos os outros fatores, irresponsável com as cinco jogadoras inscritas. O apoio à Vaevictis não é global — na Rússia, as represálias às atitudes machistas não são claras e frequentes como, por exemplo, no Brasil. As jogadoras estão ouvindo e aguentando sozinhas ofensas sobre terem o nível mais baixo do que o restante da liga. As cinco mulheres estão segurando em suas próprias costas o peso de uma decisão absolutamente irresponsável da organização que defendem.

E a irresponsabilidade vai além. Em um grupo brasileiro de mulheres que jogam League of Legends, a atiradora Trianna se pronunciou agradecendo o apoio. “Eu sei que nem todos estão felizes pelo nosso desempenho na LCL por conta do nosso elo baixo. E vocês estão certas, porque parece que só estamos lá por diversão”, começa a jogadora, que era gerente do time antes da temporada 2019.

“Mas agora, tudo mudou. Nós decidimos achar um coach, ele já está na nossa gaming house. Transferimos nossas contas para o servidor europeu e estamos jogando scrims como qualquer outro jogador profissional. Isso vai tomar nosso tempo. Uma das meninas vai sair do trabalho por conta disso, mas nós queremos melhorar! Talvez nesse split a gente não ganhe nenhum jogo, mas não deixaremos de lutar. Obrigada pelos comentários positivos, nos faz sentir que não estamos sozinha”, finaliza.

A Vaevictis estreou na liga profissional russa sem um treinador que as acompanhasse. Em um nível expressivamente abaixo do restante dos times e sem auxílio da organização para o básico, como treinos e prática.

A Riot é responsável pelo ecossistema de esports em suas ligas e, em geral, é absolutamente responsável nesse aspecto ao redor do mundo — por exemplo, no caso da KaBuM, em que a organização também foi penalizada (opa!) quando, em 2017, o time foi ao palco sem um técnico. Por que, então, a organização Vaevictis teve tanta liberdade para negligenciar sua vaga em alto nível, prejudicando amplamente o desenvolvimento e a evolução do restante da liga no processo?

Penalizar os adversários das meninas da Vaevictis nos jogos é apagar o incêndio causado por atitudes muito mais impactantes — e que poderiam ser evitadas com um cuidado extra à gestão da liga. A medida, no entanto, não deixa de ser necessária, visto que a Rox e a Vega infringiram pontos do regulamento oficial da LCL.

E, acima disso, a Vaevictis precisa ser penalizada pela grave ameaça ao ecossistema de esports do League of Legends russo, ao inscrever um time abaixo do nível e sem apoio tático da organização na liga oficial. Quando a KaBuM fez parecido, a Riot brasileira agiu. Por que com as meninas a abordagem é tão diferente?

Eu detesto ter de citar as amplas denúncias à Riot Games de perpetuar uma cultura machista em seus escritórios e na empresa como um todo, mas seria injusto não contextualizar. A multinacional já está enfrentando acusações de machismo e tratamento diferente entre homens e mulheres no âmbito interno. Nesse contexto, a Riot tem condição de realmente apenas advertir casos de machismo em seu ecossistema competitivo? Os dois pesos e duas medidas no tratamento de mulheres pela empresa serão recorrentes? Espero que não.

Agradecimentos ao jornalista russo George Yadvidchuk, pela ajuda com traduções, explicações, contexto e fontes; ao usuário do Twitter @styrriver, pelo primeiro levantamento de informações sobre a Vaevictis no Brasil; e às administradoras do grupo Guardiãs de Runeterra, pela autorização em publicar conteúdo do grupo na ESPN.