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Comunidade brasileira cria liga de Street Fighter que levará campeão para disputar no Chile

Tiger Upper Cup é uma liga criada e organizada pela comunidade brasileira de Street Fighter. Reprodução

É quarta-feira à noite em São Paulo, capital. Enquanto muitos paulistanos estão voltando para casa após um dia de trabalho ou indo para a faculdade, alguns estão a caminho da Rua Augusta com um único objetivo: jogar Street Fighter.

Criado em 2018, o Tiger Upper Quarta é um evento semanal organizado pela própria comunidade de Street Fighter no Vitrine Bar, localizado em uma das ruas mais “noturnas” da cidade de São Paulo. Dentro do local, fãs da franquia da Capcom e de outros jogos de luta se encontram para jogar, papear e, claro, competir.

Um dos integrantes da FGC-SP, responsável pela TUQ, Vinícius Passos explica que o evento “nasceu de uma brincadeira nossa porque o pessoal se encontrava muito no bar pra jogar Super Smash Bros. [franquia de luta da Nintendo]”.

“Um dia, um amigo comentou: ‘Pô, junta uma galera e vamos jogar Street Fighter’. Fizemos uma edição, duas, três e fechamos 14 edições no ano passado, com um ápice de 56 pessoas numa quarta-feira. Isso é bastante”, diz Vinícius, com orgulho.

O organizador conta que, apesar de ser uma comunidade pequena, a adesão total da TUQ foi “muito alta e até surpreendeu a gente”. “Ano passado tivemos 120 jogadores diferentes. Uma cena que tem 200 pessoas online jogando, ter tudo isso em uma cidade é muita gente, né?”, afirma.

Vinícius também comenta sobre o auxílio da comunidade, que está sempre disposta a levar equipamentos e ajudar o evento a acontecer. “A comunidade se ajuda bastante. Sempre que pedimos para trazer alguma coisa, o pessoal é solícito a trazer e ajudar a gente a fazer o torneio acontecer”, conta. “Desde o começo, a galera aderiu muito e abraçou a causa”.

Até a premiação do torneio vem da comunidade. Com uma inscrição de R$ 20 por torneio, o dinheiro é dividido entre R$ 5 para a preservação dos equipamentos e a compra de novos, outros R$ 5 ficam para a premiação da Tiger Upper Cup, e R$ 10 vão direto para a premiação.

“Na semana passada tivemos 58 jogadores, então o ‘pote’ pagou muito”, lembra Vinícius. “Uma premiação de 580 reais para uma quarta-feira é bastante, com o primeiro colocado ganhando 350 reais”.

O TUQ também tem transmissão e narração ao vivo no canal oficial do FGC-SP na Twitch.

VISIBILIDADE PARA O BRASIL

Vinícius conta que o sucesso do ano anterior resultou em uma liga para 2019, com direito a ranking de pontuação, que busca dar mais visibilidade aos jogadores brasileiros no exterior. “O Brasil é muito forte, mas lá fora as pessoas não conhecem os jogadores daqui, então a gente criou uma liga para isso”, explica o organizador.

“A cada 10 edições do TUQ, os oito melhores classificados disputam uma grande final, a Tiger Upper Cup. Quem ganhar vai para o Chile jogar o torneio da Capcom Pro Tour de lá, o Never Give Up”, complementa.

Apesar do Brasil também ter uma etapa da CPT, Vinícius acredita que a experiência de ir jogar no Chile será essencial para um jogador brasileiro. “Decidimos enviar alguém para fora porque no Chile se reúne muita gente boa do Peru, Paraguai, Argentina e do próprio Chile. Isso é uma experiência muito boa para o jogador”, afirma.

Vinícius revelou que o segundo colocado da liga também será enviado para jogar em um torneio nacional, que pode ser o Treta, Fight in Rio ou o Jam Festival. O terceiro colocado da liga receberá R$ 100 em premiação, enquanto os outros cinco jogadores receberão medalhas de participação.

Além disso, Vinícius fez questão de frisar que a iniciativa é 100% da comunidade, que tem contato com organizadores de torneios da América Latina e do Brasil. “Temos alguns patrocinadores até, mas [a iniciativa] é majoritariamente sustentada pela comunidade”, aponta.

O organizador aproveitou para fazer um convite aos interessados em participar. “A TUQ acontece toda quarta-feira. Começamos dia 16 de janeiro e vamos parar só em novembro. O evento tem início às 19h30 e o valor de inscrição é 20 reais. Quem quiser vir só para jogar e não competir, a entrada é aberta ao público. Pode vir que vai ser bem tratado”, garante.

RECONHECIMENTO DE PROFISSIONAIS

Na última quarta-feira (23), quando visitamos o TUQ para conversar com os organizadores e participantes, tivemos a sorte de encontrar com Renato “Didimokof” Martins, um dos melhores jogadores brasileiros de Street Fighter V atualmente.

Após passar seis meses treinando nos Estados Unidos, Didimokof voltou ao Brasil e não perdeu tempo para colocar seu treinamento em ação. O jogador venceu a TUQ da semana e elogiou o evento para o ESPN Esports Brasil.

“Eu acabei de vir lá de fora, e aqui a estrutura é bem melhor. Fiquei uns seis meses lá em Las Vegas e me atrevo a dizer que se a estrutura daqui estivesse lá, teria muito mais sucesso”, crava. “São meus amigos de 10 anos que estão organizando isso, e gostei muito. Não é todo lugar que consegue fazer uma estrutura como essa”.

Além de afirmar que pretende participar da TUQ sempre que possível, Didimokof adiantou que tem planos grandes para 2019. “Eu vou continuar treinando Street Fighter e pretendo jogar outros jogos, como Mortal Kombat e Samurai”, conta.

“Se eu for para a EVO este ano, quero jogar pelo menos dois jogos porque compensa", continua. "Você vai para longe jogar apenas um campeonato só? É melhor tentar em vários, porque pode ser que um dê certo. Se eu achar que estou num nível legal para competir, vou participar de outros torneios”.

Didimokof também comentou sobre como o nível do competitivo de Street Fighter está aumentando, principalmente no Brasil. “Antigamente, quando eu comecei a jogar, eram duas pessoas que estavam no mesmo nível, e agora não consigo nem contar nos dedos”, diz.

“Eu posso vir num campeonato desse e perder para umas 10 pessoas. Tem muita gente boa aqui. O nível do Brasil está bem mais forte do que em Las Vegas, ainda mais com essa união, que cada um ensina o outro. Lá fora era cada um no seu canto, quieto”, revela.

O FUTURO DA COMUNIDADE DE JOGOS DE LUTA

Apaixonado desde criança por franquias como King of Fighters, Vinícius conta que entrou no competitivo dos jogos de luta em 2012, quando viu um vídeo de uma luta entre Kleber Yagami e Tokido no Treta. “Vi a galera curtindo e falei: ‘Nossa, preciso fazer parte disso!’”, lembra.

A história dele não é muito diferente da de outros integrantes e jogadores da comunidade. No entanto, a comunidade continua pequena comparada à de outros jogos. Quando perguntamos sobre isso para Vinícius, o organizador afirma que isso pode ter relação com o “ar intimidador” de um jogo de luta.

“Um jogo de luta intimida bastante, e se você não sabe jogar, não tem conversa, vai perder. Então é um tipo de jogo que requer muita maturidade”, opina. “Mas acho que hoje o ‘gap’ [a diferença] entre o cara que é muito bom e o cara que está aprendendo está diminuindo. Isso já está acontecendo com o próprio Street Fighter, Marvel vs Capcom e o Dragon Ball Fighter Z, que também tem um apelo legal por ser um anime. Só que é um trabalho embrionário, que precisa crescer bastante”.

Vinícius diz que a comunidade faz sua parte ao ser acolhedora a quem tiver interesse de começar a jogar, mas que falta um pouco de investimento das próprias produtoras dos jogos. “Até mesmo fora da América Latina tem reclamações sobre isso”, aponta.

Porém, faz questão de lembrar que existem, sim, novos talentos surgindo em uma “onda de renovação”. “Tem um jogador chamado Destroyer, do Nordeste. Um jogador muito bom que tem só 14 anos, mas que não conseguiu participar da Brazil Premier League da ESL por não ter idade o suficiente”, conta.

“Não vamos conseguir competir com um League of Legends da vida, pois ele é bem inclusivo e roda em qualquer máquina. Já Street Fighter é um jogo bem pesado, então não é qualquer máquina que roda”, complementa. “Eu acho que numa nova geração e com a produtora trabalhando melhor nessa parte, fazendo o jogo ser free-to-play ou rodando em máquinas mais fracas, talvez ajude a trazer mais investimentos e novas pessoas para a FGC”.

UNIÃO DAS COMUNIDADES

Street Fighter pode ser um nome de peso no competitivo de jogos de luta, mas não é o único. Por isso, Vinícius e o restante do grupo FGC-SP sabem que podem e devem abraçar outras franquias, e deram ao ESPN Esports Brasil em primeira mão a novidade de que estão planejando um torneio de Mortal Kombat.

“Assim que lançar o Mortal Kombat 11 [23 de abril], estamos planejando campeonatos do jogo no Vitrine de terça ou quinta. Ainda não definimos o dia, mas será no mesmo modelo que o TUQ”, revela.

Além disso, o grupo está ajudando a organizar um evento especial chamado Ultimate Crush Counter para fevereiro. “O nome do torneio é uma brincadeira com Smash Bros. Ultimate e um golpe de Street Fighter, o Crush Counter”, explica Vinícius.

“O UCC é uma primeira tentativa de reunir os três grupos: a Team Dash, de Super Smash, a No Limits, que é quem organiza o circuito Rise Up, que já tem sete anos, e a gente da FGC-SP, que embora tenha uma bagagem grande, é um time relativamente novo. Estamos juntos desde agosto do ano passado e não temos nem um ano, mas temos o know-how de torneios”, detalha.

O Ultimate Crush Counter acontecerá em 16 de fevereiro na Max Arena, em São Paulo, e terá torneios de Super Smash Bros. Ultimate e Street Fighter V com direito às finais sendo disputadas em um palco, além de uma área free-play para o público.

O ingresso para o evento é de R$ 20. Jogadores que decidirem disputar os torneios precisam se inscrever antecipadamente aqui e pagar mais R$ 20 por jogo.

Para saber mais sobre o UCC, acesse o evento oficial no Facebook.