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Análise: O amor do torcedor por seu clube é a alma de PES 2019

Philippe Coutinho é a estrela da capa de PES 2019 Reprodução/Konami

Entre 2005 e 2013, trabalhei na editora de revistas Digerati, época que “PlayStation” era sinônimo de “videogame” no Brasil, e Winning Eleven, o nome anterior à globalização da franquia Pro Evolution Soccer, soberano. Na redação, após o expediente, todos se juntavam para os torneios de WE. FIFA? FIFA era para quem só perdia em WE. Foram tempos de glória para quem teve a chance (o editor do ESPN Esports Brasil, Rodrigo Guerra, é um deles) de viver algo tão pequeno e gigante para aqueles jogadores.

O futebol é algo intenso, mesmo no mundo virtual, para quem curte.

Anos se passaram e a EA Sports resolveu que tomaria a frente no gosto dos jogadores de todo globo - e investiu pesado. A cada nova temporada, o duelo pelo público entre FIFA e PES foi intenso. As franquias sofreram metamorfoses, inverteram seus estilos “arcade e simulador”, lutaram por direitos de licença até que FIFA passou a estar na frente. Mesmo assim, PES ainda está no jogo.

PES e a Konami têm sofrido perdas de licença nos últimos anos que afetaram a maneira como recriam o cenário mundial do futebol, muitas vezes tendo que contar com times, jogadores e uniformes genéricos. Mas o que ela nunca perdeu foi a forma de sua visão de futebol. Assim como um meia habilidoso que improvisa para dar um passe que coloque seu colega na cara do gol, a desenvolvedora japonesa optou por caminhos diferentes para se manter firme.

QUEM NÃO TEM CÃO...

Após 10 anos, o principal torneio de clubes do mundo não faz parte de Pro Evolution Soccer, que acabou parando em FIFA 19. Soma-se o fato da equivalente americana, a Libertadores, também não estar presente. Este cenário de “terra arrasada” acelerou um processo de jogos anteriores à 2019: a Konami passou a formar alianças para a “guerra” pelo gosto do jogador.

Grande times do futebol mundial, como Barcelona, Liverpool, Milan, Inter de Milão, além de ligas de primeiro e segundo escalão e o Brasileirão, tornaram-se seus soldados. Infelizmente, não são todos os torcedores de cada país que terão a chance de jogar com seu time – ou ao menos uma versão camuflada – em PES 2019. Mas onde o aperto de mão entre Konami e o time deu certo, há o que comemorar.

No Brasil, seguindo pesquisas de opinião, a Konami conseguiu se associar aos cinco times com maior torcida para criação de parcerias mais fortes. Então as torcidas de Flamengo, Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Vasco da Gama estão devidamente representadas, uma parcela considerável de um cenário perfeito e longe de se concretizar.

A tal “geração PlayStation”, torcedores que preferem gastar suas lágrimas de alegria e tristeza com times do exterior, não tem a mesma ligação do torcedor brasileiro comum e seu clube do coração, aquele que ama e odeia seu clube, que vibra no estádio e fica nervoso coma brincadeira alheia.

Aqui está o segredo de PES 2019, principalmente com o público brasileiro. Mesmo entre os demais grandes times da primeira divisão nacional que não possuem a tal parceria, sabem que, nada substitui para quem é torcedor de um clube daqui escolher seu time, jogar em seu estádio e controlar seus ídolos. A Konami soube usar o que tinha a disposição.

Uma vez que você pode jogar com um time daqui ou do exterior, os modos de jogo seguem a mesma configuração dos últimos anos. Além de partidas avulsas, torneios personalizáveis (Copa e Liga) e Co-Op, Pro Evolution Soccer 2019 brilha em seus modos clássicos.

Na Master League, o modo mais tradicional da franquia, administramos uma equipe para torná-la vencedora com um orçamento limitado. É preciso mesclar grandes nomes com jovens promessas para ter um nível competitivo. Os menus te bombardeiam com informações para munir suas decisões a cada temporada.

Em Rumo ao Estrelato, o modo Carreira do game, criamos um jogador que está no início de sua carreira e deve evoluir para alcançar voos maiores. Sua performance é medida, assim como sua contribuição para o time para conquistar vitorias e títulos, para se tornar cada vez mais importante no cenário. Por fim, myClub, modo que a Konami tenta emplacar na esteira do sucesso do Ultimate Team de FIFA. Nele, montamos um time reunindo os melhores jogadores possíveis sorteados na “roleta das bolas”. Aqui, se destacam os atletas lendários, jogadores com alto rating que fizeram história no futebol.

ROLOU A BOLA

Tecnicamente, Pro Evolution Soccer 2019 tem mais altos do que baixos. Graficamente é muito bonito, mas a movimentação dos avatares em campo, com seus engasgos nas transições de animações, faz com que o game perca em fluidez. Em contrapartida, a gama de animações disponíveis para o jogo usar é excelente. Para um mesmo lance, jogadores têm à disposição movimentos variados, destacados ainda mais nos craques e seus trejeitos famosos.

O visual dos avatares é de alta qualidade nas estrelas, mas na grande maioria, nos jogadores genéricos, há apenas uma vaga lembrança que força a imaginação do jogador. A iluminação é nova, graça a tecnologia Enlighten, e age bem sobre o jogo mostrando boas diferenças em diversas situações, períodos do dia e clima.

A atmosfera em PES 2019, algo tão importante em um esporte de massa, manda bem na soma das partes que a compõe. Como citado acima, a aposta em parcerias faz com que nem todo torcedor esteja devidamente representando no game. Mas aquele que está é bastante recompensado.

Um dos elementos mais importantes na atmosfera do jogo é o palco da partida, e o jogo recria muitos tempos do futebol como Camp Nou (exclusivo), San Siro, Anfield, dentre outros. Para os estádios brasileiros, a lista é fenomenal: Maracanã, São Januário, Toca da Raposa III (Mineirão), Arena Corinthians, Beira-Rio, Morumbi, Urbano Caldeira (Vila Belmiro) e Allianz Parque. O estádio do Palmeiras, inclusive, terá uma versão retrô quando o antigo Palestra Itália for simulado em toda sua glória em uma futura atualização.

O sentimento de jogar em locais familiares ao nosso futebol é algo que FIFA não tem e dá força à PES. Exceto pelas faixas com frases genéricas, a torcida “canta e vibra” no Allianz, entoa seus cantos no Beira-Rio e grita a plenos pulmões na Arena em Itaquera.

Na área do som, um ponto importante: a narração. Trata-se de um elemento regional fundamental, ainda mais que a versão brasileira é composta por dois nomes muito importantes. No entanto, Milton Leite e, principalmente, Mauro Beting, sofrem com o texto de PES 2019. Milton tenta impor sua narração com frases sarcásticas de lances bisonhos, mas fica longe do padrão que ele desempenha na TV. Ele e Mauro sofrem com muitas frases genéricas e repetitivas.

Em PES 2018, havia o problema do volume da narração, que entregava o uso conjunto de frases novas e antigas, reutilizadas de games passados. PES 2019 está mais uniforme quanto ao volume da narração, mas ainda há um problema grave de entonação e intenção de frases-chave encaixadas a nomes de time ou jogadores. No game, quando o jogo usa partes das frases como “Palmeiras, precisa melhorar seu futebol”, há um hiato entre o nome do time e o resto da frase que incomoda muito e transparece uma quantidade de frases gravadas abaixo do necessário ou descuido por parte do estúdio de gravação.

No campo da jogabilidade, o mais importante do simulador, PES segue com um estilo particular que o distingue de FIFA. É um jogo de lançamentos mais longos e arremates ao gol, além de muitas trocas de passe.

A cada nova temporada é preciso antecipar cada vez mais as intenções dos adversários para deter seus lances, pois o jogo impede movimentos bruscos, como cortes e mudanças de direção na marcação. Um sintoma é a efetividade das tabelas, no qual seu adversário precisa muito antes do primeiro toque se movimentar na direção de quem iniciou a jogada receber a bola do companheiro.

A movimentação controlada pela Inteligência virtual é bem calibrada, tanto em seu time quanto no adversário, oferecendo um posicionamento de qualidade para marcar e dar opção de passe. Assim, você nota que é necessária certa paciência para encontrar o momento ideal do passe, elemento antigo no DNA da franquia, onde o passe encontra o pé do alvo, bastando mirar até com certo desleixo.

O cansaço é visível nos avatares e afeta nitidamente seus movimentos. Uma vez perceptível, nos ajuda a saber quem precisa ser substituído.

Por fim, o goleiro em PES 2019 possui um incrível “sangue-frio” para ficar próximo de sua meta. Dificilmente sai para dar combate a um atacante que sai na cara do gol. Trata-se de um erro de calibragem, pois uma vez parado, fica mais “fácil” chutar em um de seus cantos.

ETERNO ENQUANTO DURE

Fica então a questão para a Konami e Pro Evolution Soccer 2019, um game que tem muitos predicados, de como tratará seu jogador/torcedor. É preciso que a empresa mantenha seu jogo atualizado (elencos, jogadores e rating), que faça as mudanças decorrentes de contratações e saídas.

O “dia 1” de PES 2019 na mão dos jogadores já traz elencos de vários times com discrepâncias, como Vinícius Júnior no Flamengo e Keno no Palmeiras. A Konami responderá com atualizações logo no início da vida útil do game, mas é preciso que essas correções se mantenham regulares para que o encanto não se torne um pesadelo.

Será que os campeonatos da Digerati seriam disputados hoje em FIFA? Ou PES se manteria o posto de jogo oficial? Nunca saberemos. O que sabemos é que a nova temporada de Pro Evolution Soccer poderia marcar a derrocada da franquia com a perda da Champions League entre seus modos de jogo, mas na verdade mostrou que o futebol virtual vai além de contratos. Seus fãs têm com o que se orgulhar.