Texto originalmente publicado em ESPN Esports.
Uma névoa artificial dramática e uma tela de computador separaram Ian Alexander da multidão no campeonato universitário de League of Legends realizado durante a DreamHack Denver, em outubro do ano passado.
Uma câmera à esquerda de Alexander transmitia ao vivo as deliberações pré-jogo da equipe, enquanto a equipe de transmissão fazia seus comentários. Dobrada sobre o encosto da cadeira de Alexander está uma jaqueta cinza-azulada com a palavra “CHALLENGER” bordada na fonte de League of Legends no lado esquerdo do peito.
O que essas câmeras não captaram, entretanto, foi a parte mais interessante da jornada de Alexander até aquela cadeira.
Aos 18 anos, Alexander é um dos melhores jogadores de League of Legends da América do Norte. Em seu auge, “MistyStumpey” (como é conhecido no LoL) era o 12º colocado no ranking solo do jogo. E o topo chegou lá usando apenas sua mão direita e um único dedo de sua mão esquerda.
Quando MistyStumpey afastou sua cadeira para discutir estratégias com o técnico da Columbia, ele pegou seu “cotoco”, como ele mesmo chama, no momento em que entrou no enquadramento da câmera para a transmissão ao vivo. Ele frequentemente brinca com o único dedo na ponta de seu braço esquerdo, que termina em uma mão parcial, onde normalmente estaria seu cotovelo. Ele consegue mover o dedo, mas não completamente. Ele é praticamente só cartilagem, então não dobra nas articulações. Alexander consegue usá-lo para pressionar as teclas, mas precisa mover seu pulso para ir de um botão ao outro.
Imagine o que é preciso para ser um dos melhores jogadores dos EUA apesar dessa deficiência, lado a lado com jogadores da Cloud9 e FlyQuest e, sim, até Søren “Bjergsen” Bjerg da Team SoloMid, no ranking solo desta temporada.
Em sua foto promocional para a DreamHack, MistyStumpey flexiona seu braço direito, olhando por cima de seu ombro para a câmera. Mas, por alguma razão, a foto foi espelhada, fazendo parecer que ele está flexionando um braço esquerdo inteiro, como se ele não tivesse nenhuma deficiência.
Em seus melhores dias, ele realmente faz parecer que é isso mesmo que acontece.
“Ele é um jogador de nível profissional com quatro dedos a menos em sua mão do teclado”, disse Drake Porter, Analista Estratégico Sênior de E-sports da Columbia College. “Tecnicamente, ele não deveria estar nem perto de ser tão bem-sucedido quanto é”.
O cérebro de MistyStumpey funciona ainda mais rápido que suas mãos. Quando não é desafiado, ele se entedia. Normalmente, consideraríamos que superar a ausência de um braço seria um desafio por si só, mas como explicou sua mãe, Valerie Alexander, “simplesmente não é o suficiente”.
MistyStumpey foi adotado da Coreia do Sul aos seis meses de idade e cresceu em Blue Springs, Missouri. Sua deficiência é congênita, e ele começou a desafiá-la desde cedo, também. Aprendeu a fazer malabarismos com camisas quando tinha 6 ou 7 anos. Fez livros de atividades para sua irmã mais nova, lojas e dinheiro de brinquedo para seus pais e arcos e flechas para si. Aprendeu a nadar e construiu uma fita métrica improvisada de LEGOs para sua mãe quando a dela quebrou.
“Ele simplesmente encontrou um jeito”, afirmou seu pai, John Alexander.
Apesar de sua deficiência, Ian frequentemente alcançou excelência tanto em desafios físicos quanto mentais. Ele jogou futebol por anos e rapidamente dominou mecânicas de jogos estratégicos de tabuleiro, ensinando a sua família o caminho para se ter melhores pontuações - um prelúdio, talvez, à sua habilidade em League. Ele venceu John Grubbs, seu melhor amigo desde a infância, no four square, apesar dos dois braços de Grubbs.
MistyStumpey diz que tirou parte dessa inspiração de seu pai, que tem paralisia cerebral no lado direito do corpo.
“Sua capacidade de trabalhar e se adaptar à paralisia foi basicamente uma validação para mim”, disse MistyStumpey, “Se ele conseguiu, então eu posso me adaptar facilmente”. A maior fraqueza de MistyStumpey é que ele perde a motivação quando não é estimulado. Às vezes, tem dificuldade para sentir vontade de ir a faculdade - não por causa da preguiça, mas porque nem sempre acha as aulas desafiadoras.
Quando é testado por um assunto ou por outra pessoa, no entanto, ele se ergue imediatamente. Uma vez, ficou muito confortável com sua atuação no League e foi pisoteado por outra equipe. Sua reação: praticar mais e subir no ranking.
“Sempre que ele sente que não está sendo desafiado, ele simplesmente empurra com a barriga”, aponta Porter. “Ele tem um talento natural escandaloso. ... Eu realmente sinto que se ele se concentrar em algo, provavelmente será capaz de fazer tudo o que quiser. Eu acho que, de todos os nossos jogadores, ele teria a chance mais fácil de chegar à LCS, se assim quisesse”.
Porém, desenvolver a confiança para abraçar essa habilidade natural levou tempo. Na transição para a adolescência, Alexander ficou mais autoconsciente de sua deficiência. “Quando você é uma criança pequena, você não pensa em nada”, afirmou MistyStumpey. “Diziam ‘Oh! Ele só tem um braço!’ e eu pensava ‘eu não ligo’. E aí você vai para o Ensino Fundamental e começa a ligar”.
Sua ansiedade ficou tão ruim que ele foi diagnosticado com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, e transtorno de ansiedade, mas eventualmente superou essas questões.
Agora, quando MistyStumpey percebe as pessoas olhando estranho para ele - um “sexto sentido” que diz ter desenvolvido depois de uma vida inteira de pessoas olhando para ele - ele não se incomoda mais.
“Eu penso comigo mesmo, ‘eles estão apenas curiosos’, não é?” MistyStumpey disse em novembro. “Não é como se eles tivessem alguma má intenção”.
“Muitas pessoas vieram até mim no mês passado e disseram ‘eu não havia reparado que você tem só um braço’. Elas pensam que por ter só um braço, eu vou agir de uma forma estranha ou diferente, mas aí percebem que não há nada diferente na forma como eu ajo, então ninguém realmente repara nisso”.
MistyStumpey, que terminou o Ensino Médio na época que a maioria das pessoas termina o primeiro ano, se matriculou na faculdade comunitária Longview aos 16 anos de idade. Ele chamou a atenção da Columbia College em junho de 2016, quando chegou à página inicial do subreddit de League of Legends em uma publicação de ‘pergunte-me qualquer coisa’ (ask me anything, em inglês):
“Nascido com uma mão, jogando como se tivesse duas. Nível Mestre!”
Os comentários eram muito positivos. Algumas pessoas estavam maravilhadas com sua capacidade de jogar com personagens como Zed, que requer toques ágeis nas teclas, com tamanha sutileza, dada sua condição.
“Seria honestamente mais fácil de acreditar se você fosse um esquiador olímpico ou jogador de futebol de nível mundial com esse tipo de deficiência”, comentou alguém, “especialmente considerando o uso extensivo do teclado”.
O pai de MistyStumpey, então, contatou os Cougars, que haviam anunciado em 2015 que patrocinariam uma equipe de League of Legends no ano seguinte, para perguntar sobre bolsas de estudo. Ele conseguiu um teste com a equipe logo depois.
MistyStumpey, como a maioria das estrelas solo, estava acostumado a “carregar” o time nas costas, o que o levou a um estilo de jogo um tanto quanto imprudente.
“Quando ele estava fazendo o teste para a equipe, eu dei uma revisão negativa”, lembrou Dean “CC Dean” Wood, um dos companheiros de equipe de Alexander. “Ele entrava em disputas sozinho contra três ou quatro jogadores - simplesmente não fazia jogadas pensando na equipe. Eu não achava que ele tinha a mentalidade correta”.
Mas as habilidades de MistyStumpey eram muito grandes para a Columbia descartar. Ele entrou para o time no outono de 2016, e a avaliação de CC Dean eventualmente mudou. “Ano passado”, disse, “ele conseguiu atropelar os adversários em sua rota praticamente todos os jogos”.
MistyStumpey também recebeu ofertas de bolsas de estudo da University of Pikeville e da Robert Morris University antes de escolher a Columbia. Após seu primeiro ano lá, MistyStumpey conta que recebeu ainda mais ofertas “de umas 40 outras instituições”, mas escolheu ficar com os Cougars.
“Ainda estava perto de casa, recebi uma bolsa de estudos substancial para este ano e também já conhecia todos e já estava familiarizado com o programa”, explicou MistyStumpey. “Eu estou aqui desde que o programa começou e pude ajudar a moldá-lo dessa forma, o que eu gostei. E com todos que conheci, entendi que poderia continuar ajudando a moldá-lo da maneira que eu pensava que deveria seguir”.
Em seu primeiro ano na Columbia, MistyStumpey também melhorou como um companheiro de equipe, e suas escolhas e disputas arriscadas se transformaram em jogadas chave para os Cougars.
No jogo final da competição na DreamHack, MistyStumpey escolheu jogar com Ornn, um novo campeão com o qual poucos tinham experiência na época. Com apenas um punhado de partidas solo como Ornn, ele também não tinha muita experiência com o campeão.
Mas havia jogado o suficiente - e assistido outros jogadores profissionais - para saber o que estava fazendo. Ele também sabia que havia uma chance muito pequena de o time adversário, a University de Houston, saber como contrapor Ornn.
“Ian apenas disse: ‘A melhor escolha agora é Ornn’”, lembrou Porter. “Ele explicou como o campeão funcionava enquanto estávamos entrando na partida. Ganhamos com um ‘stomp’”.
Na vida, assim como em League, MistyStumpey gosta de ter um plano de jogo - um plano de jogo do tipo “daqui a cinco anos”. Atualmente, ele está planejando levar seus talentos à liga norte-americana do jogo, a LCS NA.
“Esse é basicamente o maior objetivo, apesar de ter algumas dúvidas precoces sobre se conseguiria”, confessou MistyStumpey. “Agora estou certo de que isso é algo que está na minha lista de coisas que preciso fazer”.
MistyStumpey, apesar disso, tem um plano reserva. Ele está interessado em trabalhar com ciência da computação, como seu pai, que é desenvolvedor de software. Esse campo, assim como League, lhe permitiria resolver novos problemas constantemente. Mas a esperança real é se tornar um jogador profissional e ganhar notoriedade como streamer. No centro de seu sonho de chegar à LCS, estão o seu espírito competitivo e seu desejo de se desafiar.
“Vindo de uma posição na qual eu tendo a ter que me esforçar mais para atingir o mesmo que outras pessoas”, no jogo, explicou MistyStumpey, “sempre que outras pessoas têm mais capacidade, mas escolhem não se esforçar o suficiente para conseguir, isso me deixa nervoso. Elas têm muito mais oportunidades, mas basicamente escolhem desperdiçá-las”. MistyStumpey diz que essa ênfase na importância do trabalho duro o ajudou a se manter humilde, apesar de seu aparente talento natural para o jogo. Ele afirma que não menospreza jogadores de classificações mais baixas, pois ele mesmo começou na mesma posição que eles estão.
“Quando comecei, eu era péssimo. Na minha primeira temporada, eu fiquei no Bronze”, confessou MistyStumpey. “Eu compreendo que seja um processo de desenvolvimento, então poder ajudá-los a chegar lá me mantém humilde, pois eu basicamente entendo o que eles estão passando”.
“Eu compreendo que não é simplesmente ‘Oh, ele é um jogador profissional, ele nasceu assim’. No final, se resume ao esforço que você investe”, completou. E com apenas mais um pouco de trabalho duro, MistyStumpey diz acreditar que pode faturar uma colocação no Scouting Grounds da LCS NA em 2018.
“Neste ano, eu estive a poucos jogos de ir ao Scouting Grounds”, contou MistyStumpey em uma entrevista em dezembro. “No ano que vem, eu provavelmente estarei muito mais bem colocado do que neste ano, simplesmente porque é assim que fui melhorando ao longo dos anos. Então definitivamente acredito que ano que vem eu serei material de primeira”.
