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Com passagens por Europa e China, Lessa faz história nos EUA ao comandar time masculino de futebol

Christiane Lessa começou uma trajetória brilhante quando, aos 18 anos de idade, recusou uma proposta para integrar a seleção brasileira sub-17 de futebol que, na época, era recém-formada. A escolha tinha um destino certo: estudar e jogar futebol nos Estados Unidos.

“Vim para os EUA porque achei que tinha mais oportunidade aqui e seria mais valorizada, eu senti na época”, disse Lessa ao espnW.com.br.

Mas paralelo com a vida de jogadora, ela conciliava a vida de treinadora. Desde então, ela só cresceu. Lessa treinou a equipe sub-20 do Washington Spirit (NWSL) em 2017. Em seguida, foi para o Shandong (sub-20), da China como treinadora principal. Na Noruega, ela foi auxiliar do Avaldness, passou pelo Sky Blue dos EUA para agora, ter se tornado a primeira mulher a ser auxiliar técnica de um time masculino de futebol na liga norte-americana profissional; o Atlanta Soccer Club.

De janeiro a julho deste ano, Lessa estava como interina no Sky Blue, time de Carli Lloyd, duas vezes eleita melhor jogadora do mundo. Mas a proposta para comandar o Atlanta a brilhou os olhos e fez com que ela fosse fizesse a mudança.

Apesar de ainda não ser uma MLS nos Estados Unidos, o Atlanta faz parte da NISA (Associação Nacional Independente de Futebol), liga fundada em 2017. O início da temporada será no dia 14 de setembro e o primeiro jogo oficial de Lessa, contra o Stumptown Athletic, da Carolina do Norte. E ela descarta o nervosismo.

“Dessa vez não estou nervosa”, disse Lessa que ainda confessou ter se sentido mais ansiosa quando trabalhou com Carli Lloyd. “Estou achando meio esquisito porque com a Carli Lloyd eu fiquei muito nervosa no começo”.

E apesar de agora comandar um time masculino, ela afirma não ter sofrido preconceito. “Com jogador da seleção de Gana, da Libéria, jogador homem, fiquei com medo de preconceito, mas nem liguei, já sabia como me comportar, está sendo maravilhoso, eles abriram os braços e estão me respeitando, me chamando de coach Lessa”, falou.

O SONHO ADIADO DE VOLTAR AO BRASIL

Lessa está longe do Brasil desde 2001. Seu sonho era voltar para o país natal e, quem sabe, comandar um time por aqui. Mas o novo desafio da ‘coach Lessa’ a brilhou os olhos e fez com que ela descartasse voltar por agora.

“Sempre falo para Nina [agente de Lessa] que quero voltar ao Brasil. Mas depois que essa situação aconteceu [trabalhar no futebol masculino] eu dei uma acalmada e sei que na hora certa vai acontecer”, falou a auxiliar.

A princípio, o contrato dela com o Atlanta vai até dezembro, mas ela disse que o presidente do clube não deu um limite. “Ele [presidente] falou que espera que eu nunca mais procure por trabalho nenhum”, disse. Ela trabalha ao lado do técnico Roberto Neves e de mais um auxiliar, João Guilherme, que foi quem a levou para lá.

Lessa diz ter objetivos maiores, mas para ela, nada é maior do que estar lá neste momento, porém deixa claro que não fecha as portas para lugar nenhum – exceto para a Europa.

“A Europa é o único lugar que já passei e não sinto vontade de voltar, a menos que seja por algo milagroso. Minha vontade hoje é ficar nos EUA ou voltar para o Brasil”, disse.

Antes do Atlanta, ela recebeu também uma proposta do LA Galaxy para trabalhar com a base, mas recusou. E em relação ao Brasil, diz que não tem nenhum clube de preferência. “Quero trabalhar num clube que me dê um desafio [...] e a estrutura necessária para desenvolver meu trabalho. A melhor coisa que existe para o treinador de qualquer gênero, é trabalhar para alguém que quer você e acredite em você”, complementou Lessa.

Ela também afirma que o maior desafio foi ter trabalhado na China, onde ficou durante quatro meses comandando o Shandong Province. Lessa citou a língua, a cultura e ainda afirmou admirar as jogadoras que passam um tempo por lá, como foi o caso de Cristiane.

“Sei que o dinheiro é realmente muito bom. Meu salário foi o melhor da vida, mas admiro [quem fica]. Tem que ser muito forte, muito... tem que ter um objetivo bem claro na mente. É como se fosse uma necessidade. E no masculino também”, dividiu Lessa.

Ela também admitiu estar satisfeita por viver em Atlanta. “Aqui é um dos melhores lugares dos EUA se não o melhor, além da Califórnia. O público abraçou o futebol aqui. O Atlanta United cresceu e todos os homens, mulheres, crianças estão dando muito suporte. Então somos como ‘filhos’ deles [Atlanta United Football Club, da 1ª divisão]”, contou Lessa.

A RELAÇÃO COM CARLI LLOYD

Duas vezes melhor do mundo e bicampeã mundial com a seleção norte-americana, Carli Lloyd sem dúvida alguma é um ícone no esporte. E para Lessa, ter ficado ao lado dela foi como algo de fã para ídolo.

Após ter passado 20 anos nos EUA, Lessa estava no Brasil e era onde queria ficar, até que recebeu uma ligação convidando-a para ser assistente no Sky Blue. Mesmo sem o salário ideal, ela aceitou por achar que seria algo a mais para o currículo.

“Quando eu me toquei, Carli Lloyd... NWSL... Eu falei ‘nossa, será que isso é real?’”, confessou Lessa, que completou: “No primeiro treino ela veio se apresentar para mim e eu estava muito nervosa, não vou mentir”.

Lessa, que já teve a oportunidade de jogar um curto período com a Marta, no Vasco, reconhece o talento da brasileira, mas destaca Carli Loyd, alguém que define como ‘mentora’: “Eu nunca vi ninguém além de Marta treinar com a intensidade e o profissionalismo [de Lloyd]. Ela joga muito! Ela joga muita bola! Treina melhor do que qualquer atleta que já vi na minha vida, ela é incrível”.

Lessa ficou no time da NWSL de janeiro a julho de 2019 e, após a demissão da técnica, ela desanimou de ficar por lá e sentia que não era mais o seu lugar, mas aceitou ficar como interina por um tempo até que Lloyd voltasse da Copa do Mundo. Foi quando recebeu a proposta do Atlanta e aceitou por já ter o objetivo de trabalhar no futebol masculino.

“Quem tem um sonho pode conquistar qualquer coisa, não desista dos seus sonhos. Quando você menos espera, ele acontece”, encorajou Lessa.

Brasileira e agora, a primeira mulher no país mais desenvolvido do mundo a comandar um time masculino, Lessa destaca: “Conheço muitas treinadoras americanas que queriam muito poder trabalhar com qualquer nível. Eu não tinha noção que poderia acontecer tão cedo. É outro mundo, mas não é nada de bicho de sete cabeças que a mulher não tenha potencial de conquistar”, finaliza.