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Ela trocou seleção brasileira pelos EUA; agora está na Champions

Christiane Lessa é técnica do Avaldsnes, da Noruega Arquivo pessoal

Christiane Lessa chegou à Noruega no dia 19 de janeiro, para assumir o posto de técnica do Avaldsnes, equipe que sempre disputa a Uefa Champions League feminina. Sua conquista é fruto de uma decisão que tomou lá atrás, em 2001: aos 18 anos, escolheu estudar e jogar futebol nos Estados Unidos, em vez de aceitar o chamado para integrar a recém-formada seleção brasileira sub-17. Foi sua trajetória de sucesso de mais de dez anos em sua nova casa que lhe abriu as portas para chegar à Europa.

O Avaldsnes está cheio de conterrâneas. “Eu queria mais pressão, vencer novos desafios. Aceitei a proposta sem nem saber do salário porque sabia que, na Europa, teria a estrutura necessária para crescer. O time já tinha quatro brasileiras e contratei mais uma. Quero que todas estejam acima do nível da seleção brasileira. Nunca conquistamos a liga nacional e a Champions. Essas são as metas. Temos que corrigir alguns problemas táticos”, contou ao espnW.

Carioca de Niterói, Christiane deu seus primeiros passos no futebol contra a vontade da mãe. Pegava três ônibus para chegar até as dependências do Vasco, onde começou a treinar na equipe sub-17 depois de ser selecionada em uma peneira que contou com cem meninas. Treinava lado a lado de jogadoras como Maycon, que já era um dos principais nomes da seleção brasileira, e Marta, que começava a chamar atenção no mundo da bola.

Vendo o cenário desfavorável financeiramente até mesmo para atletas de renome, Christiane decidiu sair do Brasil. “A base inteira do Vasco era da seleção. Eu não era boa para o nível delas e logo fui para o Fluminense. Foi então que um técnico dos EUA veio fazer um curso, me viu jogando entre meninos na praia e me convidou para ir para Ohio. Nessa época, a seleção sub-17 foi criada e me sondaram para fazer parte. Mas eu ainda não jogava em alto nível e não era meu sonho. As que jogavam pela seleção, ganhavam uma mixaria. Eu entrava no ônibus e via a Maycon, que era da seleção, passando dificuldade. Era triste. Eu chorava. Como já estava com tudo acertado, fui embora do país.”

Christiane ganhou bolsa para estudar e jogar nos Estados Unidos e se formou em Sports Management (Gerenciamento de Esportes). A meia-esquerda queria se tornar jogadora profissional e nem sonhava em estar do outro lado, à beira do campo. Mas desde que chegou lá, trabalhou como técnica. Treinava um time de high school de meninas e fazia clínicas para as categorias sub-11 e sub-10. Em 2005 e 2006, passou de maio a setembro na Islândia – defendeu Haukar FC e Fylkir FC e atuou como auxiliar técnica. Foi então que percebeu que estava incomodada, mas não sabia com o que.

De volta aos EUA em definitivo, foi para o Plantation FC, jogar e ajudar nos treinos. Então, em 2008, veio a oportunidade que fez a brasileira perceber o porquê de sua angústia e descobrir sua vocação: ser técnica. “A Universidade da Flórida não tinha futebol feminino e queria criar um time. Lá, valorizam muito a mulher, acham que somos importantes para o crescimento dos atletas. Liguei para o diretor três semanas seguidas, consegui me inscrever e fui escolhida. Nunca tinha sonhado em ser treinadora, mas foi aí que percebi que, na verdade, era o que eu sempre quis. Desde criança, eu gravava entrevistas de treinadores de vários esportes.”

Implementou o projeto de futebol feminino na Flórida e ainda passou por outra universidade, em Iowa, tendo sido campeã da NCAA (National Collegiate Athletic Association, entidade máxima do esporte universitário nos Estados Unidos). Foi para a Young Harris College (Geórgia) e em outubro do ano passado, trabalhou como técnica no sub-20 da Washington Spirit, ex-time da Mia Hamm (eleita duas vezes melhor do mundo), antes de chegar à Noruega agora em janeiro.

Um sonho? Voltar ao Brasil e poder ajudar a seleção brasileira. “Gostaria muito, seja em que cargo for. Mas quero voltar quando puder ter uma boa estrutura em algum clube. Temos tudo para sermos melhores do mundo no feminino, mas precisamos ser mais espertos. Somos muito fechados para aprender sobre outros sistemas. É isso o que os norte-americanos fazem: aprendem com a nossas jogadoras, que tem mais recursos técnicos que eles. Por que não fazemos o mesmo... trazemos técnicos de lá para roubar as ideias deles também? E falta, também, atletas e dirigentes correrem atrás de patrocínio, em vez de só reclamarem.”

Christiane Lessa fez mestrado também na área esportiva e tirou licenças de treinadora (C, nos EUA, e B, da Confederação Brasileira de Futebol). Seus próximos objetivos são conseguir a licença A da Uefa e, depois, a PRO.