Desde que George Floyd, um segurança negro, morreu em uma ação policial em Minneapolis (EUA), uma série de atletas passou a protestar contra recorrentes crimes raciais e a abordagem dos oficiais.
Nomes importantes da NBA - a exemplo de Jaylen Brown, Malcolm Brogdon, Karl-Anthony Towns, JR Smith - foram às ruas participar das manifestações dos últimos dias. Outros nomes expressivos como LeBron James, Kareem Abdul-Jabbar e até Michael Jordan, criticado por evitar se posicionar diante de temas sociais, usaram as plataformas digitais para sensibilizar uma legião de seguidores sobre o tema.
Embora tal engajamento seja elogiável, é preciso destacar o ativismo de longa data das atletas da liga feminina de basquete norte-americano, a WNBA. Não é de hoje que as jogadoras lutam por justiça, denunciando machismo, racismo e homofobia.
Única brasileira na liga, a ala-pivô Damiris Dantas (Minnesota Lynx) se pronunciou sobre a situação: “Tô cansada disso tudo. Tô cansada dos olhares. Tô cansada dessa realidade. Ontem foi João Pedro (no Rio de Janeiro), George Floyd e amanhã pode ser meu pai, meu primo, posso ser eu, pode ser você, minhas amigas e amigos pretos”, postou nas redes sociais.
À ESPN, Damiris destacou a abertura na WNBA que possibilita levantar debates sociais.
“Na W, discutimos diversas causas diariamente e fazemos muitas ações. A liga nos dá total suporte; isso facilita e nos passa confiança de podermos nos posicionar. A mulher tem batalhas constantes todos os dias com diversas questões. Temos que ser resistentes e ter voz ativa a favor dos nossos direitos. Nós, juntas, estamos ficando mais fortes e unidas pela igualdade”, afirmou.
Em 2016, um mês antes de o ex-quarterback do San Francisco 49ers Colin Kaepernick notoriamente se ajoelhar durante o hino nacional, em repúdio à violência policial contra negros, as atletas mulheres já davam o tom da discussão.
Jogadoras do Minnesota Lynx realizaram, à época, uma entrevista coletiva para tratar do tema após as mortes de Philando Castile e Alton Sterling em ações distintas na mesma semana. Maya Moore, Seimone Augustus, Lindsay Whalen e Rebekkah Brunson usaram camisetas pretas com a frase "A mudança começa conosco: justiça e responsabilidade" estampada junto com os nomes de Castile e Sterling.
Dias depois, a manifestação ganhou reforços. Jogadoras de New York Liberty, Phoenix Mercury e Indiana Fever vestiram camisetas pretas em referência ao movimento #BlackLivesMatter (vidas negras importam). A WNBA chegou a multa-las por violarem a política de uniformes da liga, mas em seguida retirou a punição por “entender o desejo de usarem essa plataforma para abordar questões importantes”, de acordo com a nota de esclarecimento divulgada.
Em um exemplo próximo ao basquete feminino, em 2013, no mesmo dia em que a então novata Tierra Ruffin-Pratt descobriu que havia conquistado uma vaga no elenco do Washington Mystics, seu primo, um jovem negro de 22 anos, morreu também vítima de uma ação policial.
Também é imprescindível citar a história da bicampeã olímpica e tetracampeã pelo Minnesota Lynx Maya Moore: ela interrompeu no auge a carreira no basquete, no início de 2019, para ajudar a libertar um homem negro que acreditava ter sido preso injustamente.
Jonathan Irons havia sido condenado, ainda adolescente, a 50 anos de prisão por um suposto assalto com uso de arma de fogo. Não houve testemunhas, impressões digitais ou traços de DNA que corroborassem o envolvimento de Irons no crime. À época, ele foi julgado como adulto. Após cumprir quase metade da pena, três meses atrás, a justiça anulou a sentença.
✊🏿✊🏿✊🏿 Tô cansada disso tudo. Tô cansada dos olhares. Tô cansada dessa realidade. Ontem foi João, George Floyd e amanhã pode ser meu pai, meu primo, pode ser eu, pode ser você, minhas amigas e amigos pretos. Todo... https://t.co/rIMealLG81
— Damiris Dantas (@damirisdantas) June 1, 2020
A luta LGBTQ+ é outra em pauta na Women's National Basketball Association. No início, a orientação sexual das atletas raramente era discutida publicamente, mas agora a causa é abraçada. Inúmeras estrelas como Brittney Griner (Phoenix Mercury), Elena Delle Donne (Washington Mystics), Sue Bird (Seattle Storm) e Diana Taurasi (Phoenix Mercury) são assumidamente homossexuais, levantando a bandeira pela inclusão. Em meio ao cancelamento de paradas do orgulho gay pelo mundo por causa do coronavírus, a campanha “WNBA Proud” segue ativa.
A frase “tudo é político quando você é uma mulher” se encaixa perfeitamente na vida de boa parte dessas esportistas. Muitas nasceram em situação de pobreza, precisaram lidar ativamente com preconceitos relacionados a gênero, sexualidade e discriminações étnico-raciais.
Criada em 1996, a WNBA foi se tornando uma liga feita por e para essas mulheres. Conforme o relatório anual do Instituto para Diversidade e Ética no Esporte, a W lidera os esportes profissionais em contratações de diversidade de raça e gênero.
Em janeiro de 2020, após anos na luta por melhorias, as jogadoras conquistaram uma importante vitória ao firmar o novo acordo coletivo com a liga. A alteração garantiu direitos como licença maternidade e aumento salarial a partir desta temporada. Atenuando, assim, as diferenças abissais entre o basquete feminino e o masculino nos Estados Unidos (embora esta falta de isonomia não seja exclusividade do país).
Após a morte de George Floyd, a associação feminina de basquete esteve entre as primeiras a se posicionar. Uma postagem da semana passada no Instagram traz a imagem de uma bola de basquete com um punho cerrado erguido sobre um fundo preto, onde é possível ler “maior do que a bola”. Na legenda está escrito “A hora da mudança é agora. Já chega”.
Os perfis oficiais de times como Los Angeles Sparks, Connecticut Sun, Minnesota Lynx e New York Liberty também se posicionaram sobre a necessidade de continuar dando visibilidade para a causa.
Armadora do Washington Mystics, Natasha Cloud é uma das mulheres que encabeça a discussão sobre o ativismo no mundo dos esportes.
Em um texto para o site The Player’s Tribune, ela escreve: “O que realmente vai mudar o rumo das coisas é todo mundo se envolver - e com isso quero dizer todos os atletas. Porque também não há espaço para esse silêncio ou 'neutralidade' na comunidade de jogadores. Essas velhas desculpas sobre não querer perder patrocínios, não querer alienar certos tipos de fãs, não temos tempo para isso. Não quando vidas estão sendo perdidas”.
Nas últimas duas décadas, essas jogadoras têm compreendido e mostrado que a única forma de conseguir mudanças é se mexendo pelo que acreditam ser o certo. Esse é apenas mais um capítulo de uma luta longa, mas necessária, iniciada muito tempo atrás.
