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A ausência da atual campeã da WNBA, Elena Delle Donne, traz à tona um sentimento conhecido aos fãs de basquete

Déjà-vu. Aquela sensação de já ter vivido uma determinada experiência surge enquanto a bolha do basquete nos Estados Unidos começa a tomar forma. É quase irônico como uma situação tão atípica consegue desencadear essa sensação.

Em outubro do ano passado, quando o mundo ainda era exatamente como o conhecíamos, as finais da WNBA estavam prestes a acontecer entre Washington Mystics e Connecticut Sun.

A jogadora mais valiosa da temporada, Elena Delle Donne, do Mystics, chegava longe de sua melhor forma para o último confronto: usava uma máscara facial para proteger seu nariz quebrado, uma joelheira para evitar que a lesão adquirida no campeonato do ano anterior se agravasse e tinha nada mais nada menos do que hérnias em três discos na coluna. Dizer que a MVP assumiu riscos e fez sacrifícios para estar em quadra em busca de seu primeiro título na Women’s Basketball Association é quase um eufemismo.

A atleta – assim como a franquia de Washington – estava na fila há muito tempo por um anel: 22 anos para a equipe, sete para Delle Donne, eleita duas vezes a melhor jogadora da temporada regular, seis vezes titular no All-Star Game, quatro vezes na seleção das melhores da liga, campeã olímpica. E integrante de um seleto círculo: em 2019, ela se tornou a primeira jogadora da WNBA a entrar para o clube 50-40-90, com 50% de aproveitamento em arremessos, 40% de bolas de 3 pontos e 90% de lances livres convertidos. Entre os homens, o feito só foi atingido por oito jogadores da NBA.

Agora, uma nova temporada está prestes a se desenrolar, sob circunstâncias completamente inusitadas. Assim como na NBA, as atletas da liga feminina chegaram à Flórida para a bolha formada no complexo da IMG Academy, em Bradenton. Serão 22 jogos regulares disputados a partir de 24 de julho, mais os playoffs até outubro.

A sensação de déjà-vu aparece justamente em meio às incertezas envolvendo uma das grandes protagonistas deste cenário.

Diante da preocupação com o coronavírus, a presença de Elena Delle Donne na bolha ainda é uma incógnita. A jogadora foi diagnosticada com a doença de Lyme, em 2008. A infecção transmitida por carrapatos é marcada por sintomas como fadiga, febre e dores crônicas nas articulações geradas pela reação autoimune do corpo. O sistema imunológico da estrela ficou debilitado por isso. Assim, o corpo médico da WNBA está avaliando se a condição a coloca no grupo de risco para o coronavírus, o que, consequentemente, provocaria sua exclusão do campeonato. A liga também precisa decidir a situação de sua companheira de equipe, Tina Charles, outra com debilidades de saúde.

Isso não tem nada a ver com as lesões que limitaram Elena ao longo de sua carreira. Porém, mais uma vez, não se sabe o que esperar de um dos grandes nomes da história na modalidade.

A situação é delicada. Se o painel de médicos a dispensar, ela receberá o salário integral. Sem esse aval, acabará não recebendo nenhum centavo caso opte por priorizar a saúde e ficar afastada das quadras.

A estrela do Mystics sabe muito bem o quanto se manter saudável tem valor. A irmã mais velha, Lizzie, tem paralisia cerebral, autismo e é incapaz de ver, ouvir e falar. Ela consegue se comunicar apenas através do toque e dos cheiros. Lizzie sequer sabe que sua irmã é jogadora de basquete. A condição delicada fez com que Delle Donne repensasse constantemente a forma como enxergava seu próprio corpo. Quando adolescente, escolheu não tomar injeções para inibir o crescimento – aos 14 anos média 1,83m –, por ter a consciência de que tinha um corpo perfeitamente funcional, diferentemente da irmã.

"Lizzie é a inspiração para todas as minhas escolhas. Ela me dá força. Todo mundo pensa que eu a carrego, mas é ela quem me carrega", escreveu a atleta nas redes sociais.

Três anos atrás, Elena pediu para ser trocada do Chicago Sky, onde foi draftada e jogou durante quatro temporadas, para ficar mais perto de Lizzie, com quem é impossível se comunicar de qualquer forma que não presencialmente.

É comum que as atletas joguem durante a offseason da WNBA no exterior para complementar a renda, levando em conta os salários enxutos, quando comparados ao dos homens no basquete. A atual campeã pelo Washington Mystics é exceção justamente por causa da família, sempre escolhendo ficar em casa.

As diferenças entre o basquete feminino e o masculino estão presentes também na forma como os campeonatos de ligas “irmãs” vão voltar. No caso da NBA, os jogadores que escolherem ficar de fora da bolha na Disney terão os vencimentos reduzidos a depender do número de jogos que os respectivos times disputarem no restante da temporada regular e playoffs, com os cortes variando entre 8% e 15% do valor total do contrato.

Algumas atletas, como a atual campeã pelo Washington Mystics, Natasha Cloud, Liz Cambage, carismática pivô australiana do Las Vegas Aces, Chiney Ogwumike, estrela do Los Angeles Sparks, Jonquel Jones, líder do Connecticut Suns, entre outras, já disseram que ficarão de fora por preocupações com a saúde, ou até mesmo para focar na luta por justiça social.

Nos últimos dias, as condições oferecidas no complexo montado para o retorno do basquete jogado pelas mulheres nos EUA estão sendo amplamente criticadas por esportistas, imprensa e fãs.

Dois times precisaram ser trocados de quartos porque as camas estavam infestadas com insetos. A comida servida tinha uma aparência ruim (para dizer o mínimo), a lavanderia está em péssimas condições, com vermes no carpete e até ratoeiras espalhadas pelo local. O cenário contrasta com o apresentado para as 22 equipes da NBA.

A própria Elena Delle Donne usou as redes sociais para criticar a situação, classificada por ela como “inaceitável”. Outras estrelas, como A’ja Wilson (Las Vegas Aces), Breanna Stewart (Seattle Storm) e até Damian Lillard, armador do Portland Trail Blazers (NBA), também se manifestaram quanto à insalubridade presente pelo menos em parte da bolha feminina. Após a repercussão, a WNBA se comprometeu a melhorar as acomodações. O tal déjà-vu também aparece aqui, quando fica evidente o longo caminho que deve ser percorrido para se conquistar a redução das diferenças de gênero no esporte.

A poucos dias da volta do torneio, está claro que muitos ajustes ainda precisarão ser feitos. Não somente na estrutura da bolha, mas na adaptação das franquias às perdas no elenco e mudanças no calendário ocasionadas pela pandemia.

No caso do Washington Mystics, a possível ausência da MVP Elena Delle Donne apenas consolida outra sensação familiar, especialmente desde que o coronavírus paralisou o mundo: a de que a briga pelo título, completamente em aberto, só será possível para times e atletas dispostos a se reinventar em meio ao novo normal dentro e fora das quadras.