<
>

Australiano faz sozinho percurso do Tour de France e chega a Paris cinco dias antes do pelotão

Completar o Tour de France por si só já um desafio enorme. O criador da prova, Henri Desgrange, queria que fosse uma missão tão difícil ao ponto de apenas um ciclista chegar ao fim. Na edição deste ano do Tour, a 108ª, 184 ciclistas largaram em Brest, no dia 26 de junho, com o objetivo de terminar cada uma das 21 etapas até a chegada em Paris, no dia 18 de julho. No mesmo dia, um australiano partiu para fazer o mesmo trajeto — e um pouquinho mais — sozinho. Sem hoteis, sem massagens, sem carros ou ônibus para os trechos de deslocamento… Missão dada, missão cumprida!

Na terça-feira (13), cinco dias antes do encerramento do Tour, Lachlan Morton chegou a Paris, o destino final. Trata-se de um ciclista profissional que já completou a Volta da Espanha em 2017 e o Giro d’Italia em 2020, mas que foi deixado de fora do Tour deste ano pela equipe americana EF Education First - Nippo. Decidiu, então, encarar o “Tour alternativo” — a patrocinadora EF gosta de ter os atletas encarando aventuras como esta.

“Eu sei que vai ser a coisa mais exigente fisicamente da minha vida, mas estou ciente de que o desafio de completar todo o percurso por conta própria vai ser igualmente difícil”, disse Morton, 29, antes de iniciar sua cicloviagem.

O percurso do Tour neste ano tem 3414 km — 21 etapas, com dois dias de descanso. Só que não necessariamente a largada de uma etapa é na mesma cidade em que a anterior acabou. Na maior parte dos casos, há deslocamentos, que são feitos em veículos motorizados. Isso aumentou para mais de 5500 km a distância a ser percorrida por Morton.

Os atletas também contam com chefs especializados preparando suas refeições, fisioterapeutas e massagistas que trabalham na recuperação dos esforços, e dormem no conforto de quartos de hoteis. Além disso, levam o mínimo possível de peso durante as etapas e, por mais que o ritmo de corrida exija bastante, andar em grupo ajuda a quebrar a resistência do ar e a manter velocidades mais altas.

Morton não tinha nada disso. Durante o dia, parava em cafés ou restaurantes para comer. Quando cruzava a linha de chegada, não parava. Seguia pedalando, pois precisava compensar os deslocamentos. E na hora de enfim descansar, montava sua barraca e preparava o próprio jantar em um pequeno fogão que levava consigo. Moleza?

A notícia de que ele estava encarando o desafio correu e, pelo caminho, Morton passou a contar com o apoio de fãs que o ofereciam apoio, comida, companhia e até se aventuravam a pedalar junto por alguns quilômetros. Ao passar por Andorra, foi recebido por amigos ciclistas e almoçou com a esposa, Rachel. Dois dias depois, uma surpresa: seu pai, David, viajou sem avisar da Austrália até a França para encontrá-lo no caminho. Percorreram 100 km juntos e fizeram um churrasco.

Os contratempos também apareceram. Logo nos primeiros dias, dores nos joelhos e nos pés o levaram a trocar a habitual sapatilha de ciclismo por sandálias. Ele acabou até gostando da ideia. Disse que pegou chuva na maior parte dos dias e que sentia-se mais confortável assim do que com a sapatilha molhada (o que pode ser bastante desagradável).

Um dos grandes desafios foi a dupla ascensão do Mont Ventoux, que o pelotão encarou na 11ª etapa. “Eu estava lá praticamente sozinho. Parecia um momento religioso, não é sempre que você tem essa montanha toda para você”, refletiu. Morton dividiu esta missão em duas partes, e teve o “luxo” de, no segundo dia, deixar o peso da bagagem que carregava na cidade ao pé da montanha. Quando pegou tudo de volta, deu para ter uma noção do quanto aquilo fazia diferença…

Para o trecho final, o australiano não quis saber de paradas: fez 576 km de uma vez só até Paris, incluindo as seis voltas no tradicional circuito final do Tour de France, na avenida Champs-Élysees. Isso é mais do que qualquer etapa na história da prova. Ao todo, foram 18 dias, 5510 km, 65.500 metros de ganho de altimetria e 220 horas pedalando.

“Não tem uma grande agenda por trás disso. Tenho outras ambições fora das corridas e ter uma equipe, patrocinadores e fãs que se interessam por isso é um privilégio e sou grato”, afirmou em entrevista à ‘Cycling News’ após concluir seu “Tour alternativo”. “Eu não sou um cara durão, muito do que faço envolve encontrar formas de ficar motivado e entender o que te afeta e como você pode lidar com o seu lado mental. Eu acho que isso é a vida real. Quando você curte isso, os desconfortos físicos vão embora. Eu aprendi a me manter motivado e positivo e presente o bastante para realmente curtir a experiência.”

“Isso faz a distância e o desconforto serem mais fáceis de lidar. Eu tenho total consciência de quão sortudo eu sou de fazer o que faço”, completou.

Enquanto Morton encarava o desafio, fãs podiam doar em seu nome para a World Bycicle Relief, uma instituição que distribui bicicletas com o objetivo de facilitar o acesso de pessoas a educação, serviços de saúde e trabalho. Até o dia 14 de julho, o valor arrecadado já estava em quase £ 450 mil (mais de R$ 3 milhões).