Tímido, Jackson Ferreira da Silva chegou a segurar a bandeira do Mato Grosso de ponta-cabeça enquanto comemorava, mas rapidamente corrigiu a posição antes de ser fotografado. Era o nervosismo.
Pouco minutos antes, ele foi o primeiro campeão dos Jogos da Juventude, competição nacional com esportes olímpicos para jovens até 17 anos, em Brasília.
O ciclista de 17 anos faturou duas medalhas de ouro em um esporte que conheceu há poucos meses e apenas por vídeo: o ciclismo de potência. Uma medalha foi na prova individual. A outra, na disputa por duplas.
"É uma modalidade que não conhecia no ciclismo. Me preparei vendo alguns vídeos", disse Jackson.
O ciclismo de potência é uma modalidade cujo objetivo é gerar a maior quantidade de potência possível (medida em watts) por tempo, utilizando uma bicicleta ergométrica. A pontuação final é calculada com base na potência gerada, levando em consideração também altura e peso de cada competidor.
Vencer em um esporte que praticou pela primeira vez no dia de abertura dos Jogos da Juventude é quase tão surpreendente quanto a própria história de Jackson como ciclista.
Natural de Marcelândia, pequena cidade no interior do Mato Grosso com pouco mais de 12 mil habitantes, segundo o Censo, Jackson foi apresentado ao esporte por um amigo dez anos mais velho.
"Foi o João Victor Vidal. Ele já praticava e me chamou um dia para pedalar", disse Jackson.
Inicialmente, ele topou praticar o esporte por lazer e diversão. Mas o desempenho começou a chamar a atenção local, até que recebeu os primeiros incentivos. Participou de provas na cidade, depois na região, conheceu um treinador e, finalmente, ganhou um propósito.
Tudo isso aconteceu em praticamente dois anos. Agora, foi a primeira vez que viajou para fora do Mato Grosso, e a prova de ciclismo nos Jogos da Juventude é a primeiro de relevância nacional.
A única coisa para a qual Jackson não estava preparado era o contato com os jornalistas. Ele ainda comemorava com Camila Gomes, 15 anos, medalhista com ele na prova de duplas, quando viu vários profissionais se aproximarem, pedindo uma entrevista, uma foto, um depoimento...
A cena da bandeira aconteceu nesse momento. Ele recebeu o pavilhão de um assessor e deveria se posicionar diante dos fotógrafos. Sem jeito e ainda curtindo o resultado, acabou segurando a bandeira de cabeça para baixo, mas rapidamente ajustou. Nada que tenha causado problemas para ele.
Pelo contrário, valorizou a simplicidade do jovem. "Espero evoluir mais após essa vitória, melhorar nos treinamentos e disputar mais competições. Ainda divido a minha rotina entre treinos, escola e competições. Quase sempre os treinamentos são à noite, das 18h às 22h, às vezes até 22h30. E eu acordo todos os dias às 5h30 para ir para a escola", disse.
Hoje, Jackson está no último ano do ensino médio. O futuro? Por enquanto, quer investir apenas no esporte e descobrir até onde pode chegar.
Jogos da Juventude
Disputado desde 2000, quando nasceu como Jogos Escolares, em Brasília, os Jogos da Juventude são reconhecidamente os divisores de águas para os atletas que pensam em evoluir para o alto rendimento.
Vários campeões mundiais e/olímpicos já participaram da competição, como Rebeca Andrade, Arthur Zanetti, Hugo Calderado, Sarah Menezes, Etiene Medeiros e até Rodrygo, do Real Madrid, que disputou o torneio de futsal.
*O jornalista viaja a convite do COB.
