O dia de glória do Brasil no Tour de France: vitória de Mauro Ribeiro completa 30 anos

O Brasil está longe de ser uma potência no ciclismo e sequer terá vaga nas provas de estrada nos Jogos Olímpicos de Tóquio em 2021, mas já teve um dia de glória na principal corrida do mundo: o Tour de France. Este dia foi há exatos 30 anos, em 14 de julho de 1991, graças ao paranaense Mauro Ribeiro. Trata-se da primeira e, até hoje, única vitória brasileira no Tour.

E foi em uma etapa especial, no Dia da Bastilha, principal feriado nacional francês. Para esta data, a organização costuma preparar um percurso que empolgue, e, na chegada na cidade em Rennes, Mauro se consagrou. Por pouco, por apenas 22 centímetros!

“Emocionante”, lembrou o ex-ciclista e hoje empresário em entrevista à ESPN. A conversa faz parte de um programa especial que vai ao ar nesta quarta (14), logo após a transmissão da 17ª etapa do Tour de France. “É uma coisa que hoje eu acho que idealizo muito mais o feito do que naquele momento. Naquele momento, você está envolvido na competição, nas funções que está cumprindo, faltavam alguns dias para o Tour acabar. Foi muito marcante não só para a minha carreira, mas como um ato simbólico para a globalização do ciclismo, que era muito mais concentrado na Europa.”

Campeão mundial júnior no ciclismo de pista (velódromo), Ribeiro chamou a atenção de equipes europeias e foi competir, a partir de 1986, na RMO. Era um time que tinha como nomes de destaque os franceses Charly Mottet e Marc Madiot, e ambos estavam presentes naquela edição do Tour. O plano da RMO era ter Mottet na briga pelo título da classificação geral e, dentro disso, a função de Mauro era estar sempre perto do seu ‘capitão’ durante as etapas para ajudá-lo. Eventualmente, poderia ter uma chance de sucesso individual.

Pouco a pouco dentro da prova, o brasileiro foi se sentindo bem. Na sétima etapa, teve a chance de sair em uma fuga que foi alcançada na reta de chegada. A oitava etapa, contudo, o resultado deixou a desejar. “A expectativa era muito grande com o Charly Mottet, que estaria em um nível muito alto. Na oitava etapa, a gente foi muito mal como equipe, e o Charly perdeu muito tempo, quase cinco minutos. Moralmente, teve um baque”, relatou Mauro.

A partir dali, os demais atletas ganharam um ‘alvará’ para entrarem na briga por vitórias nas etapas. Mauro aproveitou logo a primeira, na nona etapa, entre Alençon e Rennes. Depois de sair em uma fuga formada por 16 ciclistas, alguns deles renomados, passou a ser uma questão de encontrar a hora certa para lançar um ataque. Ele o fez dentro do km final, logo após o belga Johan Bruyneel ser alcançado pelo grupo. Dali em diante, era buscar as últimas forças para resistir à frente dos rivais. No limite, ele começou a olhar para trás.

“Olhei para trás porque eu estava no limite. Eu estava a 65 km/h! É difícil ir mais rápido em uma situação como aquela ali. Eu tenho o photo finish, foram 22 centímetros para eu ter perdido a corrida”, descreve.

O segundo lugar ficou para Laurent Jalabert, seguido pelo russo Dmitri Konychev e o italiano Giuseppe Calcaterra.

Imediatamente, a importância de Mauro dentro do pelotão mudou. “Transformou minha carreira e meu status em relação aos grandes nomes. Greg LeMond, Gianni Bugno, chegaram e falaram ‘bem-vindo’ ao clube. São 200 que largam, mas menos de 10% têm a oportunidade de vencer dentro do Tour”, disse. Um dia depois, o norte-americano LeMond, que estava com a camisa amarela de líder da classificação geral, lhe deu os parabéns durante a décima etapa.

Ribeiro ainda teve outro ótimo resultado dentro daquele Tour, um terceiro lugar na 15ª etapa. Foi sua única participação no Tour de France. Outros quatro brasileiros disputaram a prova na história: Murilo Fischer, Renan Ferraro, Luciano Pagliarini e Wanderley Magalhães. Entre eles, Fischer foi quem mais chegou perto de vencer, ficando em terceiro lugar em Montpellier em 2007, atrás do sul-africano Rob Hunter e do suíço Fabian Cancellara.