A primeira semana do Tour de France costuma ser caótica, e já deu para sentir isso após as três primeiras etapas da prova deste ano. Trata-se da principal corrida do calendário, com os melhores ciclistas e as melhores equipes do mundo chegando no topo da forma em busca dos seus objetivos. Isso faz com que o pelotão fique “nervoso”, com mais de 150 atletas brigando por cada centímetro de estrada, e, inevitavelmente, eles acabam chegando perto demais uns dos outros. É aí que acontecem os tombos — e já foram muitos em apenas três dias. As marcas disso são visíveis: na pele, nas bicicletas e no tempo perdido por alguns dos favoritos à vitória.
Ao longo dos primeiros dias do Tour, há diversos atletas que estão em busca de resultados pessoais: ganhar uma das etapas ou vestir uma das camisas de líder. Há também os que estão de olho lá na frente e querem vencer a classificação geral, após as 21 etapas. Porém, essa disputa só começa para valer no oitavo dia, quando chegam as primeiras grandes montanhas. Até lá, tudo o que eles querem é fugir de tombos ou problemas mecânicos. Coloque estes dois grupos nas estradas estreitas da região da Bretanha e… o Tour mal começou e uma minoria conseguiu ficar livre destas confusões.
Sábado, na primeira etapa, foram dois grandes acidentes. O primeiro foi causado por uma torcedora que, na tentativa de aparecer na TV com um cartaz dedicado aos avós, entrou na frente do alemão Tony Martin e levou dezenas de ciclistas ao chão. Talvez uma centena. Caiu tanta gente que é até difícil contar. Ela está sendo procurada pela polícia francesa e será processada pela organização da prova. Segundo o L’Equipe, a multa seria de 1500 euros. Entretanto, se o alemão Jasha Sütterlin, que abandonou com uma lesão, também quiser processá-la, a pena poderia subir para 15 mil euros de multa e até um ano na prisão.
Por sorte, esse acidente aconteceu em uma subida, com a velocidade mais baixa. Nos kms finais, um toque de rodas em um trecho alta velocidade novamente levou uma dezena de atletas ao chão, com consequências mais graves. O francês Cyril Lemoine teve quatro costelas fraturadas, um trauma na cabeça e uma pneumotórax. O lituano Ignatas Konovalovas também abandonou. E o espanhol Marc Soler ainda foi até a linha de chegada pedalando antes de ser levado ao hospital e descobrir que as dores que sentia eram causadas por fraturas nos dois braços. O suíço Marc Hirschi teve “apenas” uma lesão de grau 3 no ligamento acromioclavicular, mas seguiu na prova.
O saldo de um início tão acidentado é difícil de calcular. No boletim médico oficial constavam os nomes de 21 ciclistas, mas a lista só tinha aqueles que foram atendidos pelos médicos da organização. Falar em 100 de 184 ciclistas machucados não seria um exagero. Até o vencedor, Julian Alaphilippe, tinha um corte no joelho.
Só que não só apenas os atletas que sofrem ou os médicos que precisam se virar para cuidar de todo mundo. Imagine ser mecânico e ver que 7 dos 8 ciclistas da sua equipe caíram, como foi o caso da Israel Start Up Nation. Não faltaram imagens de bicicletas que podem custar até R$ 100 mil partidas ao meio. Horas de trabalho a mais durante a noite para deixar tudo pronto para a largada no dia seguinte — e era só o início de uma maratona de 21 etapas em 23 dias…
Felizmente, a segunda etapa foi mais tranquila. Já a terceira… Quatro acidentes chamaram a atenção. O primeiro foi bastante “bobo”, com o campeão de 2018, Geraint Thomas, deixando a mão escapar do guidão em um momento em que a prova estava tranquila. O holandês Robert Gesink não conseguiu desviar, também caiu e abandonou. Depois, Roglic — segundo colocado em 2020 — caiu após se enroscar com o campeão italiano Sonny Colbrelli e ficou bastante machucado. Não teve fraturas, mas perdeu mais de um minuto na geral. Ele acusou Colbrelli de lhe dar uma trombada e causar o tombo.
Na parte final, mais dois acidentes, que tiraram dois bons australianos do Tour. No primeiro deles, em uma rápida e estreita descida, Jack Haig levou a pior em uma curva que derrubou vários ciclistas. Entre os prejudicados, o campeão de 2020, Tadej Pogacar. Na reta de chegada, o sprinter Caleb Ewan — favorito a vitórias nas etapas planas — perdeu o controle após tocar a roda traseira do vencedor do dia, Tim Merlier, e foi para o chão junto do tricampeão mundial Peter Sagan. Ewan fraturou a clavícula direita. Em um piscar de olhos, seu Tour e o objetivo de vencer etapas nas três grandes voltas em 2021 ficaram pelo caminho.
As reações foram diversas. O belga Tim Declerq disse para o canal de TV ‘Sporza’ que os atletas pediram para que os tempos da terceira etapa fossem tomados a 8 km da chegada, minimizando assim os riscos de uma descida sinuosa tão perto da chegada, mas o pedido foi negado. Já Jonathan Vaughters, chefe da equipe EF, falou que o Tour de France é a única corrida do ano em que “não se usa os freios”.
A declaração mais forte foi de Marc Madiot, ex-ciclista e chefe da equipe Groupama-FDJ. “Não podemos continuar assim. Teremos crianças, pais, mães assistindo e não vão querer as crianças fazendo este esporte. Precisamos mudar, porque não podemos continuar fazendo as coisas deste jeito”, afirmou. “Não é culpa de quem faz o percurso, é de todos: organizadores, equipes, ciclistas, federações internacionais. Precisamos nos juntar e resolver algo. Só se fala e nunca se faz nada. Não quero estar em uma situação de pegar o telefone para ligar para os pais de um ciclista e falar que o filho deles está no hospital.”
Dos caras que brigam pela geral, qiem se viu mais livre de contratempos foram Alaphilippe e o equatoriano Richard Carapaz. Pogacar, Wilco Kelderman, Enric Mas e Nairo Quintana conseguiram passar relativamente tranquilos. Só que nomes fortes como Roglic, Thomas, Miguel Ángel López e Guillaume Martin já se encontram em situação desfavorável na batalha.
O Tour de France continua nesta terça-feira. O gasto de gazes e esparadrapos no pelotão está alto, vários uniformes foram jogados no lixo, bicicletas tiveram de ser substituídas, mas a lógica dos próximos dias não deve mudar muito: tirando o contrarrelógio individual de quarta-feira, serão mais três etapas de bastante tensão — e possivelmente mais alguns tombos — até a chegada aos Alpes no sábado.
