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'Lance Armstrong teve muita sorte em não terminar na prisão', diz jornalista que foi 'inimigo' número um do ciclista

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Documentário sobre a carreira de Lance Armstrong estreia nos canais ESPN; veja trailer (1:34)

ESPN e ESPN App transmitem parte 1 da produção nesta quarta (17/6), às 18h30; parte 2 estreia no dia 24/6 (1:34)

Lance Armstrong explodiu no no Tour de France de 1999, apenas nove meses depois de derrotar um câncer que quase acabou com a sua vida. Chegou como o líder da equipe US Postal Service, e logo ficou claro como ele e seus companheiros eram superiores.

Armstrong se impôs com facilidade no contrarrelógio do prólogo e dali em diante foi construindo o caminho para o primeiro de seus sete títulos consecutivos no Tour de France.

Nesta quarta, no dia da estreia da segunda parte do documentário 'LANCE' (na ESPN e no ESPN App às 18h30, no horário de Brasília), a ESPN traz uma entrevista com David Walsh. O jornalista esportivo irlandês fez uma investigação que foi chave na descoberta do programa de doping organizado por Armstrong e sua equipe, US Postal Service, dirigida pelo belga Johan Bruyneel. Quando o esquema foi revelado em 2012, Armstrong foi banido para sempre do ciclismo e destituído de seus sete títulos no Tour de France.

Você pode assistir à primeira parte do '30 for 30: LANCE' quando e onde quiser no ESPN App.

ESPN: Há quem pense que na época de Armstrong todos no Tour de France se dopavam e que, por isso, sustentam que Lance foi o melhor e mais forte. Eles têm razão?

David Walsh: Se é que existe gente que pensa assim. Eu nunca pensei. Porque quando Lance ganhou seu primeiro Tour, em 1999, muitos ciclistas daquela competição estavam limpos. Não podemos esquecer que no ano anteriro havia ocorrido um enorme escândalo de doping com a equipe Festina. Por isso, em 1999, o governo francês fez muitos testes. Depois deste escândalo vergonhoso, os jornalistas, o público, todo nós pensávamos que o ciclismo estava mudando - e queríamos que mudasse. Se supunha que em 1999 seria o Tour da renovação. Por isso tinham muitos ciclistas que estavam limpos. É verdade que Lance foi o melhor dos ciclistas que se doparam. Mas há muitos que não fizeram isso. E muitos não puderam participar da competição porque não aceitaram se dopar. Então, um esportista dizia: "Minha carreira terminou por ser honesto e por competir dentro das regras e mais nada importa".

A nós, jornalistas, tampouco, porque olhávamos os que se dopavam para melhorar o desempenho e os pintávamos como heróis. E era isso que Armstrong desajava que fizéssemos. Ele queria que fingíssemos que todos estavam limpos e ele era o melhor, um grande campeão. Naquele ano, eu vi como Lance ameaçava, um por um, todos os ciclistas que estavam limpos. Eram os que diziam, como Christophe Bassons, que os do pelotão da frente estavam se dopando.

Eu entendo que alguns podem dizer que, como muitos se dopavam, Lance teve mérito suficiente. Mas peço que imaginem que tenham um filho que é atleta de elite, o qual você educou para ser uma pessoa honesta e do bem. um dia, esse seu filho te chama e diz: "Pai, muitos dos meus colegas se dopam e, se pretendo ter sucesso nesta profissão que escolhi, eu também teria que fazer o mesmo. O que você me diz?". Estou seguro que todos diriam que seu filho deveria pensar em outra profissão. Porque todo o sucesso que poderiam conseguir estaria baseado na trapaça e na mentira.

Todas estas pessoas que dizem que o doping existe, mas que não quer ser obsessivo na batalha, são em sua maioria torcedores ou esportistas que amam os recordes e as grandes performances. É por isso que o assunto não os preocupa. Para eles, digo que estariam muito preocupados se um filho deles estivesse frente a pior e mais horrorosa encruzilhada de sua vida, na qua, a única maneira de progredir na carreira seria trapaceando e mentindo. Isso não é aceitável e nunca deveria ser. Por isso devemos lutar de todas as formas imagináveis contra essa doença e jamais abandonar essa luta.

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Documentário sobre a carreira de Lance Armstrong estreia nos canais ESPN; veja trailer

ESPN e ESPN App transmitem parte 1 da produção nesta quarta (17/6), às 18h30; parte 2 estreia no dia 24/6

ESPN: Em abril de 2001, você recebeu uma chamada de Bill Stapleton, o representante e advogado de Lance Armstrong. Ele disse que Lance estava disposto lhe conceder uma entrevista. O que você pensou naquele momento e o que acontece?

DW: Lance já me considerava como seu principal inimigo, e uma entrevista com ele era muito tentadora. Eu tinha várias perguntas para ele sobre doping. Mas me intrigava muito que a iniciativa de fazer uma reportagem partia dele. A primeira vez que eu entrevistei Armsntrong foi em 13 de julho de 1993, no dia de descansao de seu primeiro Tour de France. Ele tinha 21 anos e eu soube que era alguém especial. Era como um movimento enorme que rompia e te arrastava. "Tem que conhecer esse menino", me diziam os meus colegas naquela mesma tarde. Eu fiquei muito impressionado. Vi que era alguém diferente, que tinha esse desejo e percebi que iria ganhar muitas corridas.

Oito anos depois, éramos pessoas muito diferentes. Logo de cara, Lance tratou de me intimidar. Chegou com Bill Stapleton e me disse: "Espero que não se importe que Bill nos acompanhe". Bill se sentou e pôs o gravador em cima da mesa. Eu pus o meu logo ao lado e disse: "Lance, só vou te fazer perguntas sobre doping, porque esse é o único tema relevante para mim. Não acho que você esteja limpo e não tem sentido que eu te pergunte sobre suas próximas corridas ou qualquer outra coisa. Isso te dá a oportunidade de convencer a todos que você está limpo". Ele disse: "Ok. Pergunte-me tudo o que quiser saber sobre doping."

Eu lhe fiz perguntas muito simples e ele me deu respostas pouco convicentes. Por exemplo, seu melhor amigo e companheiro, Kevin Livingston, acabara de ser envolvido em uma investigação criminal da polícia italiana por trabalhar com Michele Ferrari, um médico especialista em dopagem. Perguntei se ele havia conversado com Kevin, que, segundo o próprio Lance, era um irmão para ele. Ele me disse que não, que nunca haviam falado sobre isso. Eu disse: "Vamos lá, é seu melhor amigo, está envolvido criminalmente em um caso de drogas e vocês nunca falaram sobre o assunto". Ele respondeu: "Não, nunca". Claro, o próprio Lance já trabalhava com Ferrari, algo que eu descobriria mais tarde.

Em resumo, Lance deve ter pensado que ao me convidar para essa entrevista, eu ficaria satisfeito e estaria mais inclinado a ser indulgente. O certo é que naquela tarde eu me choquei contra uma parede em cada pergunta. Não pude provar que Lance se dopava, mas comprovei que ele era um grande mentiroso. Eu sabia também que precisava seguir investigando e investigando porque Lance nunca iria falar a verdade voluntariamente.

ESPN: Você acredita que Armstrong subestimou Floyd Landis, sendo que ele, em última instância, foi quem precipitou sua queda?

DW: Sim, com certeza. Ele não conseguiu enxergar que Landis poderia se converter em um inimigo muito perigoso. Eu tenho uma teoria sobre Lance. Ele é muito inteligente. Ele armou uma excelente equipe e a US Postal era formada por ciclistas muito bons e muito talentosos. Liderou com sucesso esse time. Planejou boa estratégias para as corridas. Soube armar bons planos de treino e nutrição. Conseguiu também que a equipe tivesse os melhores patrocinadores e o maior orçamento. A US Postal tinha a melhor tecnologia e o melhor equipamento de todo o pelotão. Para tudo isso, Lance foi muito bom. Mas ele não era bom para tarefas que demandavam inteligência emocional.

Floyd Landis foi seu companheiro de equipe por três anos e de seus principais e mais leais escudeiros. Landis sabia absolutamente tudo dele e de sua equipe, e estava com problemas. Depois de ter testado positivo quando venceu o Tour de 2006, ele quis voltar ao esporte em 2010. Mas não tinha dinheiro e então entrou em contato com Lance para pedir um lugar na Radio Shack, equipe que Lance havia formado para seu próprio retorno. Mas Lance lhe deu as costas e lhe disse: "Desculpe, mas te descobriram e não tem um lugar para você na minha equipe". Qualquer outro teria pensando: "Esse cara sabe tudo sobre mim, se eu o desprezo agora e digo que eu não vou ajudá-lo, pode ser que ele diga a verdade".

Lance não conseguiu enxergar isso. Não se deu conta que precisava ajudar Floyd Landis. Se tivesse ajudado, jamias teria sido descoberto e, ainda que tenha mentido quando deu positivo e seguiu mentindo quando questionou cada resolução judicial contra ele, finalmente, quando Lance se aposentou, o único caminho possível era a verdade. E esse foi o começo do fim para Lance Armstrong.

ESPN: Você acredita que Lance tenha alguma possibilidade de se redimir?

DW: Sim, penso que todos devam ter uma segunda oportunidade. Penso que Lance foi mal. Trapaceou, mas muitos já fizeram o mesmo. Ele é pior que Jan Ullrich, Ivan Basso ou Alberto Contador, que também testaram positivo? Eu acredito que sim. Lance viu o doping como uma oportunidade e a abraçou. Ele disse: "Se nosso programa de dopagem é melhor, temos uma grande vantagem". Lance foi diferente também pela maneira que fez bullying em muita gente.

Ele não queria se defender dos que o acusavam de se dopar. Ele queria esmagar e destruir a todos aqueles que se opunham e o questionavam. Se podia te vencer, ele te vencia, mas se além disso ele podia transformá-lo em pó e pisotea-lo, ele preferia fazê-lo. Essas era a sua natureza e seu caráter. Lance processou a mim e ao Sunday Times em 2006 e ganhou. Porque, ainda que várias testemunhas tenham dito que viram Lance tomar injeções e fazer transfusões, além de destruir provas, de que maneiras podíamos provar que essas seringas continham substâncias proibidas? Armstrong declarou em juramento neste julgamento que nunca havia se dopado. Isso é perjúrio, um crime, e Lance teve muita sorte de não terminar encarcerado quando se soube a verdade.

Esse julgamento costou um milhão de libras (cerca de R$ 6,5 milhões, na cotação atual) ao Sunday Times. Mas o pior foi que nos impediu legalmente de seguir falando. Apesar de tudo isso, eu acredito que ele tem o direito de reconstruir a sua vida da melhor maneira possível. E me surpreendo, quando eu o vejo nas notícias, que há muita gente que não o perdoa.

Ele está fazendo uns podcasts nos Estados Unidos e tem quem o escute. Da minha perspectiva, se ele tem dinheiro o suficiente, deveria ter uma vida menos pública. Quando vai em lugares lotados, gritam que ele é um trapaceiro. Muitos sentem que o ele que ele fez é imperdoável. De todo modo, ele pagou pelos seus erros. Teve que devolver e pagar muito dinheiro. Perdeu seus patrocinadores. Seus títulos do Tour foram anulados e perdeu também o direito de competir como um atleta profissional.

ESPN: Pensando hoje, com tudo o que já aconteceu, qual é a sua perspectiva e conclusão sobre o caso de Armstrong?

DW: Acho que a justiça foi feita. Lance era tão poderoso que fez com que a verdade ficasse escondida. Havia muita gente que não queria ver a verdade sendo revelada. A UCI não queria que Armstrong fosse desmascarado. E nem quem controlava o ciclismo nos Estados Unidos. Todos eles estavam ao lado de Lance. Os patrocinadores também estavam. Os organizadores do Tour de France também queriam que Armstrong seguisse ganhando. Isso era muito bom para o negócio. Esse foi o verdadeiro problema que tivemos que enfrentar.

No meio de seu primeiro Tour de France, Lance deu positivo para um corticóide, mas os organizadores e a UCI aceitaram uma receita pré-datada que lhe permitia utilizar a medicação. Ele não tinha a receita quando a substância foi detectada, ou seja, as próprias instituições romperam as regras para mantê-lo na corrida.

Os que tinham que tomar as decisões disseram "eles são grandes demais para serem desclassificados" e não o fizeram. Lance era muito importante já em 1999. Temos que lembrar que ele estava regressando apenas nove meses depois de derrotar um câncer perigoso que quase acabou com a sua vida. Todo mundo imaginou que poderia ser o maior retorno de todos os tempos.

A história de Armstrong era um tanto romântica e por isso tante gente a abraçou e acreditou. Mas no fim, como acontece em filmes de Hollywood, o ladrão, que roubou e escondeu o dinheiro, finalmente se aposenta e vai aproveitar a vida. E então chega alguém que lhe propõe um último trabalho e esse último trabalho dá errado.

Se Lance não tivesse voltado em 2009 para correr com a Astana e depois com a Radio Shack, ele nunca teria sido descoberto. Nunca teria existido a conversa com Landis e todos teriam se esquecido das acusações de doping. Mas, a partir da confissão de Landis, Lance foi finalmente descoberto por uma investigação da USADA (Agência Anti-Doping dos EUA).

O mais chamativo de tudo isso é que se um ciclista inglês tivesse vencido sete Tour de France, não acredito que a agência antidoping do Reino Unido teria mostrado que este atleta era um trapaceiro. E tampouco acredito que a autoridade francesa teria desmascarado um ciclista francês nas mesmas circunstâncias.


Esta é uma versão traduzida e editada da reportagem "David Walsh: "Lance tuvo mucha suerte de no terminar en prisión". Mano a mano con el periodista que desenmascaró a Armstrong". A íntegra da matéria está disponível em espanhol.