Se existe uma coisa em comum entre a população e a pandemia é que o mundo jamais será o mesmo depois do aparecimento da COVID-19. Nem na economia, nem na política, nem na cultura, nos costumes, e muito menos no esporte.
A crise chegou nocauteando a todos, inclusive o pobre esporte olímpico brasileiro, maltratado há anos por causa de má gestão, do roubo, do uso indevido de imagem e, principalmente, pelo amadorismo na administração e pelo profissionalismo quando se trata de corrupção.
E quem sofre com isso é a última ponta do processo todo, o atleta e os profissionais que vivem do esporte.
No Brasil o primeiro a quase ir para à lona é o basquete. Uma modalidade com tantas glórias no passado distante, carregado por lendas como Amaury Passos, Wlamir Marques e mais recentemente por Oscar, Marcel e tantos outros. Vejam só a que ponto chegamos.
O renascimento da modalidade se deve muito ao surgimento revolucionário da NBB que, há 12 anos, vem lutando para revigorar o basquete brasileiro, antes, respeitado não só no país, mas também no mundo afora.
E o trem que parecia estar de volta aos trilhos infelizmente descarrilhou. A pandemia acertou em cheio a economia e, consequentemente, os patrocinadores do esporte. Que o digam os “menores” da liga nacional com seu times e orçamentos para lá de enxutos.
Uma reunião nesta quinta-feira, 30 de abril, dará uma luz sobre os próximos passos do NBB. Segundo o ex-jogador e hoje presidente da liga, Nilo Guimarães, os planos para o futuro preocupam mais do que o presente. A chave é se reinventar no meio da pandemia.
Enquanto o NBB não sabe como será o restante do ano, algumas equipes já definiram, e a definição foi drástica. A Associação Bauru Basketball Team foi a primeira a jogar a toalha. O Esporte Clube Pinheiros, embalado no desmanche da equipe do interior, também determinou o cancelamento dos contratos de todos os jogadores e comissão técnica no dia seguinte.
A reportagem da ESPN entrou em contado com as duas equipes a fim de entender o momento pelo qual os times estão passando.
Associação Bauru Basketball Team
“Nós tivemos que tomar essa dura decisão, que eu chamo de conservadora. Estudando a saída dos patrocinadores, verificamos que não teríamos dinheiro para arcar com os compromissos, ou seja, com os contratos dos jogadores que venceriam entre maio e junho, por isso decidimos antecipar a rescisão dos contratos”, explicou o presidente do Bauru, André Goda, advogado de 50 anos, responsável pela decisão mais drástica de toda a história da equipe.
“Foi a decisão mais difícil de toda a minha vida na gestão esportiva. Não enganamos ninguém, estamos acertando todos as rescisões de contratos, ou seja, os pagamentos salariais até o fim desta semana e, melhor, não estamos colocando nenhum jogador, muito menos algum membro da comissão técnica, em risco diante dessa COVID-19. O que ainda precisamos negociar, com cada atleta, é o direito de imagem. Claro que cada caso é um caso. O atleta que tem um salário menor, a gente já está fazendo o acerto, mas daquele que tem grandes salários, a gente vai parcelar, até porque não tivemos mais jogos e nem imagens dos jogadores sendo usadas. De qualquer forma, acertaremos tudo que foi combinado”, disse Goda.
O presidente do clube do interior falou sobre o modelo de captação de recursos, diferente de outras equipes, já que, na visão dele, para a temporada 2019-2020 seria interessante ter muitos e pequenos patrocinadores, para que o time não dependesse apenas de um grande. E o plano até que vinha dando certo até o surgimento da pandemia.
“A gente tem tentado como pode para viabilizar a montagem de um time, modesto, mas competitivo para essa temporada. O pessoal até brinca que o Bauru tem a camisa mais ‘poluída’ do basquete, mas foi o jeito que achamos para continuar na liga. Temos 12 jogadores apenas, com uma estrela [Larry Taylor]. Nosso objetivo era ficar entre os seis nesta temporada, até por causa do orçamento. Para você ter uma ideia, até a camisa de treino a gente tirou o número das costas para encaixar mais patrocinadores, apoiadores de empresas menores, mas fundamentais para a nossa sobrevivência”, disse o presidente.
A reportagem apurou que cada um dos cerca de 20 patrocinadores desembolsava entre R$ 10 e R$ 15 mil mensais, em média. Goda afirmou que, em reunião com todos os patrocinadores, em torno de 15 decidiram retirar, provisoriamente, o investimento de suas empresas no time de basquete de Bauru.
A pergunta que fica: o Bauru acabou? Segundo Goda, não.
Esporte Clube Pinheiros
Se no Bauru, o presidente disse que a equipe não vai acabar, o mesmo já não se pode afirmar pelos lados do Pinheiros. O tradicional time depende exclusivamente dos seus sócios, a maior parte da elite paulistana, e a dificuldade financeira fez com que a decisão fosse interromper as atividades do basquete profissional. Elenco e comissão técnica foram dispensados por carta. A equipe que ocupava a sexta colocação do NBB quando a competição foi paralisada.
A reportagem apurou que o Pinheiros rescindiu o contrato de nove atletas, deixando apenas os jogadores das divisões de base a postos para uma eventual volta da NBB.
Por se tratar de um clube que vive na sua quase totalidade de recursos vindos dos associados, com uma mensalidade de R$ 470, a entidade sofre uma pressão, que não é de hoje, por parte dos conselheiros e sócios para o fim do esporte de alto rendimento no clube.
Por isso, as demissões dos principais jogadores de basquete e do medalhista olímpico, ouro nos jogos do Rio 2016, Thiago Braz, preocupam.
A reportagem fez muitos contatos com pessoas ligadas ao basquete do Pinheiros, até que o presidente Ivan Castaldi Filho falou sobre o que está acontecendo.
Em 40 minutos de entrevista, ele disse que, na juventude, foi um bom jogador de vôlei. Filho de um pai praticante e apaixonado pelo atletismo, jamais abandonou a idolatria pelos esportes olímpicos. Mas, e o basquete?
“Desde que assumi, avisei a todos que, se não conseguíssemos um patrocinador para o time de basquete, acabaríamos com o projeto. Muita gente acha que é fácil, mas para você ter uma ideia, para montar uma equipe para disputar, por exemplo, o NBB, o clube gasta cerca de R$ 3,5 milhões por temporada. Não é fácil bancar os custos, já que a receita vem apenas dos sócios. Não foi uma decisão que aconteceu de uma hora para outra”, explicou o presidente.
Castaldi ficou irritado quando perguntamos se era verdade que a bandeira de campanha dele, na última eleição no clube, prometia acabar com as modalidades olímpicas e com o alto rendimento no clube. “Jamais. Aliás, esse é um assunto que me deixa até com o braço arrepiado, de raiva. Imagina, eu que já fui atleta, que amo o esporte... Você acha que eu quebraria com uma tradição do clube? Nós temos aqui 16 modalidades olímpicas, são aproximadamente 500 atletas.” “O que acontece é que, com a pandemia e com a queda de receita do clube, a gente teve que se adaptar ao orçamento, à nova realidade. Desde a quarentena, por exemplo, o clube deixou de arrecadar R$ 7 milhões, isso só com estacionamento, bares e restaurantes que estão fechados. Do sócio mesmo, desde de janeiro, a inadimplência é de 15%. Por mês, as 16 modalidades custam para o clube cerca de R$ 3 milhões por mês. Portanto, o que estamos fazendo é cortar 25% dos salários de todos os funcionários do clube e da maioria dos atletas”, afirmou Castaldi.
Ele vai mais longe quando fala das perdas consideráveis que o programa Bolsa Atleta do governo federal. Perdas que afetam diretamente o atleta e a preparação deles na Olimpíada que foi adiada. “O atleta sofreu um baque antes da pandemia. Em janeiro, o governo federal reduziu o bolsa-atleta para menos da metade. Por exemplo: se um atleta ganhava R$ 2.400 do governo, ele passou a receber apenas R$ 1.000. Nós, do clube, sempre oferecemos um complemento de R$ 1.600, em média, e continuamos assim. Só que se o atleta antes contava com R$ 4.000, agora ele recebe R$ 2.600. “ diferença é muito grande”, disse Cristaldi.
E o basquete, acabou? Cristaldi afirmou que, se o NBB voltar, ele colocará para jogar uma equipe de garotos, sub-23. Confirmou também que só voltará com a equipe principal se aparecer uma empresa para patrocinar os aproximadamente R$ 3,5 milhões por temporada.
E o atleta?
O ala-armador Betinho era uma das estrelas do Pinheiros. Aos 31 anos, ele é formado em administração de empresas e era um dos líderes do time, inclusive neste período de crise, por causa da pandemia e do pandemônio que virou a história de sua equipe, que vinha muito bem no NBB.
Filho do ex-ala-pivô Pantera, vivendo uma das melhores fases de sua carreira e cobiçado por outras grandes equipes do basquete nacional, Betinho conversou com o ESPN por telefone, na casa dos pais, em Limeira, no interior de São Paulo.
Perguntado sobre os boatos que correm nos bastidores do clube de que o a atual gestão do Pinheiros não vê com bons olhos o esporte de alto rendimento no clube, Betinho abriu o jogo.
“Nós nunca tivemos uma ameaça real de que o basquete no clube iria acabar ou que estivesse com dificuldades financeiras. Mas uma coisa que sempre ficou claro, antes e depois da eleição do atual presidente, é que tanto ele, quanto uma grande ala de associados, não gostariam de manter os esportes de alto rendimento no clube. Tem muita gente que não acha certo, que o importante é a parte recreativa, mas todos sabem que o Pinheiros ficou conhecido no Brasil e mundo afora por desenvolver e investir nos grandes atletas olímpicos. É uma tradição de anos e na minha opinião não pode acabar”, disse.
Aparentemente, Betinho não se demonstrou preocupado com as finanças, até por que receberá todos os salários de um contrato que estava previsto para encerrar agora, no meio de maio. Betinho disse que sempre teve a preocupação de guardar e investir todo o dinheiro que ganha há mais de 15 anos no esporte. A preocupação dele está mais voltada para os meninos que estão iniciando a carreira e com os empresários, para que não deixem o barco do basquete, mais uma vez, à deriva.
“Tem muitos jovens sonhando com uma carreira no esporte, no alto rendimento, e a gente tem a obrigação de olhar para essa turma. Aliás, peço para que os clubes, governantes e empresários olhem, principalmente, para a iniciação do esporte, para as categorias de base. É lá que iremos vencer o jogo, não só da formação esportiva como da educação de seres humanos. Parece até clichê falar da importância do papel social do esporte, mas ele é fundamental para a gente salvar e recuperar jovens de famílias de baixa renda e de crianças vulneráveis em todo o Brasil”, desabafou o filho da dona Rosângela, uma professora de educação física que trabalha até hoje com jovens vulneráveis no sistema público de educação.
Ele falou também da experiência de ser demitido por carta, via Correios, coisa que, antes da pandemia, seria inimaginável. O jeito que ocorreu a demissão causou um mal-estar entre todos, mas, segundo Betinho, existe uma luz no túnel. Em conversa com o diretor Fábio Ferraro, o ala ouviu que a situação merece uma pausa e não um rompimento definitivo.
“Quando recebi a carta do clube fiquei bem assustado, pois nunca havia passado por isso. Mas a diretoria afirmou que todos os contratos serão cumpridos, assim todos os salários serão pagos. No meu caso, tenho contrato assinado com o Pinheiros até o dia 15 de maio. O Fábio também disse que o clube espera uma posição da NBB para ver se o time segue na competição, já que na classificação geral estamos com pontuação para fazer parte dos play-offs”, declarou o jogador.
Recluso em casa, ele treina ao lado do pai para tentar minimizar o impacto inevitável na condição física.
A posição da CBB
Procurada pela ESPN, a CBB (Confederação Brasileira de Basquete) emitiu uma nota oficial sobre o assunto:
“Desde o início da pandemia e da paralisação das competições, a CBB vem seguindo rigorosamente todos os protocolos da Organização Mundial de Saúde (OMS), Ministério da Saúde do Brasil e da Federação Internacional de Basquete (FIBA). Mantemos contato com as ligas que chancelamos, a LBF e a LNB, e equipes do Campeonato Brasileiro, procurando entender todo o cenário do basquete brasileiro. Também criamos um canal de comunicação com a Associação dos Atletas Profissionais de Basquete (AAPB), nos colocando à disposição com assessoria jurídica e outras informações relevantes neste momento, tendo sempre o presidente da AAPB e atleta do Corinthians, Guilherme Teichmann, como centralizador das pautas.
Sabemos também que a paralisação do calendário é prejudicial para o esporte brasileiro, trazendo complicações financeiras. Mesmo assim, entendemos que o mais importante neste momento é preservar a saúde dos atletas, da base ao profissional. E que o retorno às atividades só pode acontecer dentro de um cronograma que leve em consideração orientações médicas e sanitárias. Entendemos que é um momento de união em prol do basquete brasileiro. Juntos, atletas, federações, ligas, clubes, técnicos, preparadores físicos e fãs, sairemos mais fortes dessa o mais breve possível.”
